ONDE A POBREZA SE ESCONDE
ao mote do José Gil e José Carlos Lima
Onde a
pobreza se esconde mora
a esperança
de um dia de sol. Chove. Às vezes.
E é
água, com sabor a pão, a nuvem recolhida
nuns baldes
espalhados pelo chão.
Num canto,
exactamente no breu da sua escuridão,
escuta-se,
pressente-se, que alguém chora.
Lamenta-se
pela ausência de benesses
o triste, no
seu abandono, esquecido da vida.
Se os tinha,
agora ignora, laços, paixões, interesses.
Se alguém
lhe bate à porta, silencia-se. Esquece
que o mundo
lá fora continua numa roda enérgica;
porém, o
certo, é que a riqueza é um rio e cresce
numa onda
monumental, como se fosse apenas uma luz,
uma
indescritível fonte de contrastes e, por isso, alérgica,
ao
sofrimento, à dor, ao mistério despido de magias.
E,
calada, brilha na bruma do tempo; assim, seduz
a esperança
que nos acorda todos os dias.
Até amanhã,
poderia dizer, nas guerras santas,
qualquer
Ricardo Coração de Leão, qualquer conde
à
sua mal ou bem amada condessa;
mas o que
nem metaforicamente se descobre
no percurso
das palavras, devagar ou à pressa
é o lugar
onde
às tantas
o pobre
se esconde.
José António Gonçalves
(Inédito, 12.4.03)