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04-07-1998

VOZES
Os portugueses
no Canadá (3)



JOSÉ CARLOS
TEIXEIRA (*)
Imigrantes portugueses da primeira geração têm demonstrado o que os escritores portugueses chamam uma certa "apatia" política e até uma aversão. O regime salazarista, sob o qual a primeira geração viveu antes de imigrar, tem sido apontada como uma das razões por que os portugueses carecem de qualquer experiência e formação em respeito ao processo político. Isto fundamentalmente traduz-se numa baixa participação na vida política canadiana. Para a primeira geração portuguesa, até recentemente, política e envolvimento comunitário eram descurados. A desconfiança ou o medo da autoridade de qualquer pessoa do Governo, ou para qualquer um em posição de poder, era comum entre os membros dessa geração.
Com respeito aos portugueses oriundos dos Açores, outros factores contribuíram para o seu comportamento em termos de participação política na vida comunitária. O isolacionismo adquirido pelos açorianos durante o regime ditatorial chegou a proporções extremas, agravadas pela isolação geográfica do arquipélago.
Apesar do importante número de portugueses que vivem no Canadá e o seu alto grau de concentração em certos bairros, particularmente nas maiores cidades canadianas, o número no recenseamento ainda é demasiado pequeno; explica-se assim a falta de voto, por não serem cidadãos canadianos, em suporte de candidatos luso-canadianos em áreas de concentração de portugueses. A participação política da primeira geração portuguesa é mínima. Ainda não existe representação portuguesa a nível federal e isto enfraquece a força portuguesa na ajuda federal às instituições ou clubes portugueses.
A população portuguesa, nos recentes anos, através da mobilidade residencial, tornou-se mais dispersa. Um dos resultados desta mobilidade foi a redistribuição da população dos centros da cidade para os subúrbios. O movimento da saída do "núcleo central" reflecte-se distintamente no recenseamento de 1976. 1981 e 1991. Se a tendência continuar para a dispersão, o próximo recenseamento pode demonstrar um enfraquecimento da sua concentração do "núcleo central". Neste contexto reside o dilema das comunidades portuguesas no Canadá: comunidades em transição, saindo lentamente da isolação à integração e/ou assimilação.
A maioria dos imigrantes portugueses vieram para o Canadá para ficar, e isto tem sido um forte incentivo para os portugueses se integrarem na sociedade canadiana. Com vários graus de lealdade ao seu património cultural, os imigrantes portugueses parecem integrar-se bem na sociedade canadiana. Contudo, a existência caracterizada pela elevada concentração residencial inibem a integração e ajustamento na nova sociedade. Estes "bairros étnicos" circunvizinhos alimentam a isolação sociocultural, a qual tem vindo a diminuir o processo da integração da primeira geração portuguesa. Deste modo, e enquanto a ligação cultural dos valores tradicionais podem oferecer uma importante contribuição ao mosaico multicultural canadiano, pode vir a ser uma barreira à integração bloqueando a interacção com outros grupos étnicos. Existe já uma tendência entre os representantes comunitários de que os portugueses devem participar mais activamente na vida sociocultural e política das organizações não portuguesas. Actualmente, as comunidades de Iés-a-Iés do território canadiano demonstram que existe integração sem completa assimilação. As mudanças das áreas de concentrações portuguesas para os subúrbios é vista por membros das comunidades portuguesas como um indicador da integração dos portugueses na sociedade canadiana.
Existe um sentimento entre os membros da comunidade portuguesa de que a integração se faz gradualmente sem uma completa assimilação. É de notar num cabeçalho dum jornal canadiano: "Blending in: portuguese integrate so well that assimilation is a problem". Tal integração gradual à sociedade canadiana, para o qual os portugueses introduzem os seus valores culturais, está a induzir alguns responsáveis portugueses a considerar a formação duma nova cultura - "Portuguese-canadian culture" onde elementos de ambas culturas se fundem numa só. Uma cultura distinta está a emergir à qual se combinam os valores tradicionais portugueses com a cultura canadiana. Esta é a realidade da vida dos luso-canadianos - uma constante adaptação e uma profunda mudança de cultura.
Observações sugerem de que o processo da identificação cultural é o conflito mais crucial que a juventude portuguesa actualmente enfrenta. Para muitos jovens portugueses sendo "canadianos" e/ ou "portugueses" permanece um problema de identidade por resolver. Para outros serem luso-canadianos é poder reconciliar as duas distintas culturas. Para eles serem luso-canadianos é uma síntese e não uma contradição.
A segunda geração está a alcançar maturidade. Os seus níveis de educação estão a aumentar e a sua assimilação na sociedade canadiana é evidente. Existem indicações de que enquanto a identidade étnica é uma fonte de riqueza para alguns, para outros é uma fonte de conflitos. Desconhece-se se a segunda ou terceira geração portuguesa seguirão os mesmos caminhos que os seus pais e avós. Contudo, há tendência para a conservação dessa cultura, embora diferente, porque actual. No seu todo, poderá vir a ser problemática, a longo prazo, a sobrevivência dos organismos de expressão portuguesa. A comunidade portuguesa tende a assimilar-se na comunidade canadiana e o Governo português, se bem que afirme serem bem-vindos os imigrantes que queiram regressar a Portugal, encoraja a inserção dos portugueses na comunidade canadiana.
Apesar de tudo, estou optimista em relação ao futuro das nossas comunidades. Estou confiante de que as novas gerações de luso-descendentes serão capazes de dar seguimento ao excelente trabalho de base que foi a "construção" nas últimas quatro décadas, por parte da primeira geração, de uma complexa e rica comunidade portuguesa. Como professor universitário gostaria de compartilhar convosco algumas das minhas preocupações de modo especial, a falta notória de estudos científicos sobre os jovens luso-canadianos; mais estudos são necessários a fim de a) avaliarmos o grau de inserção dos nossos jovens no meio sóciocultural canadiano que os rodeia; b) avaliar o relacionamento dos nossos jovens não só com a comunidade portuguesa local mas também com Portugal, com a Iíngua e a cultura portuguesas. Estas são questões fundamentais que merecem ser estudadas, particularmente num momento em que é drástica a diminuição dos fluxos migratórios de Portugal para o Canadá. Compete agora à segunda e terceira gerações a questão vital da continuidade (ou não) da Iíngua e da cultura ("comunidade") portuguesas por terras do Canadá.


(*) Professor universitário no Canadá
 


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