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ENTREVISTA A PAULO DA COSTA
Paulo da Costa é autor do livro "The Scent of a Lie"- publicado by Ekstasis Editions, Victoria (Setembro 2002) - ISBN: 1-894800-07-9Depois de conceder esta entrevista, foi galardoado com o prestigioso "Commonwealth Writers Prize 2003 (Best first book)-Caribbean & Canada Region" Satúrnia
- Em primeiro lugar gostaria que nos falasse um pouco de si, pois está um
pouco arredio daquilo a que se chama a Comunidade Luso-Canadiana. Quem é, como
veio parar ao Canadá, o que o faz escrever?
Paulo
da Costa - Nasci em Luanda, Angola e aos cinco anos de
idade os meus pais regressaram a Portugal. Vivi a minha meninice e adolescência
em Vale de Cambra, na Beira Litoral. Naquela época, um vale verdejante e
bucólico, terra de bom queijo e vinho verde. As minhas razoes
fundamentais para deixar Portugal não foram de caracter económico. Considero-me
em muitas aspectos um refugiado cultural. Desde cedo que não me sentia bem em
Portugal. A sociedade ultraconservadora daquele tempo, os valores calcificados
e, a maior parte das vezes, extremamente retrogradas, asfixiavam-me e daí que as primeiras oportunidades de evasão que
se me ofereceram, ou que eu próprio criei, foram imediatamente usadas para me
distanciar da minha realidade regional; e, mais tarde, também da própria realidade
portuguesa em geral. Deste modo, aos catorze anos, comecei a viajar à boleia
por Portugal, em busca de novas experiências,
novos ares e formas de respirar. Em breve essas incursões iriam trespassar
as fronteiras do país e percorrer a Europa. Recordo que naquele tempo e,
durante a primeira vez que desejei visitar um país estrangeiro com o intuito de explorar e conhecer outros costumes,
outras formas de viver e ver o mundo, tinha dezassete anos e nessa altura não
era possivel sair do país a não ser que se obtivesse um documento oficial que
autorizasse um menor a ausentar-se do país e a viajar só.
A missão de convencer os meus pais a assinar o documento foi difícil, mas
eventualmente bem sucedida e, a partir daí, as viagens multiplicaram-se e
abrangeram territórios mais longínquos e culturas distintas. Encontro-me sediado em
Alberta desde 1989 e presentemente vivo em Calgary, no sopé das montanhas
rochosas, numa cooperativa de habitação que
posso definir como sendo uma pequena colmeia de diversos interesses humanos,
sensibilidades e poder de criatividade; cooperativa essa que também inclui escritores, cineastas,
pintores, músicos, dramaturgos entre os seus residentes. Os meus interesses
estendem-se para além da literatura e abrangem o teatro, o activismo social, a ioga,
o cooperativismo, a agricultura biológica, a dança, o budismo, a música, o ambientalismo e o canto. Todas estas áreas têm sido,
de uma forma ou outra, alvo do meu interesse e envolvimento nos últimos anos. Sinto-me em casa no
Canadá, quer num sentido prático, quer emocional e espiritual. É uma sociedade
mais aberta, multicultural e daí que ofereça um grande dinamismo
socio-cultural. Penso que vivemos num país onde o resto do mundo coloca grandes
esperanças em relação às futuras possibilidades da coexistência humana. Vivemos
num grande laboratório de experimentação social. Aqui estamos, oriundos de
heranças culturais díspares, a aprender a viver juntos, a compartilhar um
território geo-político, mas praticando doutrinas religiosas, valores
espirituais muito diversos, enquanto que o resto do mundo observa atentamente,
questionando a possibilidade de não só coexistirmos em harmonia com outras
culturas mas também o facto de coexistirmos com o meio-ambiente e com as outras
espécies animais, que têm, tal como nós, o direito de usufruírem a sua existência. O mundo observa o
Canadá para discernir se podemos evoluir e criar uma sociedade que materialize
e traduza em realidade as potencialidades sócio-económicas e culturais do ser
humano. Espero que comprovemos que tal é possivel e que inspiremos outros
países a enveredar por caminhos semelhantes, caminhos de coexistência e
tolerância para com o próximo. Muito embora ainda
exista muito trabalho a ser realizado em termos de encontrarmos plataformas e
processos que nos sensibilizem para as questões e necessidades de tolerância
racial, sexual, religiosa, assim como aspectos de integração e acessibilidade
socio-económica de classes e etnias marginalizadas, inclusive sobre a questão
dos povos autóctones deste país e do seu sofrimento, discriminação e
invisibilidade, infelizmente ainda presentes nos dias de hoje. Apesar disso,
