ISABEL PEREIRA DOS SANTOS:
Sou uma mulher de esquerda e vejo o teatro numa perspectiva universal





F ormada em teatro pelo Conservatório Nacional de Lisboa, Isabel Pereira dos Santos chegou ao Quebeque há cerca de dez anos, com uma bolsa de estudos da Secretaria de Estado da Cultura para realizar um mestrado em estudos teatrais. Em Fevereiro passado, com o apoio do Conseil des Arts du Canada, desloca-se a Portugal a pedido da Companhia de Teatro do Algarve, para fazer a encenação da peça A Baronesa e a Porca, uma obra de Michael Mackenzie, dramaturgo canadiano de origem inglesa. Actriz, autora, encenadora e contadora de histórias, Isabel Pereira dos Santos tem vindo a cumprir ao longo dos anos um fecundo trabalho de criação teatral.
A vocação teatral veio-lhe subitamente, como uma iluminação. E o seu mundo inteiro vacilou. Em 1978 abandona a Faculdade de Direito, que frequentava então e entrega-se de corpo e alma ao apelo do destino. Enquanto fala de teatro como duma festa continuamente recriada na sua essência mais profunda, o seu olhar anima-se com um novo fulgor. Fala com paixão daquilo que mais ama: o teatro, que segundo ela, nasce do amor e da capacidade de escuta do Outro.

LusoPresse - Quem é a Isabel Pereira dos Santos?
Isabel Pereira dos Santos - Sou alguém com um certo desejo de transcendência. Para mim, o meu desejo de me reconhecer tem a ver com a necessidade de me afirmar no campo da qualidade. Portanto, se não é aí que eu me encontro e que me vejo, e que a minha imagem me é reenviada, tenho imensa dificuldade em seguir-me e em dizer-me.
LP - Será que esse desejo de transcendência passa antes de mais nada pelo teatro?
IPS - Tenho uma grande paixão que é o teatro. É, por aí, que é o meu caminho de realização e de acção. Sei isso há muitos anos. E é por aí que sigo. O teatro é como um casamento. Nos bons e nos maus momentos, jurei que a gente se acompanharia. Toda a minha vida e história passam pela minha maneira de perceber e de ser capaz de encontrar a minha vida teatral no lugar onde estou.
LP - Em relação à comunidade portuguesa de Montreal, como se define e como se sente?
IPS - Com a comunidade portuguesa, os meus encontros foram também feitos através do teatro. Quando aqui cheguei não tinha conhecimento nenhum do que era a realidade da imigração; e o facto de ter trabalhado com a nossa comunidade num primeiro projecto Bonjour, Montreal; Bom Dia, por altura dos 350 anos das comemorações da cidade de Montreal; e noutro projecto, Souvenirs-Avenir, no Centre Strathern, com crianças da comunidade, em que a Associação Portuguesa do Canadá era um dos parceiros, fez-me conhecer as pessoas da minha língua que viviam e evoluíam aqui. Dessa realidade, o que gostei foi da generosidade das pessoas, do prazer de compartilhar, de jogar. O que gostei menos foi do espírito de ghetto dos pequenos grupos fechados.
LP - Agora, voltemos atrás. Gostaria que me falasse de como lhe veio a sua atracção pelo teatro?
IPS - Dava uma história muito divertida. Sou filha duma família da classe média. Nasci num Portugal obscuro, que era o Portugal do fascismo. Como todas as meninas bem nascidas, nem sequer sabia que se podia fazer uma carreira em teatro e que isso poderia ser um futuro para uma mulher. Portanto, quando chegou o tempo de decidir da minha carreira fui para Direito. Andei alguns anos na faculdade, em Lisboa. E chegou o 25 de Abril, que foi um dos grandes momentos da minha vida. E um dia, assim, de uma maneira absolutamente mágica, descobri enquanto comia bolinhos de amêndoa que o que queria era fazer teatro. Reflecti e disse: quero fazer teatro. Vou para o Conservatório. Não faço a mínima ideia porquê. Isso saiu do nada. Nessa altura, o director da Escola Superior do Conservatório era o Augusto Boal, um brasileiro extraordinário, que me marcou profundamente pelo amor que tinha ao teatro e à humanidade. De teatro, eu só tinha visto, em Faro, o Rafael de Oliveira, que era o que os portugueses da província viam. Era um grupo itinerante que faz parte da história do nosso teatro.
LP - A Isabel há pouco falou do 25 de Abril. Como viveu esse dia? Que poderia dizer sobre o teatro, em Portugal, antes e depois dessa magnífica página da nossa história?
