ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

 

A propósito de lusofonia (à falta de outro termo): o que a língua não é
        
Iniciarei esta minha reflexão com um excerto de carta enviada por um muito conhecido intelectual português a um colega amigo e colaborador:
A tua tese sobre a "promiscuidade" portuguesa corresponde a uma verdade cujo tamanho será perigosíssimo exagerar. Neste ponto, como em certo luso-brasileirismo, estás a aproximar-te do famigerado luso-tropicalismo do Gilberto Freyre, que é a ideologia de um imperialismo do Atlântico Sul de língua Portuguesa, núcleo evidentemente brasileiro, apoiado numa teoria da especificidade da "colonização" portuguesa, a do "português afável" do Cortesão, de que se fez já arauto na TV portuguesa o Agostinho da Silva, exaltando, como tu, a mundividência inerente ao idioma, e ainda o franciscanismo, o Quinto Império de Vieira-Pessoa, o culto do Espírito Santo mantido no Brasil (que nisso, e na fonética, seria mais português que Portugal), etc. Repara: tens aí todos os ingredientes messiânicos de um nazifascismo de pretexto idiomático, e até religioso, embora pluri-racial.
 
         Se fizesse uma sondagem junto deste auditório sobre a data da troca epistolar de que esta carta faz parte, estou em crer que a grande maioria dos presentes não teria qualquer dificuldade em situá-la na actualidade. Sem tirar nem pôr. E no entanto passaram-se já trinta e oito anos sobre a sua escrita. Trata-se de um fragmento do texto de Óscar Lopes dirigido a António José Saraiva e datado de 2 de Setembro de 1969. Integra-se no conjunto epistolográfico, reunido em volume e publicado pela Gradiva[1]. Falta ali apenas uma palavra - lusofonia – termo então ainda não incluído no vocabulário nacional. Tínhamos nesses anos um império a que nos agarrávamos denodadamente e não nos preocupávamos com a salvação da língua. O poder dos seus falantes sobre a terra garantia automaticamente não só a sua subsistência como a sua vitalidade. E isso a expensas das línguas em que porventura nasciam esses mesmos súbditos.
Hoje, porque se desvaneceu o império, a lusofonia ganhou na nossa conversação nacional um lugar preponderante que nos merece uma análise cuidada. Nesse fenómeno está implícita uma concepção da língua - a tal mundividência inerente ao idioma de que fala Óscar Lopes a António José Saraiva - como possuidora de forças internas que condicionam e determinam o pensar dos seus falantes.
         Vamos por partes. Em primeiro lugar, convenhamos: é na verdade bela aquela frase de Vergílio Ferreira dirigindo-se a centro-europeus na Europália, que teve lugar na Bélgica: “Da minha língua vê-se o mar”. E quem não tem ouvido, ad nauseam, glosas em série à decantada frase de Bernardo Soares “A minha pátria é a língua portuguesa”? . Tem gerado ao longo dos anos uma ladaínha colectiva e eufórica de loas a esta língua de Camões e Pessoa, de Eça e de Saramago, em côro cantada pelas sete partidas dos países da comunidade lusófona, (embora quase todas em Portugal e por portugueses), a que muitos, distraidamente quase, chamam lusíada e a que, num banho colectivo de emoção, quiseram juntar um oitavo-a-ser, tão lá longe que nem dá para ouvir-se que praticamente não fala português.
         Língua de várias pátrias, dela se diz ser maleável e fraterna, com especial apetência para a comunicação mas, além disso, também adequada à expressão de outros domínios, exactamente por ser ainda uma língua de ciência, de técnica e de arte.
          Língua de poesia e de poetas disse-o e explicou-o Teixeira de Pascoais em A Arte de Ser Português, e na sua explicação deixou contida a própria prova. Linhas nítidas de fronteira entre os discursos racional, empírico, lógico e o literário, poético e utópico são frequentemente inexistentes, razão por que a bem-achada frase de Vergílio Ferreira, que da sua Beira nunca viu o mar (nem sequer do seu apartamento nas avenidas novas), seja facilmente recitada à letra, despida do seu valor metafórico e integrada em registos discursivos que oscilam em vaivém constante entre uns e outros, sem darem sinal da diferença, numa espécie de delírio pós-moderno onde todas as barreiras se diluem e todo o texto é real e todo o real é texto.
         Reflexões diversas têm sido publicadas nos últimos tempos. Particularmente ricas são as de Eduardo Lourenço, reunidas há poucos anos no livro A Nau de Ícaro, seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia[2]. Alfredo Margarido publicou também uma invectiva contundente e amarga, lembrando as fragilidades do nosso relacionamento histórico com os agora países de língua oficial portuguesa - A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses[3]. A revista Discursos inseriu num dos seus recentes números uma mesa-redonda subordinada ao tema “Lusofonia: uma História, um Projecto, uma Questão”[4], em que se levantam questões não menos pertinentes. Este breve ensaio versará no entanto um aspecto não abordado nesses textos, embora implícito nalguns deles.
