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03-07-1998

VOZES

Os portugueses no Canadá (2)






JOSÉ CARLOS
TEIXEIRA *

Os luso-canadianos atingiram um nível extraordinário nos últimos quarenta anos na organização comunitária, estabelecendo instituições sociais, culturais e religiosas assim como empresas e serviços de informação na sua própria língua. Os portugueses são um povo sociável e, como tal, tentam recriar através das instituições portugueses a riqueza das suas tradições e cultura do novo mundo. As instituições luso-canadianas estabelecidas de costa a costa não são só pontos de encontro mas também meios de promoção da língua portuguesa e da sua cultura de origem, patrocinando actividades educacionais, sociais e recreativas e assistindo imigrantes que enfrentam problemas linguísticos ou outros problemas sociais. Nesta perspectiva, estas instituições desempenham um papel importante entre os luso-canadianos, ajudando-os a adaptar à sua nova morada.
A formação, nos últimos quinze anos, dum importante tipo de organizações "federais/provinciais" tais como a "Federação Luso-Canadiana de Empresários e Profissionais" (Federation of Portuguese-Canadian Bussiness and Professionals), Aliança dos Clubes e Associações Portuguesas de Ontário" (Alliance of Portuguese Clubs of Ontário), Câmara de Comércio e Indústria Canadá-Portugal), "Associação dos Empresários Portugueses de Winnipeg", "Aliança dos Profissionais e Empresários do Quebec", (Alliance des Professionnels et Entrepreneurs Portugais du Quebec) "La Chambre du Commerce Portugais du Quebec", "Congresso Nacional Luso-Canadiano" (Portuguese-Canadian Congress) são alguns dos bons exemplos da alta maturidade organizativa e do desejo dos luso-canadianos de criar organizações que se adaptem à nova era e geração.
Nesta fase, as organizações luso-canadianas ainda não satisfazem as necessidades totais e preferências da "nova" geração em termos de actividades sociais, culturais e recreativas. Novas medidas deverão ser implementadas de modo a não se perder a nova geração. Os representantes da comunidade têm um importante papel a desenvolver dando às mulheres e aos jovens portugueses uma "voz" mais activa na vida e destino das organizações portuguesas.
O grupo étnico português é dentro do contexto multicultural canadiano um importante complemento ao património cultural canadiano. Para preservar a sua língua e cultura, os imigrantes portugueses desenvolveram uma extraordinária rede de escolas comunitárias nas áreas de maior concentração portuguesa do Canadá. A escola portuguesa constitui um veículo privilegiado para a promoção da cultura e tradição portuguesa no Canadá.
A fonte de preocupação das comunidades portuguesas de hoje tem sido um elevado índice de absentismo escolar entre a juventude luso-canadiana. Individualmente mal ajustados ao choque cultural familiar e um programa académico mas ajustado às necessidades tem sido descrito como as maiores razões dum elevado índice de desistência entre os estudantes luso-canadianos. Membros da comunidades portuguesas no Canadá reconhecem que existem muitas carências referentes à educação da juventude luso-canadiana. Mas também reconhecem que o progresso tem vindo a ser feito gradualmente nesta fase da vida comunitária portuguesa e que há razões para o optimismo.
Segundo o recenseamento de 1991, o português é posicionado em quarto lugar nas línguas "não oficiais" do Canadá após o italiano, chinês e o alemão, com 211 040 pessoas declarando o português como sua "língua-mãe". Os estreitos laços familiares dos portugueses contribuem para a manutenção de língua portuguesa falada em casa por todo a agregado familiar. Por conseguinte, o agregado familiar é a maior fonte de retenção linguística.
Há provas de que a "assimilação linguística" ocorre dentro das comunidades portuguesas, particularmente entre as "novas" gerações. Existe um sentimento entre os membros das comunidades portuguesas de que a sua cultura está numa fase de transição, não totalmente implantada mas com tendência a adaptar-se ao novo meio. A língua portuguesa é um importante símbolo da identidade étnica, transmissora da cultura, estando também numa fase de transição com a juventude, utilizando a língua-mãe principalmente no círculo familiar com o fim da comunicação com os pais e avós, enquanto a preferência seja o uso do inglês e/ou francês quando em público.
As comemorações e festividades portuguesas desempenham um papel vital na vida das comunidades luso-canadianas. As festas de carácter religioso e cívico também fazem parte da vida sociocultural portuguesa. É importante notar que a nova geração de artistas luso-canadianos vai aparecendo e deixando as suas "impressões" na arte canadiana.
Nas últimas quatro décadas as comunidades portuguesas têm mantido um grande número de programas de rádio e televisão de língua portuguesa, assim como publicações portuguesas. Um total de 104 publicações foram identificadas durante o período de 1958-1995. Destas, 50 são jornais, 37 são boletins e 17 são revistas. Historicamente, a imprensa luso-canadiana tem sido limitada às grandes áreas cosmopolitanas canadianas, particularmente nas cidades de Toronto e Montreal.
Através dos anos, a imprensa étnica portuguesa (jornais, rádio e televisão) têm promovido a língua e cultura portuguesa e têm demonstrado um importante papel como ligação entre os dois diferentes mundos e culturas - Portugal e Canadá. Actualmente, esta fonte de informação étnica faz parte de ambas as culturas portuguesa e canadiana. Estas fontes de informação documentam o rico património luso-canadiano e, por isso, a sua utilidade nos estudos etnoculturais não devem ser negligenciados.
Durante os últimos quarenta anos a participação portuguesa na vida política canadiana tem sido mínima. O português, como grupo, não tem conseguido exercer influência política. Nas palavras de um jornalista luso-canadiano de Toronto: "A única política que os portugueses têm é a do trabalho". Em geral, as comunidades portuguesas através do Canadá têm sido descritas como não sendo suficientemente coesivas e de não possuírem os conhecimentos políticos necessários para se defenderem e promoverem os seus interesses e direitos da comunidade.
À parte dum pequeno grupo de luso-canadianos aderindo à volta dos movimentos democráticos luso-canadianos em Montreal ("Movimento Democrático Português de Montreal - Portuguese Democratic Movement of Montreal/ 1964 - ) e em Toronto (Associação Democrática Portuguesa" - Portuguese Canadian Democratic Association/ 1957 -), que os seus principais objectivos eram de se opor ao regime político de Salazar/Caetano em Portugal, assim como a "Associação Cultural 25 de Abril - Delegação da Associação 25 de Abril" 1994- ), que os seus objectivos são a divulgação, junto das comunidades, do acontecimento histórico "25 de Abril de 1974". O luso-canadiano tem pouca motivação ou preparação para uma participação política. Até à data poucos luso-canadianos conseguiram exercer actividades políticas a qualquer nível governamental.
Só a meados da década de 80 é que o candidato a membro do Conselho Escolar Católico - António Letra - foi eleito em Toronto. Em 1988, Martinho Silva foi eleito para o cargo de vereador pelo Bairro 4 da cidade de Toronto. Desde então Mário Silva em Toronto (foi reeleito para a Assembleia Municipal da Megacidade, em 1997), António Sousa em Hull e Amaro Silva em Winnipeg foram eleitos para assembleias municipais. Em 1995, pela primeira vez, um luso-canadiano, Carlos de Faria (Mississauga) foi eleito para Procurador da Província / Membro do Parlamento Provincial, e em 1997 Luís Miranda foi eleito presidente da câmara da cidade de Anjou (Província do Quebec). Também mais alguns luso-canadianos foram eleitos como delegados escolares.

* Professor Universitário no Canadá
 


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