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CRÓNICAS |
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POETAS EM CRISE No princípio era o caos. A seu tempo, a natureza encarregou-se de ordenar o mundo, colocando coisas e seres nos seus devidos lugares. A certa altura, entraram em cena os poetas - seres insatisfeitos com a ordem natural das coisas - e desarrumaram o mundo, criando uma nova ordem através da palavra. O poeta passou a ser filósofo - aquele que pensa - e a poesia um ato de fazer (poiésis) e exprimir idéias. Expulsos de muitas repúblicas, os poetas, perniciosos porque pensantes, puseram os pés na estrada e percorreram o mundo para depois narrar o que viram e ouviram, jamais da forma que viram ou ouviram, pois se assim fosse, seriam historiadores e não poetas. Enquanto os poetas subvertiam através de um mundo onírico, os homens que nada entendiam de poesia, subvertiam a ordem verdadeira, substituíam valores éticos e morais por outros valores de pura esperteza e covardia. Perplexos diante da subversão geral, os poetas, sem alternativa diante de tão desgastado termo, passaram a subverter apenas e tão somente a linguagem, tornando-a, muitas vezes, incompreensível à maioria dos mortais (leia, ou tente ler, por exemplo, a recente tradução de Finnegans Wake, de Joyce, e veja até onde chegou toda essa subversão lingüística). Muitos, simplesmente, esqueceram do homem em sua poesia e voltaram o foco de suas preocupações apenas para a língua, que também pode ser a pátria (já o disse o poeta), mas, convenhamos, não é tudo o que a pátria deve ser. A poesia, na pós-modernidade, passou a falar só da própria poesia. Por outro lado, como narrar ou (re)criar (no sentido da mimesis) o horror em que se transformou o mundo, o absurdo da força bruta dos pós-bárbaros, possuidores de tão poderosas e mortais armas, sem produzir mais horror? Narrar o horror implica recriá-lo e, ao que parece, o horror do horror tem levado o ser humano a fabricar mais horror. As crianças que tiveram substituídas as brincadeiras de roda, de pião, de bolinha de gude e outras inocências, por jogos (games) de horror e morte, que banalizam e incentivam o ato de matar e morrer, não estariam sendo vítimas desse ato exorcista? Vítimas hoje e prováveis algozes amanhã? Diante de tanta perplexidade, os poetas em crise buscam um sentido para uma nova odisséia a ser narrada. Quem sabe? a fundação de outro admirável mundo novo, Ítaca renovada, onde a inteligência prevaleça sobre a força bruta e a poesia sobre a pirotecnia verbal. Diário do Grande ABC EM 17.11.99 Silêncio, Amália morreu Amália, a fadista, sabia-se amada e queria que chorassem por ela quando morresse. Foi isso que fiz ao saber de sua morte. Chorei e, em silêncio, ouvi-a cantar por horas seguidas, sabendo-a viva, ali, naquela voz que faz parte de minha trajetória de vida, há meio século. A origem do fado é controversa, envolve lendas e suposições. De acordo com Pinto de Carvalho (História do Fado, 1903) teria "nascido a bordo, aos ritmos infinitos do mar, nas convulsões dessa alma do mundo, na embriaguez murmurante dessa eternidade de água". Uma outra tese é a de que o lundú, (dança obscena dos pretos congoleses, importada no Brasil e em Portugal) é o seu predecessor imediato. O certo é que o fado surgiu em Portugal com o regresso da corte em 1822 e teve sua idade de ouro na mítica "cantadeira" Severa, que reinou absoluta na idolatria e no imaginário português – foi tema de opereta, peça teatral, filme e, claro, letras de fado - até o surgimento de Amália. De acordo com musicólogos, Amália revolucionou o fado tradicional, enriqueceu sua pobreza melódica inicial, acrescentando-lhe, inclusive, o improviso, um elemento jazzístico. Entre tantos méritos dessa cantora dona de uma voz absolutamente singular, está o de ter popularizado a grande poesia de língua portuguesa. Amália cantou, entre outros, Camões, Guerra Junqueiro, José Régio, Alexandre O´Neil, Pedro Homem de Melo, Antonio Feliciano de Castilho e a nossa Cecília Meireles e transformou o fado num verdadeiro traço de união, marca identitária entre todos os portugueses. Não há quem nele (e nela) não se reconheça. Após a Revolução dos Cravos, Portugal, levianamente, passou a ignorar Amália, rotulando-a de representante do salazarismo. O gênio e a arte de Amália estavam, porém, acima de rótulos equivocados, colados com a goma apressada da (legítima) euforia da época. Dignamente, ela continuou cantando pelo mundo, sendo recebida em delírio pelas mais nobres