         Tem raízes germânicas a tendência de se ver na língua um carácter e até mesmo uma espécie de espírito. Wilhelm Humboldt e Herder, precursores, aliás, de muita etnolinguística contemporânea, lançaram-lhe as bases. Na Alemanha do século XIX falava-se da língua como se de um ser vivo, com alma, se tratasse. Ela captava o espírito (Geist) de um povo, mas tinha como que vida própria. No início do século XX, foi nos Estados Unidos que Edward Sapir, e depois o seu discípulo Benjamin L. Whorf, deram finalmente corpo à hoje chamada hipótese Sapir-Whorf que gozou durante muitos anos de enorme popularidade entre antropólogos e linguistas. Segundo ela, cada língua teria imbuída em si uma visão do mundo intraduzível para qualquer outra. Aliás, essa hipótese reaparece hoje de alguma forma num outro discurso onde de certo modo entram, habitualmente mal encaixados, Wittgenstein, Willard Quine, Donald Davidson e Jacques Derrida, para mencionar apenas os luminares. A inclusão desses nomes, tanto quanto me parece, é mais da responsabilidade de comentadores e seguidores do que dos próprios, pelo menos nos casos de Wittgenstein, Quine e Davidson. E refiro-me expressamente à concepção da língua como condicionante de um pensamento, de uma visão do mundo, o que é algo diferente do facto de qualquer língua estar estruturada em parâmetros que tornam difícil a transição dela para outras - a tradução -, particularmente em áreas abstractas, sobretudo as mais afastadas do domínio empírico e do mensurável. Ninguém, por exemplo, objectará contra a afirmação de que na poesia e no humor há nuances nas línguas que as tornam verdadeiramente intraduzíveis, pelo menos em instâncias ou casos determinados.
         Este, porém, não pretende ser um ensaio propriamente filosófico. Cingir-me-ei por isso a aspectos práticos que possam traduzir-se em argumentos a contrapor o entusiasmo com a língua tão frequentemente alardeado na nossa comunicação social e no discurso político.
         Mesmo Benjamin L. Whorf tem passagens que reflectem posições díspares sobre a sua concepção da relação língua-pensamento, o que nos permite construir dois Whorfs - o duro e o moderado. Segundo o primeiro, as línguas constituem a base sobre que assenta a visão do mundo de uma cultura sendo por ela e nela que a vivemos e pensamos. Cada língua determinaria assim uma particular visão do universo. Segundo a proposta moderada, seria no entanto maior o espaço de liberdade e menor portanto o condicionamento ou a sujeição do falante à estrutura da língua. Diríamos que a língua condiciona, afecta, molda de algum modo, a sua mundividência. Digamos que se trata portanto de uma formulação com bem maiores probabilidades de verificação empírica.
         Não vale a pena prosseguirmos nesta direcção. Bastará mencionarmos algumas facetas popularuchas de tais concepções: os alemães são duros e belicosos porque dura e áspera é a sua língua. Os ingleses são empíricos porque a sua língua detesta palavras abstractas. Os italianos cantam a falar porque a sua língua é cheia de vogais. Recordo mesmo ter lido em tempos uma proposta de explicação da força popular do maoísmo pelo facto de a língua chinesa ser ideográfica[5].
         Nós tivémos em Portugal os frutos dessa concepção anímica da língua. Teixeira de Pascoais deu o lamiré e António Quadros, em vários livros, mas sobretudo n’O Espírito da Cultura Portuguesa, glosa abundantemente o tema da intraducibilidade de alguns vocábulos como derivada do carácter único de certas experiências linguísticas. "Saudade" era, e é ainda para muitos, o grande exemplo. Quadros dava entretanto uma lista que chegava a incluir palavras perfeitamente traduzíveis em outras línguas, mas que em português tinham, segundo ele, uma ressonância, uma vivência, uma vida, muito especial e única mesmo. Mar era uma delas. Outras eram viagem, demanda, nau, Oriente, amor, império.
         Não é invulgar depararmos com afirmações do teor desta de Sousa Dias:
Impensável um Heidegger nas línguas japonesas (…); um Hegel em Chinês (…) Difícil um empirismo na Alemanha, porque a língua alemã tem a memória da Raiz, a nostalgia do Grund. Difícil, ao invés, uma metafísica inglesa; o inglês é uma língua que procede por relações, conexões laterais, pura superfície imanente, agramatical, sem interior, sem espessura. O inglês, língua a bem dizer empirista, como o alemão, língua constitutivamente metafísica.[6]
 
