O ENTERRO DE MEUS PAIS

 

                                                                                         J. Rentes de Carvalho

 

Devido ao choque a recordação desse momento tornou-se nebulosa. Creio que acabava de acordar quando o telefone tocou. Mas numa fracção de segundo, ao ouvir os estalidos e ecos que indicavam uma ligação longínqua, sentei-me na cama, o corpo retesado com o mau prenúncio, todos os sentidos alerta antes de reconhecer a voz amiga:

         - O teu pai morreu.

         - Vou esta tarde. Como está a minha mãe?

         - Muito aflita. Mas não te preocupes, nós cuidamos dela.

         Três linhas de diálogo. O resto era indizível e nenhum de nós quereria palavras de circunstância, ocas de sentido e sentimento. Pousei o aparelho. Tudo em redor se tornara irreal, suspenso, como se os olhos e o cérebro tivessem perdido a sintonia. A chuva e o vento de Novembro fustigavam as janelas, mas na perturbação do meu espírito não havia lugar para ruídos, a tempestade não era mais que o sombrio pano de fundo da minha pena. Lembro que os olhos se me encheram de lágrimas e que Loekie partilhando a dor e as recordações, me segurou a mão.

 

Poucos meses antes tínhamos estado em Portugal, uma visita igual à de tantos outros anos: a mesma gente, os mesmos passeios, momentos idênticos de calma e paz, os pequenos atritos que inevitavelmente nascem das maneiras diferentes de pensar e viver. Meu pai tinha-me pedido que o acompanhasse ao hospital da vila, onde precisava de ir ao Raios-X, e no hospital, depois de longas horas de espera, disseram-nos que o aparelho apenas podia fotografar pés e mãos. Para chapas da barriga era preciso ir à cidade. Fomos no dia seguinte. Uma viagem penosa pelo calor, a distância, as palavras super-ficiais sobre assuntos indiferentes, os longos silêncios.

         Duas enfermeiras manobravam o aparelho sem qualquer protecção, surpreendendo-me que não utilizassem os aventais de chumbo pendurados a um canto.

         - O senhor sabe o que é andar com aquele peso por este calor? São mais de dez quilos!

         - Mas é um perigo exporem-se assim ...

         - Dizem isso, mas olhe que já cá andamos há anos e ainda não nos aconteceu nada.

         Meu pai ia-se vestindo com esforço. O seu rosto tomara uma palidez acinzentada que eu lhe não conhecia e me alarmou, mas só quando nos sentámos no restaurante para o almoço tive coragem de lhe perguntar como se sentia.

         - Assim, assim.

         - E que diz o médico?

     - Diz que não sabe. Que primeiro quer ver as chapas - e com um encolher de ombros pegou na lista, o sinal de que se não falaria mais no assunto.

         Na semana seguinte, quando nos despedimos para voltar a Amsterdam, o seu aspecto parecia não ter mudado. Talvez aparentasse um pouco mais tristonho que antes, desinteressado do que acontecia em redor e, contra o costume, faltara-lhe a força para nos ajudar a pôr as malas no carro. Supusemos que fosse dos medicamentos.

 

Nessa tarde não havia voos directos para o Porto ou Lisboa.

         - Via Londres, talvez?

         A rapariga da agência acenou que não, enquanto ia anotando o que lhe diziam ao telefone. A única possibilidade de chegar no mesmo dia era fazendo um longo desvio por Frankurt e Genève. O pensamento deve-me ter ocupado mais que as impres-sões da viagem, pois não me lembro dos aeroportos por onde passei e apenas recordo um extraordinário crepúsculo quando voávamos sobre a Espanha e a aterragem tormentosa no Porto, onde o vento era ciclónico.

         O empregado da empresa dos carros de aluguer apagara já as luzes, mas tentando esconder a decepção que a minha pre-sença lhe causava, voltou a acendê-las, sentou-se a preencher os formulários. Como era o último vôo e passava das oito, não esperava clientes, explicou ele, numa tentativa de desculpa.

         - O senhor com certeza vem a negócios.

         - Não. Venho para o enterro do meu pai - disse eu, antes de me dar conta de como seria supérflua para um estranho a minha informação.

         Ele murmurou algumas palavras de condolência e olhou-me surpreso: - Para o senhor ainda ter pai, devia ser pessoa de muita idade.

