logopeq2.jpgENTREVISTA

Eduardo Mayone Dias

O professor, o erudito, pedago, filólogo e grande investigador da presença portuguesa na América

 

Entrevista de António Oliveira

 

Professor, investigador, pedagogo, filólogo, estudioso da literatura e “cronista da América”, o professor Dr. Eduardo Alberto Mayone Dias é dos nomes mais prestigiados no mundo das letras da diáspora portuguesa deste lado do Atlântico. A sua obra está espalhada por várias publicações que vão desde o domínio da erudição estritamente académica, como o “Menendez Pelayo e a Literatura Portuguesa” (1975), a manuais de português como “Portugal: Língua e Cultura (1978), e “Brasil: Língua e Cultura” (1992) co-autor, a obras indispensáveis sobre a presença portuguesa na América, como “Açorianos na Califórnia” (1982), “Coisas da Lusolândia” (1983), “100 Anos de Poesia Portuguesa na Califórnia” (1986), “Miscelânea LUSAlandesa (1997), “Falares Emigreses” (1990), até aos livros de crónicas da América onde o seu espírito de observador atento e o seu humor afiado, e por vezes irónico, tão bem se combinam. É o caso de “Crónicas da Américas” (1981), “Escritas do Além-Atlântico” (1973), “O Meu Portugal Antigo e Distante”, entre outros. Mayone Dias espalhou ainda a sua arte e talento colaborando em muitos outros livros e escrevendo mais de duzentos artigos e crónicas relacionadas com a problemática das literaturas e culturas hispânicas. Como escreveu o seu antigo discípulo, o professor universitário Francisco Fagundes, no volume XIX-XX da Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos  Gávea Brown, da Universidade de Brown, em Rhode Island, esta amostra constitui “no entanto, uma parcela representativa das suas numerosas contribuições para o conhecimento da presença portuguesa nos Estados Unidos em algumas da suas facetas mais importante: histórica, económica, sociológica, linguística e literária”.

Como professor, Mayone Dias distinguiu-se não só pelo seu trabalho no campo da erudição, mas também, e sobretudo, na “construção de pontes entre a universidade e o grande público e as comunidades portuguesas”, citando ainda o professor Fagundes. “Aliás (e citamos novamente), não seria exagero afirmar que o que torna Mayone Dias um universitário raro entre os seus pares é o facto de a sua docência e actividades de investigador terem sido exercidas dentro e fora do mundo académico”.

A obra de Mayone Dias e o seu indesmentível contributo para a divulgação da nossa língua e cultura foi reconhecida pelo governo de Portugal, que lhe concedeu o grau de Comendador e Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e a Medalha de valor e Mérito das Secretaria de Estado da Emigração. Nos Estados Unidos, foi  também já alvo de várias homenagens e condecorações.

Hoje reformado, Mayone Dias continua a produzir obra rica e vasta, sendo nome obrigatório para quem quer estudar e conhecer a presença portuguesa na América. O seu mais recente trabalho, co-autoria com o professor Adalino Cabral e José Brites, é um livro sobre a contribuição lusa na guerra do Vietname, a sair nesta Primavera.

 

Mundo Português — Professor, diga-me onde nasceu e como foi a sua infância.

Professor Mayone Dias — Nasci e cresci em Lisboa, num terceiro andar do pacato bairro de Campo de Ourique. Por esses anos o nosso prédio estava mesmo no limite da cidade. Da varanda das traseiras podíamos ver bois a lavrar e a Serra de Monsanto. Em frente da janela da sala de jantar estava o Jardim da Parada, pacífico refúgio de reformados e idílico paraíso para as sopeiras da vizinhança e para os magalas do quartel de Sapadores de Caminhos de Ferro.

Costumo dizer que então o bairro se dividia em duas zonas, quase duas nações. De um lado viviam os representantes de uma baixa classe média, gente empertigada mas não muito abonada de fundos, a que pertencíamos nós, meninos limpinhos e penteadinhos que andávamos num colégio particular e íamos comer bolos de arroz à Tentadora. Esta era Campo d’Ourique propriamente dito. Campo d’Òrique era para o lado dos temíveis Terramotos, Fonte Santa e Meia Laranja. Aí os rapazes iam à Escola da Câmara, usavam calções remendados nos fundilhos e atiravam pedras com louvável pontaria. Nós tínhamos um medo deles que nos pelávamos

MP — O senhor formou-se em 1949 em Filologia Germânica, numa altura em que não eram muitos os jovens universitários em Portugal. Tem tradições na família? E porque escolheu este curso?