 
M. S. Lourenço, por exemplo, reuniu num belo livro de ensaios um texto anteriormente publicado em que tentara explicar a ausência do sentido de ironia na cultura portuguesa ns seguintes termos:
 
Para nos orientarmos na procura desta doutrina temos que nos deixar guiar pelo princípio seguinte: tudo aquilo que não pode ser claramente expresso também não pode ser claramente experienciado. Só depois de eu estar de posse de um vocabulário mínimo acerca de uma certa área da minha experiência, me é então possível vivê-la clara e reflectidamente. Nestas circunstâncias é-se imediatamente levado a concluir que o homem português não pode ter uma vivência clara e reflectida dos seus estados de consciência, em virtude de não existir na sua língua um vocabulário suficientemente desenvolvido para a exprimir.[7]
 
Estamos em presença de mais uma versão da hipótese de Sapir-Whorf agora aqui afirmada e argumentada num contexto da cultura portuguesa. A evidência parece conduzir-nos à visão oposta: em qualquer cultura, a língua foi-se desenvolvendo à medida que foram surgindo realidades novas que precisavam de ser nomeadas. A percepção delas precedeu o nome que receberam. Isso torna-se bem mais evidente quando se trata de realidades empíricas. A descoberta ou criação de um novo objecto acarreta a necessidade de se nomeá-lo. Toda a história da ciência e tecnologia é um exemplo óbvio desse processo. Mas não é apenas aí que assim acontece. Quer dizer pois, que parece estarmos em presença do fenómeno inverso ao proposto por M. S. Lourenço: a realidade, ou melhor, a consciência dela, precede o nome. Mesmo no caso do mito, o conceito precede o nome que se lhe dá.
Eduardo Lourenço, num texto sobre a língua, tem uma passagem que parece vinculá-lo às concepções de Herder, Sapir e Whorf. Escreve o ensaista:
Não pode dizer-se de língua alguma que ela é uma invenção do povo que a fala. O contrário seria mais exacto. É ela que o inventa. A língua portuguesa é menos a língua que os Portugueses falam do que a voz que fala os Portugueses.[8]
 