         Respondi-lhe que sim. Uma mentira. Meu pai tinha feito setenta e quatro anos.

 

Se esqueci os detalhes do vôo, os da viagem do Porto para casa mantêm-se excepcionalmente presentes, devido talvez a uma consciência mais viva do perigo. De dia e com bom tempo os quase trezentos quilómetros do percurso fazem-se em cerca de cinco horas. Naquela noite, porém, devido ao ciclone e às trombas de água que tornavam algumas ruas intransitáveis, a primeira hora gastei-a eu a procurar sair da cidade. Aqui era um poste  derrubado, ali um engarrafamento ou um polícia a desviar o tráfico, boa gente a gesticular que mais adiante se não passava, bombeiros que acudiam a desastres. Quando final-mente alcancei a estrada senti-me intensamente só, arrependido de não ter aceite que Loekie me acompanhasse. "Queres que vá contigo?", tinha ela perguntado uma última vez na agência de viagens. Parecera-me melhor ir sozinho. Não tanto pelo descon-forto da viagem, como pelo receio de sobrecarregá-la com uma experiência dolorosa e para a não expor ao choque que eu supunha lhe causariam as manifestações de pesar para que nada a preparara.

         Agora ali, rodeado de trevas que o facho de luz dos faróis mal rasgava, avançando devagar por uma estrada quase deserta, ou atravessando aldeias que a tempestade tornara inóspitas, eu ressentia penosamente a sua ausência. E à solidão viera juntar-se um sentimento de abandono e inquietude: sem irmãos com quem partilhar responsabilidades, eu era agora o chefe da família, aquele que dá conselho e de quem se espe-ram decisões acertadas. Mas que sabia eu da cultura dos campos, do tratamento das oliveiras, das amendoeiras, do corte dos pinhos, da sulfatagem das vinhas? Como se preparavam os pomares e as hortas? Qual era a justa recompensa duma jeira? Quando se fazia o azeite? Quantos homens eram precisos para colher a amêndoa? Quantas mulheres? Eu só possuía ideias va-gas, baseadas em longínquas recordações dos meus anos de meni-no mimado, ou nos detalhes que meu pai discutia à mesa, de-monstrando a justeza dos seus pontos de vista e a argúcia da sua gestão. De olhos postos na estrada sentia-me frágil, precisado de apoio, penosamente ciente de que cada quilómetro me aproximava do momento em que sem apelo, e sem competência, teria de assumir o papel de herdeiro de meu pai.

 

Passadas duas horas desde a saída do aeroporto ainda nem sequer tinha chegado a Amarante, uns escassos setenta quilóme­tros. Foi então que, por razões que só o corpo sabe, depois de durante todo o dia sofrer náuseas ao ver comida, me tomou de súbito um tão premente desejo de comer e beber que, se não tivesse encontrado um pouco adiante um café à beira da estrada, suponho que teria perdido os sentidos.

         O estabelecimento estava cheio. Ao ver-me entrar quase todas os rostos se voltaram para a porta e, sem encarar ninguém em especial, dei as boas-noites. Se alguém respondeu, as suas palavras perderam-se no barulho da televisão. O am-biente parecia indiferente, mas a presença do estranho tinha criado um incómodo visível nos olhares mortiços do álcool e do tédio da noite. A marcar a pouca dura da minha demora, em vez de me sentar a uma mesa fiquei ao balcão. Bebi uma cerveja, comi uma sande. Pedi ao empregado que me embrulhasse mais duas e, para o caminho, me vendesse outra cerveja e uma água mineral.

         Quando ele, para se fazer ouvir por sobre o ruído, gritou que eu teria de pagar também as garrafas que levasse, algumas cabeças viraram-se para nós numa esperança de zaragata. No meio da sala um homem levantou-se e animado pela chacota dos outros veio para mim aos bordos, amparou-se ao balcão, agar-rou-me pelo braço. Éramos todos camaradas, declarou ele, fazendo com a mão livre um gesto que abrangia o café e o mundo. Eu concordei que éramos. Estávamos ali em boa camaradagem, decidiu ele. Estávamos. Se não era indiscrição, para onde ia eu àquelas horas? Respondi-lhe que ia para longe, a caminho da França.

