O INFERNO FICA À
ESQUERDA
J. Rentes de Carvalho
- É questão de
doença?
Se fosse, o senhor Pimenta, taxista em
Vila do Conde, recomendava-me que não perdesse tempo com santos. Ele já levara
dezenas de pessoas a um médico de Tordesillas que curava verdadeiramente tudo:
cancros, paralisias, reumatismos, pulmões, pressão alta, cataractas... Era na
Espanha, e portanto longe, e portanto caro, mas valia a pena porque o doutor
garantia a cura. À volta de cinquenta contos para a consulta - os remédios à
parte - e sessenta para o táxi.
Poderia parecer caro, mas por experiência
própria assegurava que não há dinheiro que pague a saúde. Felizmente para mim não
era questão de doença, só curiosidade, e o senhor Pimenta saiu do táxi para me
explicar como ir para a casa da Alexandrina, a santa de Balazar (1904-1955).
Entre os videntes e iluminados a que os
portugueses recorrem, Alexandrina ocupa lugar eminente, já que ao iniciar-lhe
em 1967 o processo de beatificação a Igreja Católica sancionou as suas visões e
as estranhas circunstâncias em que viveu. Paralítica aos quatorze anos, depois
de ter saltado duma janela para escapar a uma tentativa de violação, Alexandrina
permaneceu em jejum total durante os últimos treze anos e sete meses da sua
vida.
Simultaneamente começara a ter êxtases e
visões, revivendo semanalmente a Paixão de Cristo na presença de testemunhas,
desde Outubro de 1938 a Março de 1942. Examinada pelos médicos do hospital de
Santo António, no Porto, estes constataram tratar-se de 'um caso inexplicável
de inédia e anúria'.
Quase só pele e osso, um dia que quiseram
levantá-la da cama não foi possível, porque ela 'tinha o peso da cruz'; e se
por qualquer motivo o pároco local não
podia ir-lhe dar a comunhão, 'comungava de uma hóstia que um anjo lhe trazia do
céu'.
É extraordinário, e provavelmente
verídico, mas gente de fraca fé como eu sente um certo embaraço ao ler depois
as respostas que a vidente dava a Jesus durante os êxtases, anotadas verbatim
pelo padre Mariano Pinho.
'Como vos amo no meio de tanta dor? E
Jesus, não foi no meio da dor que nos amaste também? Tendes muita pena de me
fazer sofrer? Mas eu ofereci-me com toda a generosidade! Eu queria amor, Jesus! Não mo dais? Dai-mo! Eu queria
morrer de amor! Jesus, eu sou vossa! Sempre fui! Sou a vossa heroína? Sou toda
para vós, Jesus! Sou uma louquinha consumida, perdida no amor de Jesus!'
Desde a sua morte em 1955 os desesperados,
os doentes, os aflitos, acorrem aos milhares a Balazar, e aos que dela recebem
graças ou são curados pela sua milagrosa intervenção, pede-se que o comuniquem
na secretaria da igreja, para assim se poder apressar o processo no Vaticano.
Entro
respeitosamente na humilde casa onde a santa viveu o seu calvário. Oiço a
zeladora que me conta que Alexandrina falava repetidamente com Jesus. Agradeço
a sugestão, mas não compro Eis a Alexandrina, a biografia escrita pelo
padre Umberto Pasquale, e vou-me dali a cismar sobre quais serão os motivos que
fazem da metade oeste de Portugal, acima do Tejo, a zona por excelência dos
bruxedos, das aparições, dos mistérios e dos milagres.Trás-os-Montes produziu
uma única estigmatizada em 1946, em Vilar Chão, mas para tristeza das dezenas
de milhares de crentes que a tinham venerado, cinco anos depois veio a
descobrir-se que se tratava dum grosseiro embuste comercial.
O produto genuíno, se assim se pode dizer,
manifesta-se de preferência no litoral. Em Arcozelo, por exemplo, freguesia de
Vila Nova de Gaia onde existe o impressionante culto de Santa Maria Adelaide,
que na segunda metade do século passado foi irmã leiga e organista no convento
de Corpus Christi.
Falecida em 1885 em cheiro de santidade, o
seu corpo mostrou-se incorrupto quando o desenterraram em 1906, e desde então
tem resistido a violências tão radicais como atentados à bomba, marretadas,
tentativas de dissolução com cal viva, e outras.
Os milagres que realiza, e esse
extraordinário poder de resistência, atraem devotos em número suficiente para
que as ofertas em dinheiro ultrapassem por ano a centena de milhar de contos.
Fora disso recebe dádivas de ouro e jóias, relógios, louças, objectos vários
que expostos em museu próprio constituem o mais destrambelhado dos bric-à-brac.
Pendentes do tecto ou coladas nas paredes
da Casa dos Milagres, anexa ao mausoléu, acham-se ainda milhares de fotografias
dos favorecidos pelas intervenções da santa. Pendurados também, ou dobrados,
são às dezenas os vestidos de noiva e as fardas militares de que só os
interessados sabem porque razão se encontram ali. E incontáveis miniaturas de
máquinas, de barcos, colecções de selos, moedas, bonecos, imagens, crucifixos,
reproduções em cera de membros e órgãos humanos, testemunham de aflições sofridas
e favores recebidos.