Mais adiante, Eduardo Lourenço diz ainda:
 
Quiseram também as circunstâncias - na sua origem pouco recomendáveis - que a nossa língua europeia, e em contacto com a africana escrava, se adoçasse, mais do que já é na sua versão caseira, para se tomar esse ritmo aberto e sensual, indolente, do português do Brasil ou o tom nostálgico de Cabo Verde.[9]
 
A linguagem frequentemente metafórica de Eduardo Lourenço não nos permite só por uma passagem como estas colocá-lo definitivamente ao lado da hipótese sapiriana, pois o ensaista possui bastantes textos que, justapostos a este, o moderam suficientemente.
         Não foi só em Portugal que a hipótese Sapir-Whorf circulou com foros de tese. Os regimes totalitários atribuem às palavras essa capacidade de serem responsáveis pelo pensamento. George Orwell, no seu 1984, demonstrou à saciedade o ridículo de tais pretensões. A queda do muro de Berlim fez o mesmo, de outra maneira. O politicamente correcto é não só a outra face da mesma moeda, mas acaba por ser simultâneamente o seu contrário. Por um lado, a língua determina a visão do mundo, havendo por isso que abolir todos os termos racistas, machistas e quejandos. Limpar a língua significaria limpar a realidade, corrigir os males da língua implicaria corrigi-los na realidade.
Lembro a história daquele pobre na América que se lamuriava: “Já me chamaram “poor”, “needy”, “lower class”, “underprivileged”, e agora chamam-me “economically challenged”, mas continuo sempre sem dinheiro nenhum!” Ou ainda aquela outra do rei que decidiu exterminar o racismo nos seus domínios e mandando pintar toda a gente de azul. Então surgiram nos autocarros tabuletas com a indicação: Azul-claro à frente, azul-escuro trás". O que me traz à memória o comentário de Francisco Carmo, um excelente professor da minha adolescência, quando Marcello Caetano quis dar ares de renovação ao país mudando o nome da União Nacional para Acção Nacional Popular e o nome da polícia política, a negra PIDE, para DGS (Direcção Geral de Segurança): “As coisas mudam de nome mas o nome não muda as coisas.”
         Por outro lado, o politicamente correcto assenta no princípio de que a língua é um reflexo da nossa visão do mundo, (neste particular aspecto em oposição à hipótese de Sapir-Whorf ), sendo portanto o repositório codificado de todos os preconceitos da humanidade ao longo da sua história.
Em tempos demonstrei como por aí se chega a delírios. Luce Irigaray, a conhecida filósofa francesa, por exemplo, defendeu que um trabalho paciente de análise do género das palavras revelava o subreptício viés cultural inscrito na linguagem, mais exactamente a visão que a sociedade tem dos sexos. Segundo Irigaray, os objectos masculinos teriam mais valor, e os femininos mais utilidade. O computador (l’ordinateur) é masculino, enquanto a máquina de escrever (la machine à écrire) é feminina. Prevalece sempre o masculino: o avião (l’avion) é superior a “la voiture”; “le Boeing” é maior do que a “la Caravelle”. E assim por diante.
         Demonstrei noutro lugar a implausibilidade desta tese.[10] Na verdade, até existir o Boeing não era a Caravelle o avião maior? Antes de l'ordinateur, quem era importante não era la machine à écrire, como la voiture antes de l'avion? E a montanha não é, tanto em francês como em português, maior do que o monte, que é masculino e bem mais pequeno?[11] 
