HÉLDER RAMOS
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Como banir os Calígulas do séc.XXI |
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A
Roma de Calígula há muito que dominava o
mundo conhecido, e no centro do império estava o trono do imperador. Talvez por
essa razão, seguindo o raciocínio conhecido nos nossos tempos como
"raciocínio do mercado", Calígula não conseguiu resistir á tentação
de erguer uma estátua de si próprio (erguida em terreno que hoje pertence á
Palestina!). Homem inegavelmente do seu tempo, Calígula não
conseguiu resistir a nenhuma tentação, tal, pelo que parece, era tão grande a sua
fome pelo poder, que alimenta o ego, que é um mal necessário. É um mal necessário porque existe uma
aceitação, ou tolerância, por parte de muitas pessoas, de situações complicadas causadas
pelos caprichos e pela insegurança dos grandes egos do nosso tempo. Em Janeiro, o pensador e autor Canadiano Mark
Kingwell publicou o livro The World We Want: Virtue, Vice, and the Good
Citizen, em que afirma: "The important opportunity now is to think
of citizenship, not based on bloodline or gender or property, but instead to
think of it as based on the act of political participation itself." Kingwell é da opinião que o conceito de
cidadania, no século 21, é complexo porque é enformado por vários outros factores para
além daqueles que já conhecemos: a etnia, o sexo, a "raça". Alguns Portugueses, por exemplo, consideram-se
"Cidadãos do Mundo". Outros,
são Portugueses, e mais nada. Outros,
ainda, são Canadianos, porque nasceram aqui, mas são também Portugueses,
etc. As variações sobre este tema podem
ser infinitas e, para mais, nenhuma delas é mais "correcta" do que
outra. Mas Kingwell afirma que no mundo em que
vivemos, estas palavras têm pouco ou nenhum significado, se não forem
acompanhadas por participação cívica. A importância destas ideias, sendo elas
"verdadeiras" ou não, quer concordemos ou não com elas, não pode ser
subestimado. Á medida que mudam as fronteiras de alguns
países, e desaparecem as de outros, o que nos resta é uma identidade resultante
da intersecção de várias "identidades", de funções que desempenhamos,
e de causas ou assuntos com as quais nos identificamos e dos quais retiramos
alguma noção de quem somos. Há dias recebi uma cópia de uma tese em
sociologia, desenvolvida por uma colega que está a estudar na Suécia. Mais concretamente, ela fez um estudo em que
entrevistou 22 jovems de etnias "mistas". Isto é, todos têm um pai (ou mãe) de uma etnia, e o outro
progenitor de outra. O propósito do
estudo foi de saber quais as dificuldades de relacionamento entre estes jovems
e os costumes (e as "entrelinhas") duma sociedade homogénea. "What I have learned from these young
people is that they have an ability to mediate and see problems or conflicts
from more than one angle, simply because they have experiences from more than
one culture to build on." É uma vantagem, então, ter raízes em mais do
que uma cultura. Mas também pode ser
uma desvantagem porque: "It is less easy for them to see only one truth." Para estes jovens, é menos fácil reconhecer
uma só verdade. Chamo a isto uma desvantagem, não porque concordo
que só existe uma verdade, ou que só devia de haver uma verdade, mas porque é
difícil para muitas pessoas aceitarem a ideia de que a verdade não existe, que
cada um de nós é capaz (tal como outro qualquer) de chegar á verdade, porque
ela existe para todos, e é diferente para todos. Mas dá muito trabalho procurar a verdade, mesmo
que seja a "nossa", e por isso contratamos um Calígula para nos
indicar o caminho. Toleramos as
exigências e agendas políticas dos Calígulas porque é mais fácil assim. No mundo de Calígula, não existe a ambiguidade:
é tudo preto e branco, bom ou mal, direito ou torto. É fácil saber quem é amigo, e quem não o é. E enquanto Calígula retiver o poder, estamos
nós muito bem, obrigado. Só que a Roma de Calígula já não existe. E as
comunidades do nosso dia são compostas por aqueles que apoiam os Calígulas do
mundo, aqueles que querem ser Calígula, os que estão-se nas tintas para
Calígulas, e aqueles que nem sequer imaginam que existe tal bicho. O melhor remédio contra o ego dum Calígula está
na participação cívica, que é um direito fundamental da cidadania, e talvez até
venha a ser um dever. A cidadania, por
seu lado, facilita a nossa integração pessoal no seio de uma comunidade local,
e nacional (enquanto as nações ainda existirem!). Facilita, também, a compreeñsão dos nossos
direitos pessoais, e, ao contrário da justiça á Calígula, a cidadania permite
que a justiça "natural" seja feita, sem compromissos, nem medos de
retaliação por parte dos que se defendem com as rédeas do poder. E facilita, sobretudo, o respeito e tolerância
pelos outros (por todos, não só pelos Calígulas) que está a faltar em muitos
quarteirões da nossa sociedade. Esta é apenas uma verdade. Pode não sê-la para todos. Mas nem todos somos Calígulas.
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