MD — Tem razão. Quando me formei, nós os licenciados constituíamos apenas 1% da população portuguesa. Não muito animador, confessemos.

Não, que eu saiba, fui o primeiro da minha família a enveredar para a Universidade. E depois a minha irmã, um ano mais nova, entrou para Matemáticas. Digo “que eu saiba” porque desconheço praticamente tudo da minha família para além dos meus avós. Não posso pois afirmar a ciência certa que lá pelos séculos XIV ou XV não tivesse tido algum antepassado físico ou bacharel em leis por Coimbra ou Salamanca.

Porque escolhi Germânicas... Poderia dizer que quase por exclusão de partes. Desde pequeno sempre me inclinei mais para as letras do que para as ciências. Já na escola primária a boa D. Alda, a minha professora, me prognosticava que se eu algum dia chegasse a ser génio em alguma coisa não o seria com certeza em matemática.. Esta tendência acentuou-se quando entrei para o Pedro Nunes. Recordo que aí pelo primeiro ou segundo ano a minha professora de Português se surpreendeu quando eu lhe perguntei de que cor eram as fitas dos finalistas de Letras, um dado de que necessitava para uma redacção que estava a fazer, sobre o consabido tema que nos impunham de “o que queres ser no futuro?”. Nos primeiros anos do liceu sentia verdadeiro horror pela Matemática, Ciências Físico-Químicas, Canto Coral e Educação Física. Gostava de História, Geografia e Desenho mas o que realmente mais me interessava era Português, Francês e sobretudo Inglês.

Foi por isso que escolhi Germânicas, pelo Inglês. Claro que havia também o Alemão. O absurdo do exame de admissão era que constava de provas de Português, Inglês e Alemão mas que no liceu tínhamos de escolher entre Inglês e Alemão. Portanto desta língua aprendi só o necessário para passar decentemente nos exames e (com vergonha o admito) para a ter ensinado nos dois meus primeiros anos de professor liceal.

A saída de Portugal

MP — E porque decidiu sair de Portugal?

MD — Digamos que por acidente matrimonial. É certo que o estrangeiro sempre me atraiu e que enquanto solteiro viajei o mais que pude. Então um dia ofereceram-me participar num programa de intercâmbio de seis meses nos Estados Unidos. Aqui conheci a minha mulher, mexicana. Casámos e fomos para Portugal. Depois veio outra oferta para Inglaterra, para ser leitor de Português na Universidade de Cambridge, onde estive um ano. A minha mulher convenceu-se  então de que não se adaptava à vida europeia e sugeriu irmos viver para o México. Aí fui eu que não me adaptei. Não à cultura mas a condições laborais e migratórias extremamente restritivas. Ambos gostávamos dos Estados Unidos. Comecei a escrever cartas para cá, pedindo trabalho, a Army Language School, de Monterey, aqui na Califórnia, aceitou-me. E foi assim que tudo isto começou.

MP — O senhor acabou por doutorar-se em Literaturas Hispânicas na Califórnia. Nessa altura, penso eu, o português não deveria ser uma língua muito procurada a nível universitário. Como era?

MD — Não, não era muito procurada. Quando vim para Los Angeles fazer o doutoramento, aliás na UCLA, matriculei-me num curso de Literatura Portuguesa. Apesar dos heróicos esforços do Professor Marion Zeitlin, que em 1935 iniciara o ensino da nossa língua nessa universidade, só encontrei uns cinco ou seis alunos nessa aula. Ao fim do primeiro semestre o director do Departamento telefonou para minha casa perguntando se eu queria encarregar-me de três aulas de Espanhol. Aceitei mas como na UCLA não poderia ser ao mesmo tempo professor e aluno, matriculei-me na USC. Aí só havia também um professor de Português, que dava três cursos. Nessas condições seria impossível concluir um doutoramento com ênfase em Português. Empenhei-me pois no Espanhol mas consegui que a minha dissertação, que tratou da visão de Menéndez Pelayo sobre a literatura portuguesa, de certo modo se ajustasse ao meu interesse principal.

Professor por acaso

MP — Entretanto, fez uma carreira académica como professor, com prestígio e mérito reconhecido por todos. Dizem que tinha um condão especial para despertar nos alunos o gosto pelo português. Algum segredo especial? Ser professor era aquilo que sonhou ser quando ainda era jovem?