         Steven Pinker, no seu The Language Instinct, serve-se das mais recentes teorias linguísticas para destruir com argumentos rápidos e potentes esse demónio tentador de atribuir demasiado poder à língua.[12] Mas não era preciso o seu aval para, à vista desarmada, nos apercebermos de que de facto a língua é um pouco de muitas coisas: repositório das experiências culturais de um povo e reflexo das mundividências diversas (faço questão de o acentuar, porque nenhuma cultura é homogénea) de um povo. Além disso, de algum modo ela aprisiona os seus falantes em universos particulares, carregados de semânticas específicas partilhadas apenas por determinadas comunidades. As línguas, porém, são tão maleáveis ou fraternas quanto o forem os seus falantes; científicas ou filosóficas, quão científicos ou filosóficos forem os seus utentes. Os filósofos gregos e os alemães é que desenvolveram a faceta filosófica do grego e do alemão, como os romanos fizeram para o direito, os franceses para a culinária, os americanos para a informática, e assim por diante. A língua acompanhou e foi surgindo, foi sendo criada e moldada no processo.
         A língua é mais um reflexo, ou espelho, do que colectivamente somos, do que o inverso. Noutras palavras, não somos o que somos por causa da língua que falamos, e a nossa língua não é melhor do que as outras naquilo em que não formos melhores do que os outros. Os brasileiros desengravataram o português (como diria Vinicius de Morais) e a língua que tinham era a nossa, barroca, dos séculos XVII e XVIII. Os americanos arregaçaram as mangas ao inglês e vestiram-lhe jeans.
         A língua portuguesa não é mais ou menos fraterna do que as demais, nem mais ou menos dominadora ou dialogante que as suas congéneres (Alfredo Margarido cita o gramático João Ribeiro para quem o português não seria “uma língua de diálogo, mas de dominação e de ordens”[13]. Ela foi perra e atada no tempo do fascismo, e era a mesma descendente de Camões e de Eça. Hoje está solta (para alguns, demasiado solta), porque hoje estamos à solta ou, pelo menos, mais descontraídos e mais em contacto com o resto do mundo. Quem negará todavia que, após o 25 de Abril, a língua portuguesa se libertou porque os portugueses se libertaram de amarras diversas? Basta compará-la com a que se escrevia nos jornais e se falava na rádio e TV dos tempos idos do PREC.
         Foi isso que Mia Couto captou maravilhosamente ao parafrasear Bernardo Soares: “A minha pátria é a minha língua portuguesa.” No caso dele, é o português de Moçambique. Noutros, será o do Brasil, de Cabo Verde, ou dos Açores. Uma língua plural como os seus falantes, que tanto podem ser conservadores, como comunistas, ou liberais. Que foram monárquicos e inquisidores, comerciantes e missionários, e descobridores e traficantes de escravos, colonialistas e aventureiros. A língua deles foi registando tudo isso e daí que hoje procuremos limpá-la, arejá-la, modernizá-la. Mas isso só acontece porque estamos a tentar fazer o mesmo à própria cultura que ela expressa e que nós vivemos.
         Poderemos falar talvez de uma Prison House of Language, como quer Frederic Jameson. Contudo, melhor seria talvez expressarmo-nos diferentemente. A língua permite-nos reconhecer networks of contact, e estabelecer um diálogo convivencial entre as pessoas que nesses circuitos de contactos circulam e se entrecruzam. Abrem-se pois vias à conversação, à cooperação e ao diálogo, se a tanto estiverem inclinados os seus falantes. Sobretudo se estiverem dispostos a esquecer os maus momentos em que o oposto aconteceu, preferindo concentrarem-se nos elementos positivos do passado comum e, particularmente, nas possibilidades futuras. Porque, ao fim e ao cabo, se em teoria certos desmandos filosóficos sobre a capacidade das línguas são indefensáveis, na prática nós estamos de algum modo condicionados, e à partida entroncados, numa rede de falantes. Seria suicida concluirmos que mais vale aprender as línguas de mundos maiores e esquecer a nossa por limitadora.