         Ele tinha estado em França e já agora gostava de saber o meu destino. Paris, disse eu, tentando discretamente libertar-me dos dedos que me atenazavam. Paris! Ele conhecia Paris! Com uma punhada fez tilintar os copos no balcão. Onze anos a trabalhar naquela puta de cidade! Mas tinha ganho bom dinheiro. Os comparsas aplaudiram e vieram-nos fazer roda.

         - Aqui o monsieur vai beber uma copada com a gente - mandou ele, batendo-me nas costas e a acenar ao empregado para que servisse vinho a todos.

         Recusei de manso, para o não melindrar, desculpando-me com o perigo das misturas e a longa viagem que tinha pela frente.

         - Mas então vai outra cerveja - exigiu ele, dando-me a entender com o olhar torvo e novo apertão ao braço que era melhor não recusar.

         Brindámos à saúde uns dos outros, à fartura de Paris, à beleza do nosso Portugal. Uma rajada de vento abriu a porta. Alguém que estava perto fechou-a a pontapé, o que levou o patrão a pedir cuidado, ao que outro respondeu que metesse a viola no saco, ameaçando que se a rapaziada quisesse não ficava ali um tareco inteiro. As mulheres, sentadas ao fundo da sala, mandaram-no calar, porque com a gritaria não se ouvia nada do programa.

         A anunciar a despedida meti as sandes e as garrafas num saco de plástico, fiz um gesto de agradecimento e depois de apertar umas quantas mãos tentei alcançar a saída. Mas a espessura daqueles corpos que só empurrados se moviam e por brincadeira se interpunham entre mim e a porta, o ar pesado, as janelas embaciadas, tornaram tão agudo o sentimento de claustrofobia que, esquecendo o risco, abri caminho à força. 

 

Mais duma hora me levou a fazer as inúmeras curvas da subida do Marão: ora parado, até a enxurrada diminuir, avançando lentamente noutros pontos com medo de derrapar na lama e me precipitar nalgum despenhadeiro. Em Vila Real tinha deixado de chover. O vento continuava a soprar forte, mas no planalto o céu foi-se tornando gradualmente limpo, mostrando o brilho e aquele reflexo metálico que toma nas noites de grande frio.          Dali para diante tudo me era familiar, desde o odor das árvores às pedras dos muros, as capelas, os atalhos. Eram muitas as portas a que poderia bater se precisasse ajuda ou agasalho. Algumas casas avivavam recordações felizes, a lembrança de amigos que àquela hora repousavam, ignorantes da minha passagem. O cansaço, porém, não tardou a fazer-se sentir, tornando ilusória a distância entre as aldeias, levando-me a duvidar se ia pelo bom caminho. Em certos pontos inquietava-me o não ter atentado em marcas familiares, outras que eu supunha ainda distantes surgiam inesperadamente numa volta da estrada.

         Apeei-me num fontenário, lavei a cara e para dissipar o entorpecimento deixei correr longamente sobre os pulsos a água quase gelada. Por experiência sabia que teria ainda cerca de duas horas de caminho, mas como se o temor de chegar acele-rasse o tempo, essas horas passaram depressa e quase com surpresa cheguei ao cruzamento que leva à nossa aldeia.

         Estreita, mas confortável, a estrada desce para o vale com poucas curvas, aqui e além ladeada de mimosas. Por uma ponte diminuta atravessa-se um ribeiro, seguem-se alguns lanços rectos, duas subidas íngremes vencem a encosta até ao topo do monte e vê-se a aldeia. Um pouco mais adiante está um nicho. Mesmo de noite tenho o hábito de parar junto dele, porque a vista é bela, cheia de grandeza. Não parei. Mas talvez pela lembrança de meu pai o ter desenhado e mandado fazer, creio que foi ao passar o nicho que vividamente me senti transformar e, embora as primeiras casas ficassem ainda distantes, a minha viagem terminou aí. A partir desse ponto deixei de ser o viajante apressado que vinha de longe cumprir um dever, para instintivamente me vergar à solenidade do momento e ao poder do ritual. Tudo o que supunha abandonado, esquecido, perdido, me envolveu como um manto, simultaneamente empeço e conforto. E do meu eu pouco mais ficou que a consciência da própria insignificância.