MD — Para começar, um pequeno reparo. Eu diria que prestígio e mérito não são reconhecidos por todos mas sobretudo pelos meus amigos mais generosos. Mas isso é outra história. Vamos ao resto. Um segredo especial? Acho que não. Procurei sempre dar as minhas aulas descontraidamente, com naturalidade e uma pontinha de humor, respeitando as ideias dos meus alunos. Terá sido isso que despertou em alguns deles o gosto pelo português? Não sei. Oxalá que sim. E já agora uma pequena observação. Considero a minha maior vitória no ensino uma confissão que uma aluna me fez. Foi depois de um curso de verão, na Universidade de Massachusetts, em Dartmouth. Tinha dado uma cadeira, a um grupo constituído quase exclusivamente por jovens emigrantes portugueses, sobre literatura de emigração. Para eles foi uma revelação descobrir que havia bons livros escritos por emigrantes. Até então só haviam conhecido o seu pequeno mundo de trabalho, tantas vezes avesso à cultura académica. E o que essa rapariga me disse, impressionou-me fundamente e creio que jamais o esquecerei: “Professor, depois deste curso já não tenho vergonha de ser portuguesa.”.

Quanto à sua última pergunta: Não, ser professor não foi o meu sonho de adolescente. Nessa altura não tinha qualquer sonho sobre o meu futuro profissional. Fui professor por acaso, porque sim, porque era o destino mais lógico de um licenciado em Letras, porque dois colegas me apontaram escolas onde precisavam de professores. Fui e fiquei. E nunca me arrependi.

Ao serviço da língua e cultura

MP — Qual é o saldo que faz destas décadas ao serviço da língua e cultura portuguesa nas universidades americanas?

MD — A satisfação de um dever cumprido, o orgulho de ter tido alunos que agora são colegas, a alegria de, uns trinta anos depois, ainda ter antigos alunos, agora amigos, que me falem em português.

MP — Quais eram as principais dificuldades no ensino da nossa língua quando iniciou a sua carreira docente neste país e quais são as de hoje?

As dificuldades dos cursos de português na Califórnia

MD — Ao princípio a grande dificuldade era a falta de livros de texto que pudessem motivar os alunos e de estudos sobre a didáctica da nossa língua. Havia pois muito de improvisação naquilo que fazíamos. Mas assim se foi pouco a pouco abrindo caminho. Hoje em dia, afastado como estou há anos do ensino, não sei bem o que lhe diga. Suponho que sobretudo desinteresse por parte dos alunos. Algo que me entristece é constatar como na UCLA o programa de Português está quase moribundo. E suponho que o mesmo acontece em muitas outras universidades. Desinteresse porquê? Não sei. Haverá sem dúvida uma multiplicidade de causas para isso.

MP — Acha que a língua portuguesa tem o seu lugar garantido dentro das línguas mais faladas no mundo no século XXI?

MD — O que basicamente acho é que num mundo evoluindo tão rapidamente, muito pouco estará garantido neste novo século. Creio contudo viável que, quanto ao número de falantes (ou de pessoas cuja língua oficial é o português), possamos manter o quinto ou sexto lugar (estas estatísticas são muitas vezes falíveis) entre as línguas do mundo, que hoje em dia nos atribuem. Jamais recuperaremos o estatuto de principal língua franca que na época das navegações atingimos no Oriente, mas creio que poderemos ocupar um apreciável lugar no espaço europeu e sul-americano e talvez mesmo no africano.

Crítico do regime

MP — Um dos seus antigos alunos diz que você foi sempre bastante crítico em relação à contribuição portuguesa para o progresso da humanidade. Porquê?

MD — Diz e com certa razão. Nas aulas em que deparei com emigrantes portugueses criou-se ocasionalmente um ligeiro desencontro de atitudes. Eu, embora nunca houvesse tido qualquer actividade política, vinha de um ambiente universitário de forte contestação aos alegados conseguimentos do Estado Novo. Nesse enquadramento, nas aulas de literatura e cultura, não apresentava precisamente uma imagem de bilhete postal do Portugal que conhecia. Procurei ser realista, apontar sem dúvida para os valores mas não esconder lacunas.   Alguns dos meus alunos vinham imbuídos de uma patriotismo algo teórico e sem dúvida muito idealista. Por isso reagiam mal  a certas coisas que eu mostrava ou dizia. Recordo por exemplo que numa ocasião quase se indignaram com um slide dos bairros da lata de Lisboa e noutra que acharam obsoleto (não era) outro slide mostrando como em São Miguel se transportavam bidons de leite na garupa dos cavalos. Mas a maior indignação veio numa aula de literatura portuguesa, em que fiz qualquer passageira observação sobre o tema da homossexualidade na poesia de António Boto. E a reacção foi imediata: “Professor, um poeta PORTUGUÊS!” E a ênfase no adjectivo parecia indicar a incredulidade de que no Portugal salazarista de Deus, Pátria e Família que lhes haviam ensinado na escola primária, pudesse existir tal abominação.