Fará perfeito sentido servirmo-nos do condicionamento histórico proporcionado por caminhos que se radicam num passado longínquo, como o Brasil ou, mais perto, como Angola ou Moçambique, para o transformarmos em potencial criador. Mas isso requer que esqueçamos anacrónicos triunfalismos e encaremos com realismo os contextos e as realidades actuais. Se aqui e ali subsistem ainda laivos de ufanismo imperial, talvez seja porque ainda nos não libertámos completamente de tal espectro. De qualquer modo convém não culpar a língua das mazelas que ainda colectivamente trazemos escondidas na algibeira. Ou no subconsciente. A língua que falamos apenas as reflecte, deixa-as transparecer à vista desarmada. Não foi ela que as criou. Ela retém-nas simplesmente, quando os seus falantes teimam em retê-las.
Para não me quedar academicamente apenas pelas reflexões teóricas, terminarei com um corolário pragmático:
 Ao fim e ao cabo, e após tantos encontros de intelectuais, académicos e escritores sobre o tema da Lusofonia, onde é mais do que óbvio que são fortes nos participantes as marcas deixadas por uma convivência histórica de 500 anos em que houve mais ou menos miscegenação e mais do que contágio mútuo cultural e, sobretudo, uma implantação da língua portuguesa (com toda a espécie de transformações, é certo), como será possível negar uma diferenciação entre o mundo lusófono e o hispânico? Se bem que ninguém consiga explicar o que ela seja, todos a sentem em maior ou menor grau e admitem-no se conseguem falar em situações livres, despolitizadas e fraternas. Mas publicamente as tensões e as feridas ainda não completamente saradas vêm ao de cima e a palavra “lusofonia” – que nem sequer conseguiu entrar no documetnto oficial que criou a CPLP – tonou-se asim como uma espécie de ‘vício inominável’ que toda a gente sabe que existe mas não se atreve a referir. E então os mais renhidamente influenciados pelos resquícios do marxismo, que em tudo vêem interesses do capitalismo, advogam um mundo naïf em que as trocas sejam todas como que ditadas pela força evangélica de um cristianismo em que não acreditam. Recusam-se a admitir ser natural haver interesses de parte a parte no cultivo dos laços linguísticos e culturais entre os países de língua oficial portuguesa. Se assim é, não se espere que sejam os intelectuais a ditar o que se deve fazer. Está na essência da academia divergir, concentrar-se na análise, criticar, desestabilizar. Avance-se portanto com projectos práticos, se há de facto interesses mútuos a desenvolver[14]. E se continuar a ser quase proibido utilizar a palavra ‘lusofonia’, que seja posta de lado mas que isso não constitua impasse. Sigamos essa tão portuguesa maneira de fazer de conta que não existe enquanto existe de facto. Por outro lado, que se faça o contrário da nossa tradição de chamar nomes pomposos às coisas e ficar-se por aí, sem mais nada. Sejamos pragmáticos e façamos o que quer que seja permitido pelos laços que esta língua partilhada há 500 anos, para nosso bem e/ou mal, criou e que, por mais que queiramos, não poderemos evitar, pois se não há determinismos quanto ao futuro, existe um determinismo do passado na medida em que ele não pode ser apagado visto já ter acontecido.
Num número recente de Latitudes. Cahiers Lusophones publicado em Paris, o seu director Daniel Lacerda, num artigo intitulado “Lusofonia Teoria e Prática”, muito crítico embora do luso-tropicalismo e seus excessos, conclui nestes termos:
Para nós, a lusofonia é um espaço de partilha e de reagrupamento de iniciativas em busca das nossas raízes, na expressão da nossa diferença e onde cada qual pode afirmar a sua personalidade e os seus valores. Manifesta-se na prática cultural, artística e literária, numa base de tolerância, de bom entendimento e sem preocupações de competição, em fraternidade livre e desinteressada à volta de valores artísticos e culturais. Será mais ou menos isto, tanto quanto entendemos.”[15]
 
