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01-07-1998

Vozes
Os portugueses no Canadá (1)



JOSÉ CARLOS TEIXEIRA (*)

Os luso-canadianos são dos grupos étnicos mais jovens no Canadá. Só a partir de 1953 que o Canadá se tornou o país de acolhimento para os imigrantes portugueses. Hoje, após quatro décadas e meia da chegada oficial dos primeiros portugueses, poderemos encontrar comunidades portuguesas de costa a costa do Canadá. A maior parte dos luso-canadianos vivem na província do Ontário 202 395. No Québec vivem 42 975, na Colúmbia Britânica 23 380, em Alberta 9755 e em Manitoba 9530 (Statistics Canada, 1991). As autoridades portuguesas no Canadá dão uma estimativa da população portuguesa (primeira, segunda e terceira gerações) no Canadá de aproximadamente 500 mil. Tanto pelos seus números como pela sua contribuição à sociedade canadiana, os luso-canadianos ocupam um importante lugar dentro do "mosaico" étnico do país.
Uma importante característica dos portugueses no Canadá é a sua "natureza urbanística". As suas tendências urbanísticas são de origem recente; consequentemente a sua distribuição e concentração em áreas particulares da cidade (e.g.. bairros de imigrantes) não são surpreendentes. As "colónias" portuguesas no Canadá começaram a delinear-se durante os anos 60 e no começo dos anos 70. O crescimento constante da imigração portuguesa e o constante influxo de famílias contribuíram, em grande parte, para o estabelecimento e consolidação de bairros de imigrantes. A criação destes "bairros portugueses" foi uma fase importante no "ciclo de vida" da comunidade.
Utilizando o processo de "chamada em cadeia" os luso-canadianos tiveram êxito na imigração de Portugal para o Canadá de famílias inteiras. Desde a sua chegada, os portugueses tentaram manter a sua identidade cultural e modo de vida no seu novo meio. Mostraram um padrão distinto do qual se traduziu num isolamento espacial e social da sociedade canadiana. Esta segregação voluntária, realizada quase por necessidade, foi em parte uma barreira imensa à integração da primeira geração de portugueses na sociedade canadiana.
Nas duas últimas décadas, as comunidades portuguesas no Canadá continuaram a evoluir, ambas por um incremento natural e por um influxo imigratório português. Actualmente, nas cidades de Toronto, Montreal, Vancouver, Winnipeg e Edmonton pode-se identificar o "âmago" ou "centro" das comunidades portuguesas. No meio destes "centros" a visibilidade tem um papel importante e a "atmosfera étnica" existe. As comunidades portuguesas no Canadá, particularmente nas cidades mais importantes mencionadas previamente, são auto-suficientes. Atingiram um considerável nível de organização comunitária.
Dado que a maioria dos portugueses no Canadá fazem parte da primeira geração, não é surpreendente que a maior parte dos imigrantes pertencentes a essa geração demonstrem uma falta de participação na "vida" canadiana. Contribuindo para este comportamento há condições sociopolíticas sob o qual estes imigrantes viviam em Portugal antes de imigrarem. Existe um sentimento que a falta de unidade entre os portugueses inibiu os luso-canadianos na integração e participação na sociedade canadiana negando ao grupo uma mais activa e dominante voz na defesa dos seus interesses sociais, políticos e culturais no novo meio social.
Opiniões acerca de unidade das comunidades portuguesas ou da falta dela são contraditórias e inconclusivas. Alguns exprimem preocupação, argumentando que a falta de unidade é um problema sério. Outros vêem a falta de sucesso na criação de projectos de grande projecção, tais como a formação de organizações de "vanguarda" a fim de representarem os interesses das comunidades portuguesas, como significante manifestação da "personalidade" portuguesa. Por exemplo, tem havido bastante preocupação acerca da proliferação de pequenos clubes portugueses e associações nas duas últimas décadas, dificultando grandemente a sobrevivência dessas organizações no aspecto financeiro.
Segundo alguns escritores portugueses da diáspora, a falta de sucesso de alguns empreendimentos é a divisão que permanece entre alguns membros da comunidade portuguesa, o individualismo e temperamento dos imigrantes portugueses, a ambição de certos pseudolíderes que põem os seus interesses pessoais acima dos da comunidade, e a diversidade das diferenças regionais entre imigrantes portugueses. Com a maturidade dos portugueses da primeira geração e a integração das segunda e terceira gerações é de esperar que alguns dos dilemas com que as comunidades portuguesas se defrontam actualmente desapareçam.
Porém, esta mudança demográfica traz novos desafios. Uma característica comum de algumas instituições portuguesas é o seu pequeno número de membros e a falta de voluntários, particularmente na segunda geração de portugueses (nascidos no Canadá) na participação da organização dessas instituições. Segundo "membros-chave" da comunidade portuguesa no Canadá, as novas gerações de luso-canadianos estão menos envolvidas e interessadas do que a "velha" geração na vida orgânica e actividades das instituições socioculturais portuguesas. Com o decrescimento da imigração portuguesa para o Canadá, o maior desafio com que os representantes portugueses se defrontam presentemente consiste na motivação e criação da "atmosfera" necessária dessas instituições para que possam atrair as "novas'' gerações de luso-canadianos. Aqueles que defendem uma maior unidade na comunidade argumentam que os portugueses formam uma comunidade "fechada", sendo a família uma das mais importantes instituições na vida deles. Em tempo de crise, dentro da comunidade ou na terra natal, os luso-canadianos respondem prontamente com ajudas e contribuições. Os portugueses têm demonstrado, através dos anos, solidariedade na angariação de fundos a fim de financiar projectos comunitários e a ajudar os seus conterrâneos em carência durante emergências ou desastres.

(*) Professor universitário
no Canadá
 


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