platéias, como o Carnigie Hall, de New York e o Olympia, de Paris. Ainda que cantasse em outras línguas – forma gentil de retribuir os aplausos, ninguém precisava falar português para entendê-la. Amália era universal e deu ao fado essa dimensão. O ostracismo durou pouco e, passados os anos de euforia e acertos, Portugal voltou a (re)conhecer-se nela. Como nas tavernas de Lisboa, peço silêncio, pois vai-se cantar o fado. Silêncio, Amália morreu. Diário do Grande ABC em 13.10.99 JANELAS DA MEMÓRIA Folheio, com a devida reverência, um alfarrábio de 76 anos (Antologia de poemas, de Augusto Gil, 1923 – Livraria Bertrand, Lisboa) publicado ainda em vida do então muito popular escritor português. A simples leitura do título do poema Balada na Neve abre-me uma grande janela na memória. "Batem leve, levemente, Como quem chama por mim... Será chuva? Será gente? Gente não é certamente E a chuva não bate assim..." Inexplicavelmente e com facilidade, posso dizer de cor estes e os outros versos do poema. Vejo, ainda, a cena da infância evocada com uma clareza assustadora: fim do ano letivo. Festa. Presença dos pais e autoridades (diretoria da escola, pároco, professores) A menina de 8 ou 9 anos, sobe ao palco e recita Augusto Gil "É talvez a ventania; Mas há pouco, há poucochinho, Nem uma agulha bulia Na quieta melancolia Dos pinheiros do caminho... Quem bate assim levemente, Com tão estranha leveza Que mal se ouve, mal se sente?... Não é chuva, nem é gente, Nem é vento, com certeza. Fui ver a neve caia, Do azul cinzento do céu, Branca e leve, branca e fria... -Há quanto tempo a não via! E que saudade, Deus meu! Olho-a através da vidraça Pôs tudo da cor do linho. Passa gente e, quando passa, Os passos imprime e traça Na brancura do caminho... Fico olhando esses sinais Da pobre gente que avança, E noto, por entre os mais, Os traços miniaturais Duns pezitos de criança... E descalcinhos, doridos"... Chorando copiosamente, a menina não consegue terminar o poema. O pároco acode, sobe ao palco, dizendo-se emocionado com a emoção da menina que continua a chorar... Vingada, a memória apagou de vez o poema. Nem título, nem autor, nem um só verso puderam ser lembrados nos posteriores 40 e poucos anos. Agora, como se um disquete fosse inserido na memória, o poema ressurge, verso, após verso, mas... (e aqui entra o fator que só ao humano pertence) só até o exato trecho que provocou aquela emoção menina diante do infortúnio infantil. Busco no livro a parte final que a memória novamente recusa "E descalcinhos, doridos... A neve deixa inda vê-los, Primeiro bem definidos , -Depois em sulcos compridos, Porque não podia ergue-los Que quem já é pecador Sofra tormentos... enfim!... Mas as crianças, Senhor, Porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!... E uma infinita tristeza, Uma funda turbação Entra em mim, fica em mim presa, ai neve na natureza... E cai no meu coração." Apagaram-se alguns versos na memória, mas a menina ficou irremediavelmente fatalizada para a poesia. In "A Vida Crônica" SOTAQUE TROPICAL EM LISBOA É setembro e a cidade, Lisboa. Acompanha-me um moiro na Calçada de Santo Antão, vamos à busca de frutos do mar e olhamos absortos as lagostas nadando nos tanques à porta dos Restaurantes. O vinho é Dão, mas o fado não é o mesmo. O motorista do taxi disse que não há mais fados para portugueses, exceto os fados vadios que acontecem nas festas populares. O fado agora é só para turistas e é cantado a preço de ouro. Eu, o que sou? uma portuguesa que escreve no Brasil, ou uma escritora brasileira que nasceu em Portugal? Não sei mais de mim, nem deste fado. Sei da pena escorrendo palavras e sangue em sotaque tropical e desta canção estranha que fala de amor e de criança. O pensamento vaga pelas vielas estreitas da velhíssima cidade e já não está só, acompanha-o a história e seus personagens. Cavaleiros e discretas damas. Todos os poetas cantam e fazem roda, exceto Pessoa, que paira calado num café da Baixa. Está só, como sempre esteve, e sem óculos, eles já não lhe fazem falta - pode ler sem enxergar - já viu e disse tudo. As suas escrituras estão agora despidas dos signos convencionais. Os espanhóis continuam a invadir Portugal, restou-lhes o vezo. O grupo de brasileiros ao lado é excessivamente barulhento e é tão falso este fado! A única verdade está aqui, cristalina, na garrafa de uma Dão, safra 1984. É sempre amargo o último gole e o vinho já sabe a saudade. Melhor era nunca partir. (crônica inédita)
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