A OBRIGAÇÃO  DA  EUROPA  PARA  COM OS  PORTUGUESES


   J. Rentes de Carvalho

 

Em Agosto de 1984 comemorou a revista literária holandesa De Gids os seus cento e quarenta e sete anos com a publicação de uma antologia de outros tantos textos.

Dedicada à memória de Multatuli (pseudónimo de Eduard Douwes Dekker, 1820-1887), o grande escritor holandês do séc. XIX, autor de Max Havelaar, obra de que se festejava então o 125° aniversário, a antologia incluía temas variados, tendo-me cabido a mim discorrer sobre “A obrigação da Europa para com os Portugueses.”

Nesse mau ano para a economia e a vida política portuguesa, o estado do meu espírito era de desespero e raiva. De desespero por constatar que Portugal parecia incapaz de construir o seu próprio destino. De raiva pela subserviência com que os nossos políticos de então se  dobravam às exigências da CEE.

Em dezoito anos alguma coisa mudou. Mas mudou no superficial, não no essencial. Pouco adianta ter autoestradas, se só um escasso número pode pagar a gasolina. Pouco adianta construir uma ponte espectacular, e deixar a maioria das existentes a ameaçar ruina. Pouco adianta ter escolas se nelas o ensino é mau. É insensato dissipar em estádios os dinheiros públicos que seriam melhor e mais justamente empregues em terminar com os bairros de lata.

Em 2002 a situação económica de Portugal compara-se à de 1984. Entretanto, nem o meu desespero nem a minha raiva abrandaram. Bem ao contrário.Vão aumentando. Porque o tempo passa, a tragédia aproxima-se, e em parte nenhuma se descortina alguém, governante ou governado, que se levante e diga: Basta!

 

 

 

Nos últimos vinte e cinco anos a história de Portugal regista como aconteci-mentos mais importantes o fim do império colonial, a queda do regime fascista e o restabelecimento da ordem democrática.

      Se bem que, à primeira vista, a restauração das liberdades e dos direitos se possa considerar um benefício, os três acontecimentos citados contribuem para fortalecer no observador perspicaz a certeza de que na história dos países pobres se repetem, ampliadas, as desgraças que afligem as famílias em penúria.

      A obtenção repentina de um bem pode, em ambos os casos, dar origem a desequilíbrios tais que, passada a euforia e a surpresa, se anseia com desespero o retorno dos males antigos. Vistos à distância, e comparados com os malefícios do momento presente, sempre aqueles parecem de menor porte, mais suportáveis, arrepende-se a gente da ingenuidade com que lutou contra eles.

 

A partir do momento em que em fins do século XVI termina a grande aventura dos Descobrimentos, a história de Portugal caracteriza-se, sobretudo, pelo seu aspecto regressivo. Enquanto que a generalidade dos países progride, e alguns, mais infelizes, param, o excêntrico Portugal recua.

      A Holanda acelera os estudos da biotécnica. Na Inglaterra pode dizer-se que literalmente chovem computadores nas escolas. Os franceses já pagam com a smart card. O Lesotho e as Maldivas incrementam o turismo e a prostituição. Taiwan, Hong-Kong, a Coreia do Sul, estão na ponta do progresso industrial. A Albânia (em 1984) excede-se a demonstrar a viabilidade da sua ortodoxia política. O Paquistão prepara a bomba...

      No meio deste concerto de nações que se mexem, avançam, ou que por teimosia ou infelicidade são obrigadas a parar, a minha pátria dá ao mundo o espectáculo extraordinário e único de um país a caminho do passado.

Tendo por fontes de receita quase exclusivas o dinheiro que lhe mandam os seus emigrantes e os empréstimos que de má-vontade lhe vão sendo concedidos, Portugal, se fosse pessoa, já há teria sido condenado por falência.

Essa dependência da generosidade dos seus filhos e da paciência dos seus banqueiros, aliada às consequências de uma mentalidade que dos antigos colonizadores - fenícios, gregos, romanos, visigodos, árabes e ingleses - apenas guardou aquilo que eles lhe deixaram de pior, tem por consequência um formidável desleixo, um descalabro sem igual.