IPS - Eu não estava ainda em teatro, nessa época. Vivi o 25 de Abril na Faculdade de Direito. Vi cair toda a Constituição. O teatro veio depois, quando me apercebi que existiam outras coisas, outras vias, outras portas. O 25 de Abril é uma grande festa. Ensinou-nos a liberdade, e o teatro é a continuação da festa, na sua essência. Antes, só existiam os grandes antagonismos. Era tudo dividido em grupos: os bons, os maus, o preto e o branco. E as coisas só começam a ser interessantes, na vida como no teatro, quando existe um espaço de liberdade, porque a partir daí entramos em zonas de fineza dramática, de trabalho em sensibilidade, em zonas de nuances da humanidade e da alma humana. Antes do 25 de Abril, só existia o preto e o branco, depois descobre-se todos os matizes do preto e do branco.
LP - Como define o teatro português?
IPS - Para o ano que vem comemoram-se os quinhentos anos do Gil Vicente e da sua obra. É uma data importante para nos fazer repensar que este povo que é o povo português tem quinhentos anos de história teatral. Isso é extraordinário porque quando pensamos na pobreza do nosso teatro, da nossa dramaturgia, dizemos: Como 500 anos de história teatral? Mas esquecemo-nos desse grande buraco negro e terrível que foi a Inquisição. Matou na fogueira não só o judeu António José da Silva, um grande autor, mas também o espírito do teatro em Portugal. Depois disso o teatro nunca mais voltou àquele esplendor e àquela luz que tinha o teatro vicentino. Mais tarde, veio o fascismo. Portanto, cada vez que o teatro levantava a cabeça havia como que um acontecimento que o abafava. Neste momento, o teatro está cada vez mais vivo em Portugal, e isso é para mim uma grande alegria. Isso demonstra o desejo dos portugueses de reflectir sobre a sociedade e a comunidade. E esse desejo passa pelo teatro.

LP - A Isabel acaba de chegar de Portugal. Foi convidada pela Companhia de Teatro do Algarve (a ACTA) para encenar uma peça. Poderia relatar essa experiência e dizer-nos como foi o encontro com a terra natal?
IPS - Acedi ao convite do Luís Vicente, o director artístico da ACTA. Ele disse-me que gostaria de trabalhar comigo e deu-me carta branca. Apresentei-lhe a seguinte proposta: A Baronesa e a Porca, do autor canadiano Michael Mackenzie. Uma vez que já estou em Montreal há dez anos, achei interessante levar para Portugal coisas da minha cultura daqui, na medida em que acabamos sempre por ser influenciados pela cultura do país em que vivemos. A imigração ensina-nos também algo que tem a ver com uma reflexão sobre o país de origem com uma certa distância. Isso é útil na maneira como depois nós somos capazes de trabalhar os símbolos. A experiência foi extraordinária e o espectáculo foi muito bem recebido. Quando me vim embora, o espectáculo ainda ficou em cena. O director voltou a expressar o desejo de eu trabalhar com ele. Por agora só posso dizer que existem projectos em desenvolvimento.
LP - Que sensação senti em voltar a trabalhar em português?
ISP - Aqui, uma pessoa esforça-se tanto para trabalhar numa língua que não é a da sua origem. Foi, de facto, muito bonito esse regresso à língua portuguesa. Pensava naquela frase do Pessoa: A minha pátria é a língua portuguesa. Essa frase sempre me inspirou muito. É como se ela agora tivesse outro significado.
LP - Segundo li, nas Actas da Companhia de Teatro do Algarve, a Isabel foi a fundadora da primeira companhia de teatro profissional do Algarve?
ISP - Sim. Sou originária de Faro. E tive um grupo de teatro que fundei com o Luís Aguilar, Angela Pinto e José Ananias. Foi de facto a primeira companhia de teatro profissional do Algarve, o Teatro Laboratório.
Depois vim para Montreal com uma bolsa de estudos da Secretaria de Estado da Cultura de Portugal para fazer o meu mestrado em teatro. O grupo não continuou e acabou por se extinguir. Portanto, é para mim uma grande alegria que exista agora uma nova companhia de teatro profissional no Algarve, e que trabalhe com tanta qualidade como é o caso da companhia que o Luís Vicente dirige. O facto de me convidarem para trabalhar com eles é uma grande honra.
LP - Chegou aqui há dez anos. Quais foram as dificuldades que encontrou como artista vinda do estrangeiro?
IPS - Quando cheguei, não sabia bem o que era ser imigrante, e nem sequer tive nos primeiros anos a percepção do meu estatuto de imigrante, de mulher de teatro. A minha história com o Quebeque é uma história de amor porque começa com o Michel, o meu companheiro. Mas agora, o que é visível para mim é que é extremamente difícil encontrar a via da nossa palavra, como artista. O facto do Quebeque estar ainda à procura da sua identidade acaba por nos cair em cima. E nós, os artistas, somos as primeiras vítimas dessa constante procura de identidade, porque acabam por não ver aquilo que somos mas só o que podemos dar. Senti-me sempre, aqui, um bocadinho colonizada. Senti-me o ícone da imigrante e não do novo cidadão. Isso é extremamente doloroso porque sou artista mas também cidadã. Levo dentro de mim uma ferida que ainda não sarei porque sou uma mulher de esquerda e vejo o teatro numa perspectiva universal.