penso que nos encontramos mais evoluídos que a maioria de outros países e que
existe uma grande oportunidade para demonstrarmos que sim, que é possivel
coexistirmos com as nossas diferenças, e que nos comprometemos a reduzir as
desigualdades, a promover a tolerância e a sensibilidade para com o próximo. Em termos da minha
carreira como escritor o Canadá tem-me oferecido apoios e oportunidade
extraordinárias. O apoio às artes, no Canadá, muito embora se encontre,
presentemente, sob grande pressão política e sofrendo uma
rápida erosão no contexto das novas economias de cifrão e só cifrão, continua
não obstante a oferecer incentivos e apoios que seriam inconcebíveis em
Portugal, assim como inconcebíveis possivelmente na maioria dos outros países
do mundo. No que diz respeito à
minha actividade literária no Canadá tenho recebido apoios e incentivos
significativos. Apoios e incentivos esses
que seriam difíceis de conceber em Portugal, uma vez que aí o papel das artes ainda é fundamentalmente
cortesia de mecenas ou por outro lado encontra-se sob a asa e à mercê de círculos restritos de poder e
dificilmente penetráveis por serem uma extensão de estruturas socio-económicos
onde abundam os vícios e os privilégios. Daí que muitas vezes se apoie não a
arte mas a pessoa e o nome, o que por vezes resulta em apoiar a mediocridade e
não a qualidade da arte produzida. O Canadá cultiva uma política de apoio às
artes e compreende que é necessário apoiar a carreira de um artista quando no
seu início. Quando se é um mero
rebento a nossa fragilidade é maior perante o mundo. O espaço, o mundo
natural e prístino do oeste canadiano é um ingrediente fundamental do meu
bem-estar e uma das razões da minha permanência neste pais. A minha experiência
pessoal é de que no oeste Canadiano as pessoas são amáveis, abertas e de uma
rara generosidade. A consciência cívica é notável e existem talvez poucas
sociedades onde este valor seja cultivado tão conscientemente. Os espaços
comuns pertencem a todos e de uma maneira geral quase todos se responsabilizam
pela sua manutenção e preservação, na sua conduta cívica diária, ao contrário
de outras sociedades onde os espaços públicos não pertencem a ninguém e são
constantemente vitimas de actos de vandalismo e menosprezo. Isto não significa
que tal não aconteça aqui, mas significa que são episódios mais raros e que
ainda existe uma consciência que contraria essa tendência de desleixo e apatia
para com os nossos deveres cívicos e responsabilidade de criar bem-estar
social, ingrediente essencial para uma sociedade que preza a sua qualidade de
vida. No que diz respeito ao
que especificamente me trouxe ao Canadá, bem...Foi uma pequena, não obstante
comum, condição cardiovascular que afecta com particular intensidade os
adolescentes e que dá pelo nome de paixão amorosa. Tudo começou em 1985
enquanto ainda estudante na universidade de Coimbra. Por ocasião de umas férias
na Turquia, conheci uma Canadiana, e após uma posterior visita sua a Portugal,
apaixonamo-nos. Vivemos uns tempos em Portugal, seguindo-se uma breve estadia
no Canadá, assim como dois anos a viajarmos de mochila às costas pela Ásia,
Austrália e Oceânia, trabalhando pelo caminho, até que me decidi a lançar
raízes no Canadá, onde cheguei num frio Dezembro e pela primeira vez na vida me
deparei com temperaturas negativas e neve. Para consternação da minha família
deixei tudo e todos e vim viver para este frigorifico enorme. Mas imediatamente
adorei a neve e as actividades de recreio típicas do inverno. Desde o esqui
de fundo e patinagem no gelo até às raquetes de neve. Satúrnia - Sabemos que tem colaboração literária espalhada por jornais e revistas
em todo o mundo. Também já alcançou vários prémios literários em língua
inglesa, entre os quais o prestigioso prémioCannongate 2001 para o conto (Festival Internacional do Livro de
Edimburgo – Escócia). É também o director da revista Filling Station publicada
em Calgary. Paulo - Comecei a escrever em inglês em 93 como necessidade de me encontrar a
mim próprio, de compreender as subtilezas do mundo interior, frequentemente
desprezadas e atropeladas pela azáfama e aceleração da vida actual. A escrita surgiu como necessidade de redefinir a
minha relação com o mundo exterior e pragmático enquanto descoberta de sentido
no meu percurso pessoal, na minha contribuição particular nesta passagem pelo
mundo. A escrita partiu de um processo interior, de cariz privado e, com os
anos, evoluiu e eventualmente transbordou para o espaço publico e para o mundo.
