Sabemos que há estórias & histórias. Dicionaria-mente
falando, diremos que aquelas são narrativas de ficção, factos sem o serem,
puramente imaginados, romanceados; estas, são factuais, directamente
observáveis ou baseadas em documentos e testemunhos, traduzindo-se ambas em
contos, crónicas, novelas, fábulas, enfim... narrativas.
O que será mais real: nós ou as nossas imagens?, a Vida ou a
Literatura?, as nossas histórias ou as nossas estórias?
Oscar Wilde escreveu duas frases que, na minha
idiossincrasia, traduzem bem a necessidade e a importância espiritual de uma
“outra vida” (ou dimensão desta) talvez mais autêntica e real que aquela a que
estamos habituados e à qual estamos presos julgando – por vezes – ser a única:
«a
literatura antecede sempre a vida»; «o máximo na literatura é a realização
daquilo que não existe». Podemos ser e ter tudo em Literatura,
sobretudo aquilo que julgávamos não existir. “O que (ainda) não existe” – para
aqueles que perderam a capacidade de sonhar, de imaginar - é a outra dimensão da Vida. Quando narramos
aos outros e a nós mesmos, os nossos desejos, utopias, sonhos, impossibilidades
e vontades radicais, estamos a criar, como deuses – no Olimpo da Literatura -
aquilo que “não existia”. Também Fernando Pessoa(s) assumia, em termos de
Vida-vivida, com mais autenticidade e sentido(s), pelo fingimento e com as máscaras (uma outra forma de imaginar e
criar mundos), o primado da Vida-Literatura: «a literatura como toda a arte, é uma
confissão de que a vida não basta».
Escrever,
seja o que for, com coerência, paixão, sentido(s) e capacidade de inovação, é
cada vez mais difícil. Vivemos rodeados de verborreias televisivas e outras de
toda a espécie (sobretudo no plano da Educação e Ensino) – arriscamo-nos ao
esgotamento e à “de(s)ignificação” dos rituais, do encanto, dos mistérios e da
magia do Ver-a-Ler, das palavras-luz através das quais se vê o mundo –
escre(ver) é ver, ver é contar... Recriar o mundo pela narrativa, é talvez uma
das tábuas de salvação do Homem.
Por isto e
por algo mais que sinto mas que não consigo dizer (dar-a-ver) porque há
palavras que estão cansadas e doentes, agradeço a todos os escritores do mundo,
oftalmologistas de palavras, a re-criação/re-visão deste mundo e a
criação/visão de outros mundos.
Ângelo Rodrigues
angelorodrigues@mail.telepac.pt