O RIJOMAX

                                                                                                 J. Rentes de Carvalho

 

Aos sete anos tentou fazer o seu primeiro relógio. Com rodas de madeira. Aos doze foi trabalhar numa relojoaria. Em 1933, com vinte e um, estabeleceu-se em Tabuaço, vila alcandorada nos montes da margem sul do Douro, quase defronte do Pinhão. A partir desse momento tornou-se-lhe obsessivo construir um relógio diferente. E conseguiu-o.

Durante trinta anos reservou todo o seu tempo livre para o RIJOMAX. Nas palavras do folheto que ele oferece a quem o visita, 'O relógio mais completo do mundo - Uma obra misteriosa - Patente nr. 12931.'

Com os seus dois metros e pouco de alto e cerca de um metro de largo, o RIJOMAX à primeira vista não se impõe. E mau grado a grande quantidade de ponteiros, mostradores, mais de 16.000 algarismos e letras, não parece um relógio sério. Talvez porque o construtor o tenha enfeitado com o seu próprio retrato, brilhantes e rubis falsos, poemas, provérbios, imagens, luzes que piscam e um sem-fim de atributos. Isso é a aparência, e a gente sem querer ri-se. Quando o senhor Ribeiro começa a explicar, a gente cala-se.

O RIJOMAX está programado para funcionar durante 10 mil séculos em ciclos de 6272 anos. Corrige as diferenças existentes entre os vários calendários antigos e modernos. Ao fim de 128 anos suprime automaticamente o dia resultante do acréscimo de 45 minutos em cada ano bissexto. Contabiliza a diferença diária entre o tempo solar e o tempo do calendário, de forma que ao suprimir 1 dia em cada 128 anos, registará adicionalmente 29 minutos e 37 segundos.

 Passados 6272 anos terá suprimido 49 dias, mas a adição da diferença atrás mencionada será já de 24 h 11 minutos e 13 segundos, razão porque o mês de Fevereiro do ano 8172 será de 27 dias. O RIJOMAX marca também os equinócios, os solstícios, as fases da lua. Tem uma luz que se acende e apaga diariamente no momento exacto em que o sol nasce e se põe. Claro que mostra as horas, minutos, segundos, meses e anos da era cristã (estes últimos assinalados por um velho conta-quilómetros).

Possui calendários para se saber o dia da semana de qualquer data, 'desde 1 de Janeiro do ano 1 da era cristã, até ao presente e futuros.' Um dos seus ponteiros move-se de 100 em 100 anos para assinalar a passagem do século, enquanto as oscilações de outro duram meio segundo. Regista o ciclo solar e lunar, o da a letra dominical, a epacta.

- Sabe o que é a epacta? - perguntou-me o senhor Ribeiro.

Confessei que ignorava. Ele sorriu, explicou e disse que quase ninguém sabia.

Na face posterior o RIJOMAX possui mostradores com os calendários de Juliano e Júlio César, de Nabucodonosor, das Olimpíadas, De Abraão, Moisés, Salomão e da história de Portugal. Tudo a girar com misteriosas sincronias. Calcula e faz muitas coisas mais: umas estranhamente complexas, outras comezinhas, como dar 'a horas certas uma saudação em vocabulário religioso.'

Cumprimentei o senhor Ribeiro por demonstrar tanto engenho, tendo apenas a instrução primária. Ele agradeceu, sorriu, quis saber onde eu vivia. À palavra Holanda exultou. É que, explicou, ele próprio nunca tinha compreendido donde lhe viera a ciência para fazer um aparelho daqueles. Mas tempos atrás tinham entrado na loja dois desconhecidos, e um deles, assim sem mais nem menos, anunciou que o senhor Ribeiro não fizera o relógio sozinho: emprestara as mãos e dera o trabalho, isso sim, mas a ciência e os cálculos eram dum matemático holandês que nele tinha reincarnado e que em certas noites se vê a passear diante da igreja da praça, ali em frente.

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                           O COMÉRCIO SILENCIOSO

 

                                                                                        J. Rentes de Carvalho

 

Só pelas imagens que evocam, histórias há que nos acompanham a vida inteira. Ouvidas a primeira vez na escola, contadas por uma professora com o dom da palavra, a nossa imaginação vai-lhes depois acrescentando detalhes coloridos, e quando nos damos conta assumem proporções de romance.

Personagens saídos do caótico depósito da nossa fantasia participam nela com intrigas e aventuras. Onde tudo era deserto criamos um oásis. Deixamos a modesta realidade do lar para habitarmos os palácios das Mil e uma Noites. Transformamos o pouco em milagre. O comezinho em mistério.

Na sua simplicidade a história original é breve. Em 1415, depois da conquista de Ceuta, os portugueses ouviram pela primeira vez falar da grande caravana que todos os anos se formava em Marrocos e depois, vencendo as montanhas e o deserto, ia a comerciar até ao coração da África. Por si só isso não era novidade, sim o facto da caravana praticar o chamado 'comércio silencioso.'

Chegados ao rio Senegal os chefes mandavam tocar bombos e charamelas para anunciar a sua presença, enquanto os escravos descarregavam os camelos e colocavam as mercadorias na margem. A caravana retirava-se depois para o seu acampamento, passava aí a noite, e na manhã seguinte voltava ao rio. Junto de cada lote dos seus próprios produtos os mercadores encontravam uma certa quantidade de pepitas de ouro, deixadas pelos negros que viviam nos montes da margem oposta.

Se porventura a oferta lhes parecia insuficiente, diminuíam o seu lote e regressavam ao acampamento para passar a noite. Na manhã seguinte voltavam à margem. Em geral a quantidade de pepitas também diminuía, e assim regateavam invisíveis e silenciosos durante dias sucessivos.

Quando uma das partes se apoderava da mercadoria ou do ouro que lhe convinha, o negócio considerava-se fechado. Os chefes mandavam rufar novamente os tambores, em sinal de despedida, levantavam o acampamento e a caravana regressava a Marrocos. Sem nunca se encontrar ou se ver, ambas as partes mantinham um uso tão antigo que o próprio Heródoto já mil anos antes o referira.

Näo sei com que razão ou propósito a professora nos contou a história, mas lembro o sol da tarde, o pesadume que causava o ar abafado da sala, obrigando alguns de nós a repousar a cabeça nos braços e a quase adormecer sobre os tampos das carteiras.

À palavra caravana já eu, vestido com um albornoz branco, seguia num camelo carregado de sacos de conchas, sofrendo com o calor e o chouto desajeitado do animal. A luz intensa e a poeira levantada pelas centenas de camelos à minha volta obrigavam-me a cerrar os olhos, mas as palavras da professora - que eu ouvia vagamente como uma espécie de música de fundo - depressa me fizeram sair do deserto e entrar nas montanhas do Atlas a tremer de frio.

Veio depois a longa travessia da savana, a floresta temerosa, onde em redor se sentia a presença ameaçadora das feras. Mas finalmente estávamos diante do Senegal, rio largo de águas amareladas. Nesse momento juro que ouvi os tambores e as trombetas, recordo-me de ter desmontado com dificuldade, vejo ainda a expressão dos rostos exaustos dos escravos que tinham feito o caminho a pé.

Acordei na minha cama a tiritar de cansaço. Não tenho lembrança de nesse dia ter saído da escola, e até hoje não sei se sonhei em duas ocasiões o mesmo sonho, ou se, como sempre pedia quando rezava, nesse momento foi satisfeito o meu ardente desejo de pelo menos uma vez viajar no espaço e no tempo.

                        

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