 

Passei o cemitério, a casa do resineiro, o lagar do azeite, a igreja. Tudo deserto e silencioso. Mesmo os cães que costumam ficar deitados às portas tinham desaparecido, a abrigar-se do frio. Desci lentamente a rua até à travessa que leva à nossa casa. Com tudo tão escuro em redor - a iluminação pública apaga-se à meia-noite - e os olhos ainda habituados à luz dos faróis, ao sair do carro tive um momento de cegueira, mas logo aos primeiros passos me vi rodeado de gente que me apertava, me acarinhava, uns a murmurar palavras de consolo e compaixão, os abraços doutros mais expressivos que palavras, rostos duros sulcados de lágrimas, o pranto comovente e inesperado dos jovens.

         Avançar era difícil. Faltavam os doentes e os pequenitos, mas o resto da aldeia estava na travessa, nas escadas, no patamar. Ao entrar em casa e ver nela tão grande ajuntamento, a minha reacção instintiva foi temer um desastre, pois por mais grossas que fossem as suas tábuas e as vigas de madeira que o sustentavam, o soalho centenário não aguentaria muito tempo tamanho peso. Sentadas, acocoradas, encostadas ou em pé, havia pessoas por toda o lado. Algumas, impossibilitadas de se acercar, faziam de longe um gesto de carinho e pena. Outras exprimiam a sua dor com palavras ininteligíveis, agarravam-se a mim, tomadas dum desespero mais fundo do que aquele que eu era capaz de demonstrar.

         O caixão estava no meio da sala e à cabeceira dele tinham improvisado um altar onde ardiam grossas velas e as lâmpadas de azeite com três bicos, tradicionais nos nossos velórios. Minha mãe, perdida de dor, deve-me ter tomado por alguém que a tentava confortar e de cabeça enterrada nas mãos não ouviu as minhas palavras nem atendeu aos que lhe diziam que o filho tinha chegado.

         Junto do cadáver paralisei. Quis beijá-lo e não fui capaz, tomado por um medo irracional. O rosto de meu pai, habitualmente tenso e severo, ganhara uma extraordinária serenidade, como se a morte o tivesse libertado de sabe-se lá que pesos e torturas. Disse as minhas orações e finalmente, vencendo-me, consegui tocar-lhe as mãos, tocar-lhe a fronte.          Fui sentar-me ao lado de minha mãe, que só então me reconheceu e depois, mais calmo, não pude deixar de me maravilhar com a cena onde eu destoava como um estranho, o único que, fora as crianças, não vestia luto.  Embrulhadas nos seus xailes pretos, as mulheres apenas mostravam o rosto e as mãos, e os homens mais velhos mantinham os chapéus na cabeça, marca de respeito pelos mortos, guardada desde os séculos longínquos em que os judeus se tinham exilado nas nossas terras. Ouviam-se soluços. Por vezes ia alguém para junto do defunto e numa última confidência falava-lhe em murmúrios, segurando-lhe as mãos. Outros beijavam-no. Homens rudes que não podiam conter as lágrimas, voltavam aos seus lugares de cabeça baixa, como que surpresos da emoção que os tomava.

         Eu sabia o que meu pai significara para a aldeia durante os anos que nela vivera depois da sua reforma: a ele se devia o termos uma estrada boa, caminhos largos, electricidade, telefone, água com fartura. Eu sabia também das ajudas discretas, dos encargos, das pastas cheias de requerimentos, da sua firmeza em lutar contra uma burocracia habituada a espezinhar os humildes. Mas porque na ordem das coisas a gratidão costuma ser fugidia, maior era o meu pasmo por tantos testemunhos de apreço. E os inimigos, que os tinha, estavam também presentes. Cortesmente, para que se eu quisesse lhes pudesse negar a entrada, tinham esperado a minha vinda e ido depois, com solenidade, postar-se um momento em oração junto do morto.

         De todas aquelas expressões de pesar, a mais dolorosa e dramática era a de minha mãe. Ela tinha acompanhado meu pai ao hospital e ao vê-lo adormecer voltara a casa sem receio, para na manhã seguinte se ver confrontada com a notícia brutal da sua morte. Não era apenas a perda dum amor que durara mais de cinquenta anos, mas a duma vida a dois que o tempo tinha tornado inseparáveis e duma intimidade crescente. Por isso agora, indiferente a tudo o que a rodeava e movida por uma irreprimível vontade de negar a morte, levantava-se bruscamente para se abraçar a ele, dizendo palavras de ternura, palavras de medo, pedindo-lhe que vivesse e a não abandonasse.