E pode ser mais, se os interessados estiverem de acordo. E sobretudo se deixarem de apenas falar. Em português naturalmente.
 
                                                        Onésimo Teotónio Almeida
                                                        Brown University
 


[1] António José Saraiva e Óscar Lopes: Correspondência. Edição de Leonor Curado Neves (Lisboa: Gradiva, 2004), p. 219.
[2] Lisboa: Gradiva, 1999.
[3] Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas, 2000. O livro de Alfredo Margarido, muito interessante aliás, é mais uma crítica à tentativa portuguesa de fazer renascer um império (segundo ele, mal construído desde o início) agora numa forma metamorfoseada, através do controlo da língua. Escreve Margarido: "A nossa modernidade, criada pelas independências africanas, obrigou o país a cortar uma parte substancial dos seus laços com o Atlântico (…) A verdade é que a partir dos anos 60, devido por um lado à guerra colonial, pelo outro à emigração, o país rompeu os laços que o tinham mantido unido ao Atlântico, e mais particularmente ao Atlântico sul. A guerra colonial há-de ser vista no futuro como a grande tragédia nacional, que o regime ditatorial soube criar com o seu nacionalismo racista, naturalmente arcaico.
 A invenção da lusofonia procura com algum desespero devolver-nos uma parte desse espaço." (p. 6)
[4] Número 15 (Abril 1998), pp. 11-77.
[5] (Bernd Oelgart, Idéologues et Idéologies de la Nouvelle Gauche, Paris, 1971).
[6] Sousa Dias, Razão e Império (Porto: Livraria Civilização – Editora, 1981, p. 7.
[7] M. S. Lourenço, "O lapso de Fradique". In Os Degraus do Parnaso (Lisboa: Assírio & Alvim, 2002), p.93. A afirmação de M. S. Lourenço parece tanto mais estranha por ele procurar explicar assim a ausência de ironia na cultura portuguesa, característica nacional identificada por Fernando Pessoa ("O autor português é capaz de se mover à vontade no âmbito da Sátira, onde a interpretação do real se apoia em técnicas como a deformacão e o grotesco, mas não é capaz de chegar ao Raffinement da Ironia, em virtude de esta exigir uma percepção de si próprio que o autor português não é capaz de ter.” Para Pessoa o paradigma da Ironia é Jonathan Swift, o autor que tem a imperturbável coerência de apresentar uma tese apenas indirectamente, através de uma implícita e obstinada reductio ad absurdum. (p. 92). Estranha proposta porque a ironia é a capacdade de fazer uma afirmação querendo significar o contrário. Sendo assim, os portugueses mesmo sem possuirem qualquer vocabulário específico poderiam em princípio fazer ironia exactamente por ela não requerer qualquer vocabulário especial.
[8] Eduardo Lourenço, A Nau de Ícaro, p. 121.
[9] Pp. 123-4.
[10] "O mar e la mer", publicado primeiro no Diário de Notícias e incluído depois no meu Rio Atlântico (Lisboa: Salamandra, 1997), pp. 201-203.
[11] No citado artigo desenvolvi bastante mais a minha argumentação. Não quero com ela negar que exista algum sexismo inscrito na língua. Quero apenas limitar severamente a extensão dessa proposta. No caso das afirmações de Luce Irigaray as afirmações da filósofa não conseguem resistir à evidência empírica.
[12] Steve Pinker, The Language Instinct. How the Mind Creates Language (New York: Harper Perennial, 1995, pp. 55-82.
[13] Op. cit., p. 74.
[14] Apesar de críticas idênticas acerca do seu uso, a “francofonia” não se preocupa e avança. Ainda muito recentemente o Providence Journal anunciava que todos os seis Estados da Nova Inglaterra, onde há cerca de um milhão e meio de descendentes de québecois planeavam encontrar-se numa celebração – a “Quinzena da Francofonia”. A notícia não referia quaisquer protestos, nem em jornais posteriores dei com qualquer carta ao director a reclamar contra o evento.
[15] N.31 (Decembre 2007), p. 52.
2008-05-07