ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA


Parc du Portugal a Oeste




P oucas gente em Portugal saberá da vasta produção literária da sua emigração norte americana.

Embora actualmente a aparecer cada vez mais em inglês-exemplo fulgurante é o da californiana Katherine Vaz, já com um terceiro livro, "Fado and other Short-Stories", mas em Toronto acaba de surgir também Erika de Vasconcelos, com "Ode to my Dead Ones" - a geração emigrante, aquela que ainda tem o português como pátria, continua também a registar em livro a sua experiência transplantada.

De Montréal, Manuel Carvalho estreado em 1989 com "Saga", um precioso livrito de crónicas-quadros-quse-contos que pincelavam com mão experimentada na vida o quotidiano de um português procurando entender-se no chão canadiano, sempre de mão na testa a querer vislumbrar a terra-mãe, reemerge agora em "Parc du Portugal". Aqui as raízes canadianas são mais profundas. Portugal aparece desta vez recriado simbólica e materialmente num parque com nome e tudo, e o almejado regresso, sonho de uma vida inteira, vai-se esvaecendo.

Numa crónica em forma de carta enviada de Portugal por uma torna-viagem, lê-se:

"No domingo de Páscoa, o rádio acordou-nos com a notícia espantosa de que tinha nevado na serra da Estrela. Eu e o Jaime ficámos a olhar um para o outro, sorridentes como duas crianças, como se o locutor tivesse anunciado a coisa mais importante do mundo. E se fôssemos até lá ver? Perguntou o Jaime com os olhos a brilhar.

Metemo-nos no carro e fomos por ali acima, estonteados como duas andorinhas. Mal avistámos a primeira neve, descemos do carro e, sem nos importar com a figura que fazíamos, ficámos a atirar bolas de neve um ao outro, a rir como uns perdidos. És capaz de imaginar o sisudo do meu Jaime, aí no Canadá sempre a resmungar contra a neve e o frio, ali, no alto da serra, a rebolar-se e aos pinotes como um potro? Vê lá tu como uma pessoa muda."

E mais abaixo, a Maria Cândida, que assina a carta, prossegue narrando o Portugal mudado que a família reencontrou:

"Isto agora também está cheio de pizzarias, de artigos chineses, de cartões de crédito e seitas religiosas, a tal ponto que o Jaime, quando lhe dá para resmungar diz que fugiu do Canadá por causa dessas pragas e que veio esbarrar num país parecido ou ainda pior."

A aculturação deu-se nos dois lados do Atlântico. O Portugal que os emigrantes deixaram é hoje mais moderno e, por mais que queira evitar o adjectivo, mais norte-americano. Os emigrantes congelaram na mente e no coração a imagem da pátria que deixaram, daí a desilusão quando ao voltarem não reencontram tudo inalterado. Por isso para muitos o regresso passa a ser temporário, metade de um ano lá, metade cá.

Dessa e doutras formas de adaptação e desadaptação fala numa quase centena de páginas, em português que parece nunca ter saído da sua terra, mas com um toque de experimentado na vida, corajoso, aventureiro e optimista, encarando a mudança como inevitável porque a "vida continua", como diz o livro, ao acabar.

Publicado em Montréal, aí fica o ISBN, que o Manuel Carvalho merece ser lido: 2-9804056-1-2. Mas há também o processo simples de encomendar a um amigo que tenha um amigo que conheça algum lusitano em Montréal. Não são muitos os sítios onde se podem comprar livros portugueses nas comunidades imigrantes. Às vezes é mesmo na loja que vende linguiça. Ah! E não se esqueçam de pagar a encomenda. Fala a experiência.

-Da revista LER (Círculo de Leitores)
Incluida no livro "Viagens na Minha Era"(2001)



  • ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA, o criador da L(USA)lândia