A sua corrupção torna mínima a do Paraguai. A incompetência dos que o governam ultrapassa a que se atribui aos políticos nas comédias. Nas suas cidades e aldeias descobre-se uma miséria que não destoaria no Bangladesh.

 

Agora que na CEE se delibera sobre a maneira de permitir ao pobre Portugal sentar-se a um canto da mesa dos países ricos - não para comer com eles, evidentemente, apenas para que as migalhas que lhe derem evitem que a sua falência e morte possam vir a ser vergonhosamente repentinas - eu gostaria de recordar, e na medida do possível actualizar, uma solução radical proposta internacionalmente em fins do século XIX para resolver os males crónicos do meu país.

      Claro que, como acontece com a maioria das soluções radicais, se terá de fechar os olhos a um ou outro ponto da moral vigente. Isso, contudo, não será de molde a sobressaltar ninguém, habituados que estamos a que a moral, como o dinheiro e outras certezas antigas, se desgastem com o tempo.

      A solução que proponho, vantajosa para todos os que nela participarem, resume-se na venda pura e simples de Portugal a um consórcio de nações ricas, evitando-se assim o triste espectáculo de um país que, vivendo de esmolas, só tem como futuro o espaço de tempo que a esmola lhe concede.

      Evitam também as nações ricas o incómodo que causa o terem de abrir a porta ao velho fidalgo colonial que, de mão estendida, pede que lhe acudam à miséria.

      Fosse menor o volume das suas dívidas, poderia pensar-se em recorrer a um desses árabes que, ricos em petróleo e ouro,  discutem pouco e pagam a contado. Mas é evidente que não se pode tratar aqui de iniciativa particular, pois um país, com o seu território, os seus cidadãos, a sua história, sempre tem mais importância que a compra dum camelo num oásis.

 

Soluções novas, pouco correntes, levam necessariamente à utilização de métodos inéditos. É por essa razão que eu, sem possuir quaisquer outras qualificações que a de ser português e, por conseguinte, directamente interessado, me atrevo à sugestão que segue.

Em primeiro lugar devem os banqueiros e políticos estrangeiros decidir sobre o montante a pagar, o qual, recomendo, não deve exceder o valor dos débitos a solver.

Evite-se a todo o custo que quantias em líquido ou cheques descontáveis passem, mesmo por um instante, pelas mãos dos governantes, pois logo eles as farão desaparecer a caminho das contas numeradas e dos fundos secretos.

Resolvido esse preliminar, as nações compradoras mandarão construir um muro sólido ao longo da fronteira terrestre portuguesa. Aqui e além - onde hoje, por exemplo, passam as principais estradas - será aberto um certo número de portões, guardados severamente por uma polícia europeia. As entradas e saídas deverão ser totalmente proibidas durante um período de, digamos, cinco anos.

Uma força naval, também europeia, poderosa e veloz, manterá do lado do mar a mesma vigilância rigorosa, não permitindo mais que a navegação de barcos de pesca a remos ou vela até à distância máxima de duas milhas da costa.

Cada infracção será punida com a pena de morte. Será igualmente proibido todo e qualquer intercâmbio com Portugal, mesmo o dos rádioamadores ou dos columbófilos.

Ao cabo de cinco anos o desgaste e o desleixo, aliados à tendência nacional de ir a passos largos para o passado, ter-se-ão encarregado de destruir, ou pelo menos de danificar de modo irremediável, a maioria dos vestígios da modernidade.

O número de veículos diminuirá drasticamente. Os aviões - proibidos, aliás, de levantar vôo - enferrujarão nos aeroportos. Dos combóios só funcionarão aqueles cuja solidez resiste ao tempo e à incúria, tais como os que ainda hoje fazem a linha do Sabor, com locomotivas de 1904 e carruagens do mesmo ano.

