A SAUDADE
para
Xanana Gusmão
Procurava
Portugal, nos abismos da terra,
o sentido da
palavra saudade
e vasculhava
por entre a bruma dos pinhais,
no nevoeiro
cerrado das antigas aldeias
e no asfalto
orvalhado das ruas novas,
cruzando
cidades, templos, casas e ventos,
sem receber
o eco claro e intemporal
de qualquer
mágica resposta.
Insistindo,
Portugal percorreu históricas montanhas,
redescobriu
vales e molhou-se nalguns rios inesperados,
avançando ao
sabor da aventura nas asas das miragens,
sem descansar
no adormecimento do cair das tardes,
nem soçobrar
com o encadeamento do nascer das manhãs,
aplicando-se
febrilmente, como um apostador,
no raivoso
cumprimento do seu vício e missão
e recusou
prostrar-se no alento da ousadia.
Olhava-se
Portugal ao espelho, de vez em quando,
no arfar da
sua labuta, com o peito a descoberto,
na esperança
de se reencontrar com a sua imagem,
certo de que
não havia modo de deixar, aos deuses,
o êxito da
sua persistente romagem, na terra ibérica,
magoando os
pés, as mãos, o coração e a alma,
ao carregar
o peso da jornada interminável,
caído sobre
os seus ombros, com a forma de um povo.
Não se sabe
bem como, Portugal acreditou
no que
estava para além, do outro lado do dia,
nem como
subitamente se lembrou do mar,
da existência
de ilhas e de pessoas vivas e mortas,
de
territórios com fronteiras, bandeiras, glórias e orações,
à mistura
com sentimentos, carne, corpo e uma Língua,
onde Camões
e Pessoa lavraram a poesia,
com o rosto
de uma Pátria e o olhar de um País.
Alguém interrogou-se,
se fazia sol ou se chovia,
sempre que o
silêncio invadia os pátios, os salões,
as cadeiras
ornamentadas e os comandos dos quartéis;
e acordou,
quando, nos alvores da tresloucada viagem,
seres em
fuga batiam às portas da denúncia,
com um grito
na boca, esperando por um gesto,
um abraço, a
liberdade, a pétala viçosa de uma flor.
E foi então
que a luz
transbordou
por sobre os
telhados
e
descortinou a palavra saudade
nos confins
de Timor.
José
António Gonçalves
(Funchal,
inédito, 1992)