         Porque me doía o vê-la sofrer assim e supondo que fazia bem, duma vez ainda tentei segurá-la, mas logo os que estavam perto mo impediram. Que a deixasse em paz, disseram em voz baixa, todos tinham o direito de prantear o defunto, ela mais que ninguém. As palavras eram cordatas, mas também mal dissimulavam a estranheza que lhes causava um filho sem pranto e sem luto.

 

Como as contras estavam fechadas e a casa continuava cheia de gente, só quando me vieram dizer que o padre tinha chegado para o enterro me dei conta que era quase meio-dia. Exausto de cansaço, mortificado pelo choro lancinante que prenunciava o fechar do caixão, mortificado por não poder consolar minha mãe, eu sentia o desespero de alguém à deriva, espectador dos seus próprios actos, desnorteado pelas suas emoções. Mal aten-tei que me levavam para fora da sala e custou-me a compreender que me pediam uma decisão.

         Por honra, os amigos de meu pai tinham-lhe aberto a cova no cemitério e queriam eles próprios levar o caixão. Mas os rapazes não achavam justo. Esse privilégio pertencia-lhes, já que os velhos se tinham adiantado a fazer a cova e que a eles nada mais restava como homenagem. As raparigas, essas pelo menos tinham podido cuidar das coroas de flores e da ornamentação da igreja. Eu que decidisse.

         Os rapazes tinham razão. Pai distante e severo para mim, para eles tinha sido confidente e conselheiro, intermediário em momentos difíceis, apaziguador de desavenças familiares, padrinho dos casamentos. Com eles ia à caça, de que eu não gostava. Com eles falava de lavoura, de que eu nada sabia. Pedi aos velhos que compreendessem e aceitassem o que eu sugeria: os rapazes levariam o caixão de casa para a igreja, eles de lá para o cemitério. Acenaram que sim, conformados, de cabeça baixa para que lhes não visse o descontentamento.

         As raparigas também me esperavam, em grupo, sem palavras para dizer. Os abraços e beijos que me queriam dar não eram apenas de conforto e respeito pela minha perda, antes um selo que nos unia. Eu estava a par das tragédias e das vergonhas, das incompreensões, dos amores infelizes. Não por meu pai, que era discreto, mas por minha mãe que, para as más-línguas não

levantarem boatos, estava sempre presente quando, como ela dizia, elas o visitavam  "Para a confissão".

 

Mais tarde contaram-me que atrás de nós ia um mar de povo e que com os amigos e conhecidos vindos doutras aldeias, da vila e até de longe, havia três vezes mais gente fora da igreja que dentro dela.

         O padre e meu pai não se davam. Por isso a missa foi breve, com um sermão banal. Assim que pronunciou as últimas palavras rituais, e sem o decoro dum momento de pausa, o padre acenou ao sacristão para que o enterro se pusesse em movimento e num gesto infeliz, ou propositado, consultou o relógio. Da igreja ao cemitério é um meio quilómetro e logo ele se nos adiantou, indiferente aos olhares que os acólitos lançavam para a rectaguarda, preocupados ao ver como crescia a dis-tância que os separava do enterro. Os homens que levavam o caixão abrandaram propositadamente o passo e numa volta da estrada o padre desapareceu. Quando o voltámos a ver esperava junto do portão, apoplético, irado, resmungando em voz baixa para o sacristão que considerava aquilo uma desfeita.

         A despedida foi emocionante. Minha mãe desfaleceu, teve de ser amparada e, comovidos, os amigos que tanto brio tinham posto em abrir a sepultura e trazer o caixão desde a igreja, não tiveram força nem coragem para o baixar à cova. Por fim foram os rapazes que o depuseram e depois de eu lhe lançar a primeira mão-cheia de terra, a cova foi-se lentamente enchendo à medida que as pessoas iam passando. Em pequenos grupos regressámos à aldeia. Ao entrar em casa surpreendeu-me encontrar tudo arrumado e os móveis repos-tos nos seus lugares. Junto duma imagem ardia uma vela, mas fora isso nada mais lembrava o enterro.