A fome, o desespero, a doença, a tristeza e a velhice, que nas circunstâncias actuais são causas de morte lenta, verão aumentada a sua eficácia, e a  população, que anda agora pelos nove milhões, cairá para três ou quatro.

A inexistência de adubos, aliada à falta de máquinas, fará retrogradar a lavoura a um bucolismo bíblico. E não somente nas aldeias, mas mesmo nas ruas de Lisboa, hão-de ver-se mulheres a fiar lã e homens agasalhados em peles de animais.

Haverá rebanhos a pastar nos jardins públicos. Os amoladores, os aguadeiros, os ferradores, as lavadeiras e os almocreves, todas essas profissões antigas terão a sua renascença, e a substituir a defunta televisão far-se-ão representações de saltimbancos.

A água dos rios e ribeiros ganhará a limpidez original e, sem cair no ridículo, os poetas de novo poderão compará-la à clareza dos olhos da mulher amada. Ou vice-versa.

Nas casas brilharão as candeias de azeite e as velas de cera de abelha. Para os transportes recorrer-se-á à segurança pachorrenta dos carro de  bois. Os soldados e os amanuenses terão, como antigamente, de lutar à mão e de escrever à mão, do que resultará um desânimo ainda mais acentuado para ambas as classes.

As universidades serão encerradas, pondo-se termo a certas profissões como a de médico ou de engenheiro, encorajando-se o retorno das mulheres de virtude, dos endireitas e dos ervanários.

A existência do dinheiro será proibida, e a posse de qualquer forma de valores - ouro, prata ou semelhantes - punida com o enforcamento em público. Os cidadãos viverão numa economia de troca, somente aplicável aos artigos de vestuário e alimentação.

As sedes dos bancos serão transformadas em catedrais, e as suas filiais em igrejas ou capelas, consoante o tamanho, havendo nelas serviços religiosos permanentes, durante os quais se pedirá ao Altíssimo o regresso dos tempos em que em Portugal havia mouros, bruxas, a peste negra e um pássaros com cara de gente e pés de cabra.

 

 

Bem pensado, talvez cinco anos seja um prazo demasiado curto. Suponhamos dez. Durante esse tempo Portugal não custou um centavo, nem fez dívidas. Se não participou no concerto das nações, também não importunou ninguém  com os seus constantes pedidos de esmolas e de empréstimos.

      O muro a fechar as suas fronteiras e a marinha a isolar as suas costas, a proibição de intercâmbios e contactos, e a apatia nacional, terão entretanto contribuído para que o país finalmente se ache em condições de se tornar um investimento lucrativo para o consórcio que o tiver comprado.

      As nações compradoras, eventualmente assistidas pelos organismos internacionais que cuidam da manutenção dos monumentos, poderão fundar um instituto cuja única função será a de organizar excursões ao velho Portugal.

      Os autocarros e os combóios não serão autorizados a atravessar o muro, sendo os viajantes transferidos na fronteira para carros de bois que, lentamente, ao som dos chocalhos e do chiar das rodas, os levarão por montes e aldeias, dando-lhes assim uma oportunidade educacional e recreativa única.

      A esses turistas não somente será possível confrontar in vivo o passado, como ao mesmo tempo lhes fará entrar no corpo e na alma um medo salutar. Ao fim de cada jornada os guias reunirão os participantes nos adros das igrejas e, no decurso de uma refeição medieval, explicarão as causas que levaram à venda de Portugal.

      À noite, deitados sobre faixas de palha, esses cidadãos ressentirão o calafrio que toma os ricos quando repentinamente enfrentam a pobreza. E certamente regressarão aos seus países, mais contentes, mais felizes, mais dóceis.

 

Resumindo: a obrigação da Europa para com os portugueses é, pois, seguir o exemplo do que fizeram os Estados Unidos com os índios e o Kénia com os animais selvagens, e fechar-nos numa reserva. Para benefício comum e para evitar que, abandonados a nós próprios, acabemos por desaparecer

 

 

*   *   *