Liberta das vestes terrenas, a sua alma
elevou-se imponderável nos céus , em voo silente de pomba branca.
Atravessou Montreal, essa cidade-encruzilhada de mil faces, onde, pedra a pedra, construira a sua vida, entre as mágoas do desenraizamente e as alegrias de novos caminhos desbravados de dentes cerrados. Antes, planara, nostálgica, sobre a rua St-Laurent , cadinho onde se caldeiam constantemente tantos sonhos e miragens, em busca de recordações e instantes cravados na carne e cristalizados no tempo. Tantos, tantos e tão marcantes que quase lhes perdera a conta.
Depois, de asas abertas ao vento, cruzou a
imensidão do Atlântico num regresso catártico às origens.
Em breve, avistou a serra da Arrábida, as
praias douradas, Setúbal, debruçada sobre o Sado. Deambulou, enternecida, pelas
suas praças e vielas tão antigas, em busca do tempo em que lhe fervia a juventude nas veias.
Mas urgia continuar a viagem. Com ventos de feição, atravessou montes e vales e
finalmente avistou a aldeia do Castedo, perdida nos confins transmontanos. Lá
estava a casa granítica onde nascera, as encostas recobertas de amendoeiras e
oliveiras, os soutos verdejantes a bordejar os caminhos, os cumes dos montes em eterno namoro com a
imensidão das fragas que retalhavam o céu. Era tempo de reunir e recolher os
tempos idílicos da infância já tão
distante mas tão presente.
Cumprida a sua peregrinação pelos lugares sagrados da existência
terrena, perdeu-se nas alturas rumo à imensidão sideral que a esperava de
braços abertos para a grande comunhão
de todos os seres.
Chegara a hora de todas as verdades, quando os mistérios existenciais explodem em mil fogaréus e se desnudam finalmente no seu derradeiro significado. Cantavam os galos no Castedo. Nadavam
os golfinhos na foz do Sado. Cabriolavam
os esquilos nos relvados de Montreal.
Lá do alto,
para que a memória da sua existência não se perdesse irremediavelmente
na voragem da eternidade, derramou um último olhar sobre a Terra, envolta no
seu diáfano manto dum azul tão belo. Foi quando, num sopro, num sussurro, uma
voz poderosa e telúrica
se ergueu das entranhas da Terra. Era aquela mesma Voz que ao longo dos
milénios guiara a marcha da Humanidade na luta pela Vida contra as forças do fatalismo e da morte, a
sussurrar-lhe, a ordenar-lhe que ainda
não chegara a hora de desistir e de regressar ao ventre cósmico e `a dissolução no Verbo.
Então, exultante, determinada, deslumbrada com tanta rebeldia, abriu as asas
e voou de regresso à Vida, ao abraço da família e dos amigos que, inconformados,
já choravam a sua ausência.
(Texto dedicado, no dia do seu aniversário, ao meu amigo Fernando André que corajosamente combate a terrível doença que o atingiu.)
Montreal, 18 de Novembro de 2004