Noutra ocasião,
noutro estado de espírito, eu com certeza teria rido de tanta ingenuidade, mas
o desespero dos fiéis a rezar abraçados ao túmulo, e a angústia dos que na loja
anexa compram velas que irão acender para que lhes seja resolvido um problema
urgente, não se prestam ao escárnio, antes à compaixão.
Mas rio no dia seguinte, na vizinha praia de
Miramar. São seis da manhã e bruxas de longe e perto - as 'senhoras do poder'
como aqui lhes chamam - começam a chegar à capela do Senhor da Pedra,
acompanhadas dos seus clientes e, sinal dos tempos, de guarda-costas
encarregados de barrar a passagem aos curiosos como eu.
Mas algumas notas de conto também fazem
milagres e posso aproximar-me para ver como as bruxas levam os suplicantes para
a Capela do Senhor dos Amarrados (padroeiro dos que se deixaram 'amarrar pelos
espíritos da escuridão') e aí os benzem, defumam, apalpam e põem em transe.
Esfregam na imagem do santo roupa interior
dos adúlteros e assim os curam do adultério. Libertam com bofetadas na
cara os homens 'possuídos' pelas amantes. Curam o reumatismo obrigando os
doentes a ir de joelhos até à orla do mar. Garantem com ervas e chás o
resultado favorável dos exames escolares, dos exames de condução e das análises
médicas.
Vêem-se ali ataques de histeria e
pseudos-êxtases, ouvem-se gritos de arrepiar, imprecações, pragas soltas pelos
espíritos maus quando as feiticeiras os intimam a deixar as suas vítimas e a
desaparecer no 'mar coalhado'. Mas nada daquilo é sobrenatural, antes
representação dramática. As 'senhoras do poder' desempenham o papel para que
lhes pagam, e os seus clientes sofrerão de males reais, mas tem-se a impressão de que no papel de vítima ou
possesso encontram o aprazimento de mortificações que doutro modo não saberiam
como realizar.
Falta-me tempo para
visitar os santuários do Boi-homem, da Santa Leiteira, da Campa do Preto. Não
vou a Arouca ver a Santa do Tropeço, uma mulher acamada desde 1975 e que nos
jejuns, visões e diálogos com Cristo oferece uma imitação aguada da Santa de
Balazar.
Passo de largo por Fátima, com o seu
ininterrupto cortejo de padres e peregrinos, e rumando para sudeste percorro os
trinta quilómetros que me separam de Torres Novas. Mais três quilómetros pela
estrada velha do Entroncamento e chego à Ladeira do Pinheiro, termo da minha
jornada.
Painéis que guiem o romeiro não os há em
parte nenhuma, mas logo à esquerda distingo a cúpula azulada da igreja da Mãe
Maria e para lá meto por um caminho de terra batida.
Uma monja sorridente e bem humorada pára o
arranjo do altar e diz-me que se venho para a santa terei de ir um pouco mais
adiante. Vou, passo um portão, e inesperadamente encontro-me num largo rodeado
de edifícios díspares em que predomina a cor azul, e que assim à primeira vista
desempenham as funções de lugar de culto, de asilo para velhos, internato
infantil, estabelecimento hoteleiro, loja de relíquias, e ainda, o mais
estranho, de jardim zoológico. Em jaulas e gaiolas diminutas há cães, gatos,
papagaios, macacos, pombas, cobras, tartarugas...
A um sacerdote quarentão e barbado
pergunto se os animais têm a ver com o culto e ele responde-me desabrido que
não, que são o hobby do senhor Humberto.
- Falar com a Mãe Maria? Sem audiência? -
a irritação com que me olha é a de quem atende um débil mental, mas nesse
momento surge a irmã Clara, e a irmã Clara nasceu com um dom tão evidente para
as relações públicas que logo me dá a impressão de que nenhuma das minhas
perguntas ficará sem resposta, nenhum milagre sem explicação.
- Falar com a Mãe Maria? Ela vai ver se se
arranja. Visitar os edifícios? Certamente, menos os aposentos da Mãe e o andar
onde se instala Sua Beatitude quando vem ao santuário. De resto tudo o que eu
quiser. O senhor Humberto? O padre Stefan não me disse? O senhor Humberto é o
marido da Mãe. Marido místico, claro, porque seria impossível ser-se marido carnal duma
pessoa tão próxima de Deus.
- Vamos primeiro ver os cabelos?
Durante um êxtase a santa arrancou da
cabeça uma pequena madeixa e Jesus disse-lhe que a não deitasse fora, pois se
daria um milagre. Os cabelos, expostos numa caixa com tampo de vidro, vão já em
quase dois metros e continuam a crescer.
No mesmo quarto está o Cristo que sua
sangue e a cama onde a partir de 8 de Dezembro de 1965, rodeada de testemunhas,
Mãe Maria permaneceu quarenta dias e noites sem dormir, em jejum total e sem
beber água, tornando-se em tabernáculo vivo com a sagrada hóstia na boca.
