PÁGINA DE DIÁRIO

 

 

 

                                                                                                   J. Rentes de Carvalho

Terça-feira, 18 de Maio, 1999 -  Por razões bizantinas, em que entravam em partes iguais o medo de serem enganados, o desejo de poupar uns centavos, e longínquas querelas de família, enquanto a maioria da aldeia comprava as botijas de gás ao Zézé, os meus pais e meia dúzia doutros compravam-nas ao Brás que, além de fazer desconto, as trazia a casa.

Eu herdei essa aliança, sempre envergonhado quando a mulher do Brás me aparecia à porta, a tremer com o peso  dos quarenta ou cinquenta quilos da botija cheia que carregava à cabeça. Desagradável era também o modo como ela me fitava em silêncio e, a demonstrar o seu cansaço, bufava alto, até que eu encontrava os cem escudos que minha mãe a tinha habituado a receber pelo trabalho.

Um desconto de cem escudos, uma gorjeta de cem escudos, que raio de negócio era aquele? E a mulher com o olhar de besta mortificada, que desaparecia mal eu lhe entregava a moeda... Mudei-me para o Zézé.

Numa aldeia como a nossa, infelizmente, poucas coisas são fáceis, e ao querer montar o clique da mangueira do fogão no cabeçote da nova botija, descobri que não encaixavam. Na botija do esquentador da água e nas dos aquecedores, idem.

Veio o Fernando. O Fernando é professor de ginástica no secundário, solteirão, bonitão, esmerado no vestir, prestável, o cigarro ao canto da boca.

Agacha-se na varanda a examinar as botijas e eu agacho-me ao seu lado, na esperança de o ver descobrir a causa do enguiço. Saca do canivete e raspa aqui, empurra ali, às tantas escapa-se um esguicho de gás fedorento.

‘O cigarro, Fernando. Tenha cuidado. Apague o cigarro.’

Aparento calma, mas o reflexo instantâneo é de deitar a correr.

‘Qual quê! Então está com medo? Olhe que não acontece nada, o gás  espicha para o outro lado. Além disso estamos ao ar livre. Se fosse dentro de casa não digo que não, mas aqui...’

Novo esguicho. Levanto-me, desconfiado que aquilo vai acabar mal. Mas ele não desiste e, durante mais de uma hora, corta um bocado de mangueira, aparafusa, desaparafusa, tenta encaixar umas nas outras peças que de toda a evidência são desiguais.

Vira-se de costas para a botija a acender mais um cigarro, o quinto ou sexto, protegendo a chama do isqueiro com a mão e a mostrar que, embora o ache ridículo, toma em consideração o meu medo.

Vem o Jorge. Onde o Fernando anda, o Jorge não anda longe. O Jorge, casado com a Céu, mulata risonha e bem-humorada que escapou à morte em Angola, é homem de sete ofícios. Capaz na recolha do mel e no calcetar de ruas, no arranjo de telhados e obra de carpintaria, mantém com o Fernando uma relação que não é de patrão e empregado, mas de sólida camaradagem. De  idade  pouco se devem levar.

O Jorge agacha-se. Acende o cigarro. O gás silva. Peço-lhes que parem, mas eles, absorvidos na sua teimosia, nem me ouvem. Sugiro ir a Carviçais, ao armazém do Zézé, e trazer de lá outras botijas. Qual quê! Não é preciso. Daqui a nada têm a coisa pronta.

Só à hora do almoço, exaustos, afogueados, acabam por desistir. Que realmente não vai dar certo. Deve ser defeito, coisa que já veio assim da fábrica.

E aparece o Zézé. Jovem, jovial e próspero grossista do fornecimento de gás, de materiais de construção, e de uns quantos mais negócios, vendedor de génio, a simpatia em pessoa.

Ri-se. Chama-nos tolos. O modelo dos cliques mudou, e nem que estivéssemos ali uma eternidade seríamos capazes de os fazer encaixar.

O correio tinha-lhe dito que estávamos numa atrapalhação com as botijas e ele desconfiou logo do que se tratava. Por isso tinha trazido meia dúzia de cliques novos. Era aparafusar na mangueira, encaixar, e pronto.

‘Estão a ver?’

Foi uma manhã de medo, mas bem menos temerosa do que a que tempos atrás  vivi  em Ciudad Rodrigo.

Tinha parado para meter gasolina, e no momento em que o vi sair do cubículo e dirigir-se a mim, tive a premonição de que o homem da bomba era louco. Pelo brilho esquisito dos seus olhos e porque ao mesmo tempo que introduzia a mangueira no depósito acendeu o cigarro com um isqueiro donde, devido ao calor, a chama saía em jacto.

‘O vento está para o outro lado. Não tem perigo nenhum,’ disse ele com um ar de troça ao notar a minha preocupação. E a provar a sua certeza fez pingar na mão um pouco de gasolina, apagando nela a ponta do cigarro.

‘Está a ver? Não acontece nada.’

Eu concordei com um aceno de cabeça, franzi a face num sorriso cobarde, e para que ele me julgasse descontraído tentei mudar de assunto, perguntei-lhe se na bomba vendiam chocolates.

‘Gelados. Cerveja. Chocolates não. Com o tempo assim quente derretem, ninguém os quer,’ respondeu ele de mau modo.

A mangueira disparou pela segunda vez e a gasolina ao regurgitar derramou para o chão. Ele tirou dum bolso do fato-macaco um novelo de desperdício, o isqueiro, as chaves do meu carro, um papel amarfanhado, um lenço, olhando-os alheado enquanto os passava de uma mão para a outra, indeciso do que fazer com eles. Finalmente entregou-me as chaves e com o isqueiro apontou a gasolina derramada no chão:

‘Podiam-se apagar ali mil cigarros, que não acontecia nada. Agora com o isqueiro bastava isto...’ e como quem se prepara para apertar um gatilho pousou o dedo sobre a rodinha da pederneira - ‘Íamos os dois pelos ares. Ia o carro, ia a bomba, desaparecia metade desta cidade de merda!’

Paguei-lhe. Ele contou vagarosamente o dinheiro, deu-me o troco, e em vez de responder quando lhe desejei as boas-tardes, perguntou se eu por acaso ia para a estrada de Béjar.

‘Não. Vou para Portugal,’ menti num reflexo.

Era pena, achou ele. Porque o seu serviço de facto já tinha acabado ao meio-dia e só estava ali à espera de arranjar boleia para Tenebrón.

‘É a sua terra?’

Não era, mas morava lá um primo sapateiro que o tinha roubado na venda duma horta. Com esse queria fazer um ajuste de contas que havia de dar para vir no jornal.

‘Raios me partam se antes do pôr-do-sol não lhe meto esta na barriga!’ E  sacando do bolso uma faca de ponta-e-mola fez-lhe saltar a lâmina.

Com um gesto de apaziguamento sentei-me ao volante, mas ele, transtornado, segurou a porta, queria-me explicar que a coisa tinha começado por uma questão de partilhas. Que ele e o primo dantes até tinham sido bons amigos, tinham feito a tropa juntos.

O meu alívio foi grande quando finalmente guardou a faca e atirou com a porta, resmungando que era pena que eu não fosse para aqueles lados. Mas o filho da puta não perdia pela demora. Abria-lhe as tripas. Tão certo como estarmos ali ambos.