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ORAÇÃO EM MEMÓRIA DE TOMÁS MORE
homenagem ao Prof. Fernando de Mello Moser
São lentos
os indícios dos caminhos que
conduzem aos louros da vitória, Senhor, por isso
desculpo-me com a demora para
justificar a esperada derrota; mas não
cruzo os braços e volto à estrada, mesmo
sabendo que no fim da jornada estará
outra horda preparada para a luta e volto a
enfrentá-la como se em toda a minha vida não
tivesse feito outra coisa, renovando forças no cansaço
da repetição, persistente na busca de outras
experiências, desenhando esperanças onde
residem certezas: não se pode transformar tristezas
em alegrias, pedras em pães, inimigos em irmãos
ou abraços no gume das facas mortais. Por isso,
Senhor, não desejo ficar sentado na porta
das igrejas, nem nos telhados das casas livres,
conhecendo a perícia dos homens ambiciosos e vis, nas
coisas comuns e na utilização dos punhais. Estou
atento, firme, mas despido de roupagens que não se
identifiquem com as glórias passadas dos viajantes
perdidos na sede das
próprias viagens. Por boa ou
má sorte, Senhor, as
delícias do meu sonho, criadas em palavras com sabor
a erva e cheiro a terra, são as
boas mensagens, as sãs e vividas miragens por que já
ninguém espera. Daí que me
baste o dia no seu permanente crescendo, como se me
descobrindo morto, fosse vivendo. José
António Gonçalves (inédito,
Funchal, Maio, 2002) |