ODE AO RANGER DE UMA PORTA

 

    para o João Carlos Abreu

 

no fim da rua não há mais nada senão

o fim da rua

e a luz no fim do túnel não é uma luz mas o túnel

que se regozija em esplendor

por ter finalmente

chegado ao fim

 

porém o que os escribas do reino esquecem quase sempre

é que o fim da rua

e a luz no fim do túnel

às vezes contemplam-se com o princípio das coisas

e transformam-se na maravilhosa criação

do homem que dá o primeiro passo

 

então a luz do fim do túnel ilumina

 a jornada que continua em frente

e nos muros que cercam o fim da rua

surge aos olhos do caminhante

uma porta aberta

para que ele entre

se alimente refresque e descanse

 

chegada a hora segue o andarilho em busca

do infinito

onde vai construir uma casa desligada de ruas

feita de sombras e de sóis brilhantes

onde são perfeitamente inúteis todas as luzes

que iluminam o fim

dos túneis

 

e na alma transporta o peregrino a memória

sublime e quente

do ranger de uma porta que se abre

no contraste do silêncio

de todas as outras portas

fechadas

 

 

José António Gonçalves

(inédito, 24.4.90)