Tudo isto foram contudo apenas pequenas divergências de opinião que nunca afectaram a estreita relação que sempre mantive com os meus alunos portugueses.

O cronista da América

MP — Paralelamente, desenvolveu uma carreira de escritor, quer como cronista, pedagogo, filólogo e investigador da presença portuguesa na América. Em que área se sente mais à vontade?

MD — Eu diria que na da presença portuguesa na América. Ao chegar aqui vim encontrar um novo mundo português, absolutamente fascinante. Era gente que provinha de meios regionais, sociais, religiosos, educativos e até certo ponto linguísticos diferentes do meu mas que comungava comigo nesta coisa tão singela de sermos todos portugueses afogados num mundo de americanidade. Se inicialmente alguma reserva poderia surgir quando viam um “lisboa” de pasta na mão ou caderno de apontamentos a assomar do bolso do casaco, a desconfiança pronto se diluía quando se davam conta de que eu não vinha para lhes vender seguros ou pedir uma contribuição para qualquer causa alheia às suas apetências mas apenas para me interessar pela sua cultura e pelo seu percurso migratório. Então logo me abriam a porta do seu lar e compartilhavam comigo o seu pão e o seu vinho. O que aliás também aconteceu a cada passo quando vagabundeei pela Europa buscando dados para um livro sobre os falares da emigração.

MP — Há quem o considere o maior conhecedor da presença portuguesa em terras americanas. Desde quando começou o seu interesse por este tema e porquê? Que avaliação faz das comunidades portuguesas dos anos 50/60 e das de hoje, e que futuro prevê para estas comunidades nos próximos 50 anos da história dos Estados Unidos? 

MD — Também há quem considere Hitler o génio, quase santo, que salvou a Alemanha do marasmo em que a Grande Guerra havia deixado o país. Eu considero-me apenas um dos do grupo, portugueses e americanos, que bastante tem feito para divulgar este nosso estar no mundo. Por outro lado reconheço que ignoro muito sobre a circuns-tancialidade da Nova Inglaterra lusitana, já que o meu trabalho tem incidido primordialmente sobre a Califórnia (e um pouco sobre o Havai).

A comunidade de ontem e a comunidade de hoje

Quanto à comunidade que conheci nos inícios da década de 60, o que mais me impressionou foi a arquetípica imagem, aqui à beira do Pacífico, do açoriano que chegou aos dezasseis ou dezassete anos, muitas vezes analfabeto, sem falar inglês, com uma moeda de ouro de cinco dólares no bolso, conseguiu voluntariosamente superar todos os obstáculos à sua aculturação e acabou por se tornar próspero dono de uma “leitaria” ou armador de barcos atuneiros. Quanto à comunidade de hoje, atenuou-se a feroz ética de trabalho que levou a tanta vitórias mas que impediu o acesso dos filhos à educação. E assim encontramos hoje uma comunidade mais diversificada profissionalmente, com representantes nos mais prestigiosos níveis laborais. O que sem dúvida também se deverá a uma emigração agora mais escolarizada e mais vocacionada para o sector terciário.

Quanto ao futuro desta comunidade nos próximos 50 anos, seria difícil para mim, sem acesso a uma bola de cristal, arriscar prognósticos. Creio contudo que, levando em conta o decréscimo de chegadas nas últimas décadas, presumivelmente causado por uma melhoria das condições económicas  em Portugal, muito dependerá das flutuações das correntes migratórias. É bem provável que, após a nossa integração na União Europeia, seja para os países industrializados do Velho Continente que muita da emigração portuguesa, seja qual for o seu volume, se continue a dirigir.

No que diz respeito aos Estados Unidos, a manter-se este decréscimo, o envelhecimento global da comunidade será inevitável. O que provavelmente conduzirá a um progressivo domínio da vida social por novas gerações de luso-americanos. Não será porém de crer que com facilidade desapareça a tradição cultural que  tem vigorosamente marcado a nossa presença neste país por já mais de dois séculos.

