A COMUNIDADE ESTÁ MAIS POBRE

 

 

Morreu o Fernando André. Do jornal A Voz de Portugal de Montreal, pedem-me um testemunho. Sobre o homem. Sobre o poeta.

O que poderei dizer? O que mais poderei acrescentar ao que já escrevi anteriormente? Que melhor testemunho poderei encontrar do que estes dois textos que escrevi  para  os seus mais recentes livros que já estão em avançada fase de preparação  e que infelizmente ele não chegou a ver impressos? Fica-me, como consolo, a  recordação da alegria que lhe vi nos olhos já quase sem luz, quando,  no leito do hospital, lhe mostrei as provas já adiantadas do livro Tão Longe...e Tão Perto.

 

“Há pessoas que atravessam a existência  como sombras, imponderáveis, sem deixar marcas visíveis, apressadas de se refugiarem atrás do pano do palco da  vida.

Outras, pelo contrário, vieram a este mundo para desfraldar ao vento a bandeira  da mudança, para agitar as almas atoladas no marasmo dum quotidiano sem história. São elas o fermento da transformação, tocadas pelo condão, pela graça, de dar forma ao informe, voz ao silêncio, luz às trevas, sentido ao incompreensível.

O Fernando André é uma destas. Desde aquele já longínquo dia em que  chegou a Montreal, com a sua guitarra às costas e a alma repleta de sonhos, a Comunidade Portuguesa nunca mais foi a mesma.

Não é exagero afirmá-lo. As letras e a música foram as suas ferramentas predilectas de dedicado artesão das artes. Utilizou-as com fervor, com dedicação, com a força dos criadores convictos das suas certezas e da sua missão.

As sementes que lançou à terra floriram prodigamente por todos os recantos da Comunidade. A sua obra está por aí bem visível nos jornais onde colaborou, nos livros que escreveu, na escola onde ensinou, nas colectividades onde participou, no rancho folclórico e no agrupamento musical de que foi a alma mater.

Por todo o lado deixou gravado o cunho da sua energia, da sua alegria de viver e da sua fé num mundo melhor e mais belo.

Este livro de poesia que nos deposita nas mãos é mais uma inequívoca demonstração da sua capacidade de entrega e  de partilha das emoções  que lhe rasgam o peito em profundos veios de ternura e de generosidade.”

 

 “No prefácio do seu livro Nas Asas do Vento, escrevi assim: para o Fernando André, a poesia é aguçado lápis com que deita atentas contas à vida; rede que lança ao mar profundo das emoções; paleta onde mistura as cores do sonho; foice com que ceifa a seara farta da fraternidade; arma que empunha na luta por um mundo melhor; cinzel com que esculpe o rosto, sempre renovado, do Amor.

Chegou a hora de acrescentar: para o Fernando André, a poesia é fonte onde vai sorver forças para enfrentar com coragem o martírio da doença e da dor; templo onde vai orar e reencontrar-se com as vozes profundas do Além; pão  que o alimenta na onírica e catártica peregrinação pelos lugares sagrados da sua frutuosa existência terrena; bordão que o sustém na  derradeira caminhada até à encruzilhada da vida onde os mistérios existenciais explodem em mil fogaréus e se desnudam finalmente no seu derradeiro significado. Agora, com então,  a poesia será sempre para o Fernando André, até ao derradeiro sopro,  fiel companheira de viagem, pelas veredas exuberantes da Vida, ao encontro do reino da Beleza, a face visível de Deus. Será, certamente, mão amiga que o guiará na viagem de regresso ao ventre cósmico e à dissolução no Verbo, essa suprema forma de alcançar a Eternidade.

Com a paz de espírito de quem viveu a vida em plenitude, a poesia será para o Fernando André, nesta última dádiva, a forma mais generosa de nos dizer adeus.”

 

Manuel Carvalho-8 de Abril de 2006