'Porém - continua a infatigável irmã Clara
- o prodígio não ficou por ali, pois o arcanjo São Miguel administrava
diariamente a comunhão à Mãe Maria. Em cada dia, antes de comungar, a hóstia
que ela tinha recebido no dia 8 de Dezembro desaparecia para reaparecer no
tabernáculo que se encontrava no seu quarto sobre um altar. Logo após ter engolido
a hóstia quotidiana, a hóstia de 8 de Dezembro reaparecia na sua língua. Tudo
isso constatado pelas muitas pessoas constantemente presentes.'
Parecem-me já milagres de sobra, mas a
irmã Clara tem mais. Mãe Maria subiu corporeamente ao Céu pelas 12,30 horas de
12 de Junho de 1968, regressando às 15,00 horas. Os que testemunharam esse
prodígio viram-na erguer-se no ar e desaparecer a grande altitude, seguindo-se
uma chuva de rosas e registando-se correntes de ar intensamente perfumadas.
De regresso à barraca onde então morava, a
vidente entrou em posição horizontal por uma janela fechada que se abriu
misteriosamente para lhe dar passagem.
Relatando em livro a sua digressão
celestial, Mãe Maria diz ter sido acompanhada por uma numerosa milícia de anjos,
e que a dada altura seguiram uma estrada. Para a esquerda havia um ramal que
levava ao Inferno, encontrando-se aí três lagos fedorentos. Um outro ramal,
também para a esquerda, ladeado de fumos e de espinhos levava ao Purgatório.
Ao fim da estrada do Céu viu Deus! 'O Pai
Eterno, sentado num grande trono, apresentava-se com barbas muito crescidas,
tendo à sua direita Jesus Cristo e à esquerda a Virgem e São José. Junto de
Deus Pai há uma caneta e uma espécie de olho que se transforma em espelho, tendo
em frente uma pomba com a cabeça pequenina, que irradia uma luz que ilumina o
Céu inteiro. Os anjos tocam trombetas, entoam cânticos e têm umas letras nas
asas, cujo significado não estou autorizada a desvendar'.
A irmã Clara, dando-se conta do meu cansaço
perante tantas maravilhas, reanima-me com a promessa de que a Mãe Maria me
falará em particular.
- Posso fotografá-la?
- Pois com certeza.
Fotografo a santa, sessentona sobre o
gordo, enquanto ela sentada junto duma parede recebe os queixumes e as preces
dos seus fiéis. A uma oiço lhe que recomenda que vá ao médico e lhe peça umas
vitaminas fortes. A outra garante que o seu pedido será atendido. A uma terceira
promete o restabelecimento duma vaca doente. Finalmente chega a minha
vez. Faz sinal para que aproxime, aperta-me a mão, sorri e pergunta-me o que
quero saber.
- Se vai muitas vezes ao Céu.
- Vou.
- É verdade que faz chover dinheiro?
- É verdade.
- Transforma a água em azeite?
- Transformo.
- Faz andar os paralíticos e cura os
doentes?
- Curo.
- Ouvi dizer que a consideram uma séria
concorrente de Fátima.
- Não. A Ladeira do Pinheiro é a
continuação do mistério de Fátima, e isso não agrada a certas pessoas. A
Ladeira é o tesouro de amor eucarístico, é a renovação dos tabernáculos do mundo.
A irmã Clara sussura-me que basta, a Mãe
pode dum momento para o outro cair em transe, e como à noite se vão realizar os
demorados festejos da Páscoa Ortodoxa é bom evitar que ela se canse.
- Ortodoxa?
- Sim. Nós somos da Mãe Maria e da Igreja
Ortodoxa.
Só então me dou conta que a cúpula da
igreja tem a forma característica da cebola, que os padres que por ali andam
são popes, que o traje negro das monjas não é o corrente nos conventos
católicos. Quero pedir detalhes, mas a minha guia insiste para me mostrar
primeiro a fabriqueta onde a santa se entretém com o fabrico de queijos, a casa
onde um ex-jesuíta quase centenário pinta quadros místicos, a grande catedral
em construção.
E o asilo dos idosos. E o alojamento onde
são recolhidas as crianças abandonadas. E a escola. E a exploração agrícola.
Retoma a lista dos milagres e das visões, das chagas da mística, do caso do
vestido queimado, do seu comprovado dom de ubiquidade, das conversas com o
padre Pio e Jeanne d'Arc.
Para as minhas forças é demais e
despeço-me aturdido.
Volto ao cair da
noite quando em redor da igreja começa a reunir-se o Exército Branco, o grupo
das fiéis que, vestidas de rendas brancas, fazem contraste ao traje negro das
monjas. A Mãe Maria apeia-se dum Alfa Romeo conduzido pelo padre Stefan.
Acendem-se centenas de velas. Os popes entoam os seus cânticos. Os crentes
acompanham em coro.
E eu sinto pena que Deus Pai me não tenha
escolhido para ir visitá-lo ao Céu e ver com os meus próprios olhos a caneta
com que ele escreve os nossos tão variados destinos neste tão curioso mundo.
*
* * * *