MP — Paralelamente, o senhor é também um cronista nato. Sobre o que gosta mais de escrever nas suas crónicas e porquê?

MD — Sobre a vida. Sobre o mundo que me rodeia. Porque cada dia é uma descoberta de algo que pode ser muito comezinho mas também encantador.

A amizade com Jorge de Sena

MP — O senhor foi amigo de Jorge de Sena, que acabou os seus dias um pouco desencantado com Portugal e a sua política cultural, e não só. Também partilha dessa opinião? Fale-nos dessa amizade.

MD — Sim, recordo bem a amargura de Jorge de Sena nos tempos imediatamente posteriores ao 25 de Abril, a mais aguda violência dos seus escritos de então. Na altura partilhava com ele essa atitude. Achava eu que os capitães de Abril se haviam deixado subverter no seu idealismo por processos facciosos que se empenhavam mais em destruir o que muito de mau e mesmo algo de bom existia, sem qualquer esforço para moldar uma nova sociedade verdadeiramente democrática. Depois prevaleceu a ala moderada das Forças Armadas, que aceitou uma evolução para o poder civil eleito e a situação melhorou. Hoje em dia tenho em alta consideração o nível intelectual do país.

A amizade com Jorge de Sena... Concretizou-se mais nos períodos de Verão, quando ele era director do Departamento de Espanhol e Português da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara  (e também do de Literatura Comparada) e eu co-director e professor do curso de férias de estudos portugueses. Houve também frequentes visitas dele a Los Angeles, mas foi sobretudo em Santa Bárbara que tivemos longas conversas sobre o  lá e o cá, o antes e o então. A sua casa estava sempre aberta para qualquer de nós que quisesse partilhar de convívios que se prolongavam pela noite dentro. Para mim era espantoso ver como atendia os alunos nessas ocasiões, esclarecendo por horas e horas as dúvidas deles. Como ainda encontrava tempo para os seus deveres profissionais e para a sua intensa produção literária, nunca consegui entender.

O livro sobre os portugueses na guerra do Vietname

MP — Recentemente, foi co-autor de um livro sobre a participação lusa na Guerra do Vietname. Como é que surgiu a ideia de escrever este livro? Basicamente de que se trata?

MD — Sim, é um livro que deve ser lançado esta Primavera ou talvez Verão. Francamente, não recordo de quem foi a ideia. Do Adalino Cabral, o outro co-autor? Possivelmente. Minha? Talvez. Não se ria, é a sério, mas muitos dos meus projectos de publicação surgem quando estou no chuveiro. Será a água quente que me desanuvia o cérebro? Portanto, não sei, talvez tenha sido mais um livro gerado no chuveiro. Talvez não. Tenho de perguntar ao Adalino.

De qualquer modo a ideia apareceu há uns dez anos. Motivos vários atrasaram a publicação das 16 entrevistas com antigos combatentes, quase todas conduzidas pelo Adalino, também ele participante nessa guerra. As impressões recolhidas foram para nós reveladoras do sentir emigrante. Praticamente todos os entrevistados aceitaram as obrigações militares como o pagamento de uma dívida de gratidão para com o seu país de acolhimento. Longe de qualquer ideologia, combateram com a mesma lealdade com que antes tinham prestado serviço a qualquer empresa. Só mais tarde se deram conta do absurdo, da incongruência daquele conflito. E ante a memória de tanta morte e tanto sofrimento alguns deles acharam, agora em retrospectiva, que deveriam então ter fugido para o Canadá ou de algum modo ter escapado ao serviço militar. 

MP — Que planos tem para o futuro na área da escrita e da investigação?

MD — Quase certamente mais do que os que poderei concretizar. Os de maior adiantamento são um estudo sobre a evolução da presença portuguesa na Califórnia, esse sim, já à beira do seu termo, e mais dois, ambos em co-autoria: uma apreciação das contraditórias opiniões do romancista espanhol Juan Valera sobre Portugal, elogiosas nos seus escritos públicos e demolidoras na sua correspondência privada, e uma cronologia de acontecimentos de todo o género, ocorridos durante o século XX português. Na sua infância estão um estudo comparativo da novelística das guerras coloniais portuguesas e da Guerra do Vietname, mais um livro de texto de português e uma colectânea de crónicas mexicanas.

(Texto cedido à Satúrnia pela revista Mundo Português, publicada nos EUA)