Em Portugal, e na minha adolescência, tinha rabiscado umas coisas aqui e ali,
mas nos quinze anos que se seguiram desleixei este aspecto criativo e foi
necessário um grande abalo emocional para me acordar e reencontrar comigo mesmo
e com uma das minhas paixões de vida: a palavra escrita. Comecei a escrever em
inglês por mera coincidência contextual geográfica. A minha língua de vivência
diária era e é o inglês e daí que naturalmente a minha veia criativa assim se
expresse. Para mim não fazia sentido escrever em português já que as minhas
reacções á vida, ao quotidiano, eram sentidas em inglês e daí o fluir natural
da escrita para a língua de vivência diária. O facto de a minha família se
encontrar em Portugal e de eu também não ter contacto com a comunidade
portuguesa de Alberta colocou a língua portuguesa numa situação secundária em
termos da forma como digiro as minhas
experiências, imagino os meus mundos literários, expresso as minhas visões do
mundo. Gostaria de salientar que o meu desfasamento com a comunidade portuguesa
não se deve a uma negação das minhas origens lusas, uma vez que sempre me
orgulhei de ser português; este facto deve-se
simplesmente ao meu contexto individual e aos meus interesses pessoais que, em
geral, parecem encontrar-se um pouco desfasados das preocupações ou interesses
centrais dos portugueses. Talvez por isso não encontre Portugueses através das
actividades a que me dedico ou que me interessam. Seria inconcebível para mim inglesar o meu nome, por exemplo. Nos
meus círculos pessoais, as pessoas sabem que sou português. O lançamento do meu
livro em Victoria, BC, terá Sara Marreiros, uma luso-portuguesa que canta o
fado com uma certa influência jazzística;
em Calgary, o lançamento do livro teve petiscos portugueses após a leitura, e o
público adorou; só sobraram tremoços! Recentemente regressei á língua
portuguesa e recomecei a escrever em português, circunstância essa que atribuo
ao facto de passar mais tempo em Portugal e de estar em contacto mais assíduo
com a língua. Em suma, não escrevo em inglês como estratégia comercial para
abranger mais mercados literários. Presentemente escrevo em ambas as línguas,
muito embora a prevalência ainda seja do inglês, uma vez que é a língua que
continua a ocupar mais espaço na minha vivência diária. Em 2004 uma editora
portuguesa irá publicar um livro meu de poesia em português. Satúrnia - Fale-nos agora do livro The Scent of a Lie. Sabemos que é um conjunto de
"short stories". Qual é o tema fundamental da obra?
Paulo - O livro The Scent of a Lie é um conjunto de catorze contos entrelaçados
e que poderá ser lido como um romance em fragmentos, já que as personagens
deambulam de conto para conto. As personagens principais, na minha opinião,
acabam por ser as duas aldeias retratadas no livro; livro que acaba por ser um
romance de lugar, onde a geografia e a entidade social e física que é uma
comunidade, acabam por demonstrar alma própria e as aldeias emergem como protagonistas principais. O livro tem tons de
realismo mágico e algumas das personagens têm visões e existências peculiares.