LP - Certas pessoas têm dificuldade em aceitar que o teatro faça parte dessas coisas que devem ser subsidiadas, apoiadas. Como reage a isto?
IPS - Penso que foi Rui Nery, então ex-Secretário de Estado da Cultura que, querendo mostrar às pessoas quanto custaria subsidiar todas as companhias de teatro em Portugal, deu um exemplo lindíssimo, em que disse que todas as companhias de teatro, em Portugal, gastam por ano a mesma coisa que construir um ou cinco quilómetros de auto-estradas, o que dá de facto a ideia da relação das coisas. Vamos lá ver. A cultura em países de democracia, pelo menos no hemisfério norte, é subsidiada. Em Portugal já ninguém faz questão disso. Se a nossa comunidade, aqui, ainda o faz, é uma pena. Se ela ainda está a discutir isso é porque ainda há bocados do 25 de Abril que ficaram por perceber. O teatro faz parte da cultura, e tudo aquilo que é de facto a criação, o trabalho pela promoção da identidade cultural dum povo, duma língua, tem que ser apoiado, senão não existe. O que sinto às vezes, aqui, na comunidade portuguesa, é que ainda se vive nesse negro da Inquisição, em que o artista é perfeitamente considerado como um ser sem interesse ou então remetido continuamente ao mundo do entertainment e do divertimento.
LP - A Isabel tem, actualmente, um grupo de teatro. Poderia elaborar sobre isso.
IPS - Das coisas que estou a fazer actualmente, o Grupo Marear tem um sabor muito especial porque tem a ver com uma síntese duma série de sonhos. E o maior deles é o facto de estar a trabalhar com pessoas que têm origens e caminhos de vida completamente diferentes; e aquilo que as une e as faz estar num grupo de teatro comigo é o amor pela língua portuguesa. Estamos a trabalhar há imenso tempo.
Este projecto levou-me a mergulhar na comunidade portuguesa porque, numa primeira fase, recolhi uma série de histórias, algumas delas que me comoveram imenso, de homens e mulheres da primeira geração que chegaram aqui. São muitas coisas afinal que para mim se juntam e se sintetizam no projecto Marear. Sobre isso não quero falar muito. Sou um bocado superticiosa nestas coisas. No momento devido anunciaremos o espectáculo.
O projecto foi patrocinado pela Secretaria de Estado da Cultura e das Comunidades portuguesas e apoiado pela Associação Portuguesa do Canadá. Actualmente trabalhamos no Clube Oriental, onde as pessoas nos acolheram com todo o amor e boa vontade. Penso que é um projecto que tem toda a sua razão de ser porque tem a ver com aquilo que nós somos quando deixamos Portugal. Aliás, não tem só a ver com Portugal, mas sim com pessoas da lusofonia. E a pátria da lusofonia é muito mais bonita do que a pátria única, porque é uma pátria alargada.
LP - Queria agora que me falasse da Isabel, contadora de histórias, que encena e escreve para esse público extraordinário que são as crianças. Que espaço ocuparam os contos na sua infância?
IPS - A culpa dos contos vem da minha avó. Vivia na Serra algarvia, perto da fronteira de Espanha. Portanto, durante a minha infância sempre ouvi contos. As casas brancas, os figos, fazem parte do meu imaginário antigo, da infância. Os contos têm a ver com essa memória, com o facto de ser imigrante. Tem também a ver com a dificuldade e a procura dum espaço de intervenção em termos artísticos de criação. Aqui, os contos encontraram um espaço especial em que me afirmo na minha especificidade, na minha cultura de origem, mas também na minha capacidade de criar teatralmente. Depois dos primeiros contos apareceram contratos nas bibliotecas, nos museus. E foi assim que comecei a trabalhar como contadora de histórias.
LP - Pensa nas suas filhas quando escreve?
IPS - Não penso nelas quando escrevo, mas sim quando acabo. São elas o meu primeiro público. Os primeiros ensaios gerais são feitos antes da apresentação nos museus e nas bibliotecas. Esse momento é importante, como é muito importante que elas me reconheçam no meu trabalho, porque isso faz parte da herança. Deixamos aos nossos filhos sobretudo uma maneira de pensar. Acho que, pelo teatro, posso deixar às minhas filhas a minha maneira de sentir.

(Entrevista conduzida por LÍDIA RIBEIRO e gentilmente cedida pelo LusoPresse de Montreal-Agosto de 2001)