OLÁ, FERNANDO
Foi com esta saudação
que o Joaquim Eusébio abriu a apresentação do teu livro. Também assim será que
eu começarei esta carta.
Olha, escrevo-te para te informar que a tua festa de aniversário
esteve estupenda.
O
salão nobre do Centro Santa Cruz quase rebentava pelas costuras com tanta gente
Estavam lá todos os teus amigos. Estava lá a tua Comunidade. Toda aquela gente
simples que foi a tua família durante 25 anos. E que tu amaste. E que te amou.
Logo no princípio, o padre José Maria subiu ao palco para, em jeito de breve oração, nos falar,
com o brilho costumado da sua oratória, de amor e do pão do espírito. Não poderia ter
sido encontrada melhor e mais adequada abertura.
De seguida, a Adelaide Vilela, com um saber de experiência
feito, empunhou a varinha mágica e, como
num fresco gigantesco e colorido, fez desfilar
diante dos nossos olhos enternecidos os retalhos mais relevantes da tua vida e
da tua obra, pétalas da grande rosa do amor desfolhadas uma a uma, sem pressas,
pelo serão fora.
Os primeiros a actuar foram o Tony de Sousa e a Inês Gomes
que deram forma e voz a algumas das mais
belas letras de canções que escreveste. Mas
que voz cristalina a dessa senhora! Merecia mais largos voos.
Os teus alunos da escola Lusitana subiram ao palco para
declamar, como quem desfia as contas dum rosário, as estrofes do teu poema Epopeia Marírima e para testemunhar publicamente a sua gratidão
pelo teu sacerdócio em prol da língua e da história portuguesas. Nunca mais te
esquecerão, acredito.
Inevitavelmente, alguns dos nossos poetas, esses semeadores
de sonhos e esperanças, também quiseram professar
o seu apreço pela tua obra literária e
declamar os teus versos em rios transbordantes
de ternura e de inspiração. O António Vallacorba, a Dinora de Sousa, o
Armandino Santos, o pastor Marques da Silva, esse eterno jovem, foram os
chamados. E muitos mais seriam se a noite não fosse curta e o programa ainda
longo.
Como
se esperava, momento alto da noite foi a intervenção do Joaquim Eusébio. Com a
desenvoltura, a postura cénica e a verve que lhe conhecemos, falou como ninguém
o podia fazer, de ti, do teu livro Tão Longe e Tão Perto, da tua obra.
E quando, intercalados na trama da sua alocução, declamava retalhos dos teus
poemas, as suas palavras encadeavam-se como pérolas cintilantes a tilintar pela
sala e a incrustar-se para sempre no nosso imaginário colectivo.
Depois, o grupo Recordações de que tu foste a alma mater, veio-nos
recordar a tua inesgotável alegria de viver. E encantou-nos, mais uma vez, com
os seus cavaquinhos e a sua eterna música popular. Que continuem, mesmo sem
ti, que não se deixem morrer. Era a
maior alegria que te poderiam dar.
Mas não se ficou por aqui a tua
festa. Nunca mais nos poderemos esquecer dos testemunhos comovidos da pintora
Mercês Resende, da Nina, dos teus filhos David e Daniel, da tua irmã Amélia, da tua sobrinha Guida. Houve vozes
embargadas e olhos orvalhados. Eu próprio, com o pavor que tenho das grandes
multidões, atrevi-me a narrar uma
história da tua vida. Recordaste da cigana que não te dava mais de 25 anos de
vida? O que nós rimos juntos, tantas vezes, disso. Foi esse episódio, que fala
dos enigmas da vida e do destino, que eu quis partilhar com aquela boa gente
nessa noite.
Como não podia deixar de ser, o
grupo folclórico Praias de Portugal, que tanto acarinhaste e que ajudaste a
criar logo nos teus primeiros anos em Montreal, veio apresentar-nos algumas das
suas vistosas e coloridas danças e prestar o seu preito a um dos seus obreiros.
Foi bonito este reconhecimento público.
Por fim, a São. A grande diva do
fado em Montreal. Esteve, como sempre, maravilhosa. Fabulosa. A sua soberba actuação cortou o fôlego à
assistência. Não se ouvia zunir uma mosca na sala. Significativo. Para quê mais
palavras?
Para coroar tão belo serão, não faltaram os comes e bebes, com fartura.
Aquela gente, lá para a cozinha, esmerou-se para nos presentear com as mais deliciosas
iguarias.
Podes, pois, dormir em paz. Acredita,
no decorrer da noite, a tua presença era tão tangível que, no auge da festa,
pouco faltou para que surgisses dalgum recanto, com a tua viola na mão, e nos
juntasses ao teu redor, para mais uma das animadas desgarradas, por que tanto
te pelavas, até raiar a madrugada. E, se o milagre se tivesse produzido, num
arrebatamento, talvez tivéssemos cantado, de mãos dadas, até que, como tu escreveste, acontecesse o clímax
da comunhão:
Começa
a ver-se o mundo de outra maneira,
Aprecia-se
estar rodeado de povo,
É
como se nos nascesse um novo dia.


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