A Camila Penca após ter caído a um poço descobre que tem o dom de detectar
mentiras pelo cheiro das palavras proferidas pelos aldeãos. Este facto
desequilibra de imediato a dinâmica das relações sociais e pessoais da aldeia
na sua existência diária; aldeia essa que procurará a todo o custo uma solução
que preserve o status quo prévio. Temos também o Florindo Ramos, que mais
facilmente se identifica com o mundo natural do que com a sua própria espécie e todas as suas
tendências de cegueira de autodestruição. Em consequência desta atitude, o Florindo opta então por se casar com
uma árvore, facto que terá consequências imprevistas para a aldeia. Temos
também o Francisco, pastor, que durante as suas incursões pela serra descobre
pedras que dão à luz outras pedras. Tal achado convence-o que encontrou o local
onde o mundo nasceu. Essa descoberta terá consequências imprevisíveis para a
aldeia. Existem muitas mais personagens com as suas idiossincrasias e
existências peculiares, mas posso enumerar e considerar estes que referi como
sendo uma amostra do tipo de
personagens contidas no Scent of a Lie. O livro tem uma
variedade imensa de temas. O tema central, todavia, talvez seja as questões e
as experiências de comunidade. O que é uma comunidade? Como surge? É cultivada
ou espontânea, consciente ou inconsciente? Dinâmica ou fechada? Como respondem
os seus intervenientes a acontecimentos que introduzem a mudança, a algo que
rompe com padrões confortáveis e estabelecidos? O livro tem preocupações que
advém da criação, preservação e destruição do conceito de comunidade. O que
temos em comum, o que nos diferencia e, não obstante as diferenças existentes,
onde procuramos e como procuramos esses pontos de encontro que permitem a
possibilidade de coexistir. Viver e deixar viver. O livro debruça-se sobre a
trajectória, extensão e flexibilidade desses espaços entre os extremos, assim
como o alargar dessas mesmas fronteiras e desses mesmos extremos . O livro aborda a primeira comunidade que é a família,
começando por abordar a problemática da coexistência no seio familiar , as
questões do respeito ou desrespeito pelas diferenças, a dinâmica dos
poderes no seu interior, a tolerância e toda a variedade de sentimentos e
manifestações afins, passando depois pela coexistência dentro da comunidade de
amigos ou vizinhos, até a círculos cada vez mais amplos. No dia a dia existem
diversas comunidades pelas quais passamos ou pertencemos; elas sobrepõem-se.
Muito embora o livro se debruce sobre preocupações especificas de duas aldeias
portugueses abandonadas num tempo passado, essas preocupações continuam, na
minha perspectiva, a ser perenes a todas as comunidades e, deste modo, os
contos adquirem caracter universal. Satúrnia - Como sabe, a Comunidade Portuguesa do Canadá irá em 2003 comemorar os 50 anos da sua chegada oficial ao Canadá? Gostaria de dizer algum coisa a propósito deste acontecimento? Paulo - Gostaria de ver a comunidade Portuguesa mais envolvida nas lides e
actividades do mundo cívico, político e artístico canadiano. Uma comunidade
mais participativa na criação e na definição do que é ser Canadiano e que tipo
de sociedade queremos construir para o futuro. Democracia pressupõe
participação no processo democrático e nas suas instituições. A democracia não
é um espectáculo de audiências passivas como o futebol ou o teatro ou o cinema.
Penso que chegou a hora de darmos um pouco mais a este país do que as horas de
trabalho a que estamos cingidos, para o bem das nossas famílias, dos nossos
negócios e das nossas instituições e associações comunitárias portuguesas.
Talvez seja este o momento em que acreditamos que temos algo a oferecer à
sociedade canadiana em geral e participemos de forma mais alargada na vida
cívica e cultural, porque no aspecto económico temo-lo feito muito bem. Chegou
a hora de intensificarmos os nossos deveres cívicos e a responsabilidade de
criar bem-estar social, ingrediente essencial para uma sociedade que preza a
sua qualidade de vida, quer para o presente, quer para cultivar e preservar no
futuro. As novas mitologias
estão a ser criadas, a expressão da particularidade da herança sociocultural
que trazemos no sangue ao escolher este país continua presente. Encontramo-nos
aqui porque acreditamos que poderíamos melhorar a nossa condição de vida e, no
meu caso, de que poderíamos contribuir para uma visão de sociedade mais aberta
e igualitária. Agora, após 50 anos, parece que a comunidade Portuguesa
encontrou estabilidade económica. Creio, portanto, ter chegado o momento de
sair da retracção e apatia em que se tem refugiado. O Canadá espera-nos. Talvez
agora possamos finalmente afirmar que, de facto, desembarcamos...
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