 

Com o seu modo, os seus hábitos, a maneira de se sentar à escrivaninha, meu pai sempre tinha sido uma presença forte e era em volta dele, às suas ordens ou segundo os seus humores, que a vida doméstica se organizava. Por isso mais vazia me pareceu a casa no dia seguinte, um domingo soalheiro e quente como costuma ser por vezes o tempo do Outono. Envolta no seu xaile preto, a cabeça coberta, julguei que minha mãe se tivesse aprontado para a missa, mas mesmo depois do último toque do sino continuava sentada, imóvel, aparentemente em oração. Sem saber que fazer e temendo incomodá-la, eu vagueava pela casa, abrindo sem razão um livro, pegando um objecto, indo até às janelas que dão para a serra a maravilhar-me com a imutável paisagem dos meus anos de menino.

         De súbito, no mesmo momento em que ao ouvir o ruído de muitos passos me lembrei da tradição, minha mãe levantou-se, acenando-me para que a acompanhasse. Quando chegámos à varanda a rua estava de novo apinhada de gente. Todos os que tinham assistido ao enterro tinham ido à missa e, com o padre à frente a recitar o breviário, vinham simbolicamente devolver o corpo do defunto à casa, a sua verdadeira morada.

         Chefe da família, filho único, a mim caberia a obrigação de agradecer. Mas porque adivinhasse a confusão do meu espírito ao defrontar o ritual esquecido, ou simplesmente desejo seu, minha mãe adiantou-se para falar.

         Pequena de estatura, apagada na aparência, a vida inteira na sombra de meu pai e sem jamais se ter dirigido a um públi-co, ela pôs de lado por instantes a sua dor e, ganhando inesperada dignidade, com palavras solenes agradeceu a amigos e inimigos. Aos primeiros o carinho, o apoio que nos tinham dado naquela hora má, as marcas de respeito, a gratidão. Aos outros a sua presença, sinal de absolvição e concórdia. Fossem todos em paz, que Deus os abençoasse.

           Nos rostos lia-se o pasmo e a incredulidade de que realmente tivessem ouvido semelhantes palavras da boca de minha mãe. De olhos baixos, de novo envolta no seu luto, ela recolheu-se a casa, enquanto que a multidão se abria para deixar passar o padre e os acólitos, afastando-se depois lentamente.

 

Durante o resto do dia minha mãe atarefou-se a abrir e a fechar arcas de roupa, gavetas, armários, uma lida febril que supunha eu a distraísse um pouco do seu abatimento. Às minhas perguntas respondia com um ar absorto, como se tivesse difi-culdade em me compreender ou apenas o fizesse por cortesia, e de cada vez que eu entrava na sala tinha a impressão de que ela preferiria que me afastasse. Finalmente, quando por acaso reparei na roupa dobrada sobre a mesa, dei-me conta da minha indiscrição e fechei-me no meu quarto, para só de lá sair muito mais tarde, ao ouvir bater à porta da rua.

         As três mulheres - eu sabia quem eram, mas envoltas nos seus xailes e de cabeça baixa não se lhes distinguiam as feições - passaram silenciosas, encaminhando-se para a sala onde minha mãe esperava. Voltei a fechar-me no quarto, respeitoso do segredo, e deitado no escuro, avivando lembranças remotas da infância, tentei reconstruir a cena que a minha condição de homem adulto me impedia de presenciar.

         Duas eram casadas, mas jovens, com filhos pequenos, a mais nova era solteira ainda e pouco mais teria que vinte anos. De moto próprio ou por razões que não sei, a elas tinha cabido fazer a lavagem do cadáver, um rito imemorial de que nas nossas aldeias as mulheres se encarregam. O que se passava agora na sala era a morte simbólica de minha mãe, o seu "enterro" para as alegrias e coisas do mundo. Sobre a mesa, dividida em três montes, estava a sua roupa melhor, estavam os atavios, as sedas, tudo o que era superficial e realçava a vaidade. As mulheres murmurariam fórmulas e orações, passadas de geração para geração através dos séculos, às quais ela responderia de maneira apropriada com outras orações e fórmulas. Depois, cada uma com sua trouxa, partiriam em silêncio. A elas, cheias de vigor e juventude, cabia reatar o fio quebrado, continuar a vida.

                  

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