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ENTREVISTA A AIDA BAPTISTA
Satúrnia
- Em primeiro lugar gostaria que nos
falasse um pouco de si. Quem é, o que a
faz escrever? Sou portuguesa porque a minha cédula
de nascimento assim o atesta. Com um ano de idade, fui para Angola e foi na
cidade de Benguela que decorreram os anos mais importantes da minha vida: a
infância, a adolescência e a entrada na maturidade, o que permite, desde logo,
concluir que toda a minha definição identitária está ligada a um espaço
diferente daquele onde nasci. Regressei a Portugal, em 1975, já com dois filhos (de 6 e 7 anos de idade). Em termos profissionais, continuei na carreira docente, iniciada em Benguela na Escola do Magistério Primário Luís Gomes Sambo e na Escola Preparatória Cerveira Pereira. À data do meu regresso, era nesta última que me encontrava colocada. É já em Portugal, e sempre na qualidade de trabalhadora estudante, que completo as habilitações académicas que actualmente possuo. Primeiro, na Universidade de Coimbra (a licenciatura e um curso de pós-graduação); mais tarde, o mestrado na Universidade Nova de Lisboa. Depois de percorrer vários níveis de
ensino, foi como professora efectiva do 1º grupo da Escola EB 2,3/ S do Sardoal
a cujo quadro pertenço, que me candidatei pela primeira vez, em 1989, ao cargo
de Leitora de Português no Estrangeiro. Fui colocada na Universidade de
Helsínquia, na Finlândia, onde permaneci 8 anos. Em 1998, concorri a uma
segunda missão e quis o destino que tivesse sido colocada na Universidade de
Toronto, onde permaneci até 2003. Este ano, tentei nova candidatura. De entre os que se apresentaram, fui seleccionada para dirigir o Centro de Língua e Cultura Portuguesa de Benguela e ser formadora de professores no IMNEB (Instituto Médio Normal de Educação de Benguela). Digamos que, desta forma, se fecha um ciclo da minha carreira docente, dado que voltarei a exercer funções na mesma cidade onde tudo começou. É também um retorno às raízes, de que tantas vezes falei nas minhas crónicas. Recordo agora aquela a que dei o título “Narrativa Fechada” (pág. 201) e da qual transcrevo a última frase “aperto o novelo e aconchego-o entre as duas mãos, na determinação
serena de dar o primeiro ponto da urdidura com que vou iniciar um novo capítulo
desta complexa trama que é a minha vida”. Não imaginava, quando a escrevi, que a mesma pudesse apontar rumos
que indiciassem o retorno à minha esteira da infância. O que me fez escrever foi resultado
de um desafio que me foi proposto, em 1999, no sentido de prestar colaboração
periódica num jornal comunitário “O Milénio”, que acabava de ser criado e que
foi o único a endereçar-me tal convite. Devo confessar que hesitei bastante
antes de aceitar, porque não sabia até que ponto aquele tipo de exposição
pública me poderia trazer consequências adversas ou criar animosidades por
parte de um ou outro órgão da imprensa já existente. Felizmente, tal não
aconteceu e, quando acabou a minha missão, posso com a maior certeza afirmar
que fiquei a merecer o respeito de todos, porque com todos soube estabelecer
relações da mais correcta cordialidade. Foi, portanto, a minha primeira e única
incursão na área do jornalismo, dado que tudo quanto tinha escrito até essa
altura, se prendia apenas com trabalhos de investigação de natureza académica,
que tinham como resultado a sistematização de um determinado tipo de pesquisa
feita. Como cronista, fui muito mais intimista e autêntica, acabando por revelar
muito de mim e do que sou. Mas o mais curioso é que todo esse processo foi
também um percurso de descoberta, porque eu própria desconhecia poder existir
dentro de mim essa faceta. Aquilo que,
a medo, começou por ser a resposta a um desafio, transformou-se num hábito e
hoje, como tantas vezes digo, sou já uma “crónicodependente”. No entanto, não posso deixar de dizer
que foi a experiência vivida numa comunidade portuguesa e lusodescendente tão
grande como a de Toronto, o contacto com os estudantes, a vivência do processo
e/imigratório por dentro, que me forneceram toda a matéria-prima para os meus
textos. Se eu nunca me tivesse sentido uma de vós - sujeita às mesmas rupturas
emocionais - talvez eu não tivesse conseguido captar a riqueza do universo que
estava mesmo ali à mão de ser trabalhado. Fui tudo uma questão de estar atenta
e conseguir mergulhar até ao que de mais profundo existia por baixo da
superfície que cada um de nós deixava antever. Satúrnia
- Foi durante alguns anos leitora de
Língua Portuguesa na Universidade de
Toronto.O que retém dessa experiência? É quase impossível verbalizar ou
sintetizar em algumas centenas de caracteres quão marcante foi a experiência
vivida como leitora numa comunidade tão multicultural como a de Toronto. O confronto
é tanto maior quanto a minha anterior experiência - apesar de muito rica também
- ter sido vivida numa sociedade culturalmente muito avançada mas, em termos
étnicos, ainda muito pouco aberta ao exterior. Assim, o que mais me fascinou
foi a diversidade étnico-cultural aliada a um profundo respeito pelas culturas
de origem, que permitem que cada um
possa, livremente, apresentar as marcas de quem é e de onde vem. Fiquei também
a perceber o que é viver dentro das comunidades da diáspora (seja qual for a
sua origem), com as suas necessidades de afirmação de sobrevivência de uma
identidade própria, sem necessidade de entrar em choque com processos de
assimilação impostos, como acontece em muitos outros pontos do globo. Neste
campo, foi um processo de aprendizagem permanente, no convívio diário com os
meus alunos. Satúrnia
- Fale-nos agora do livro Passaporte Inconformado. Sabemos que é um
conjunto de "crónicas” publicadas, na maioria, em várias publicações da
Comunidade Luso-Canadiana. Qual é o tema fundamental da obra?
Ao longo do período em que colaborei na
imprensa comunitária, fui reunindo diferentes tipos de crónicas, conforme a
diversidade de assuntos que acabei por tratar. Pelo meio, surgiram vozes de
vários lados a incentivarem-me a publicar. A primeira, manda a verdade que o
diga, foi a do escritor Eduardo Bettencourt Pinto. Outras se seguiram e a ideia
foi, de facto, ganhando forma. Como vivi e participei com grande entusiasmo nas
comemorações do cinquentenário da chegada oficial dos portugueses ao Canadá,
decidi-me pelo número simbólico de 50, por considerar ser a melhor forma de
homenagear todos quantos tiveram a coragem de serem pioneiros na abertura dos
caminhos que hoje trilhamos. Não posso, com rigor, afirmar que a obra
obedece a um tema fundamental. Talvez seja mais correcto dizer que existe um
fio condutor que, ao percorrer transversalmente quase todas as crónicas, tece
textos que, embora autónomos, se encontram ligados por um certo inconformismo
que caracteriza a nossa passagem pela vida: uma viagem composta de lugares e
afectos, presentes ou passados, mais recentes ou mais longínquos, conforme o
ponto de fuga em que cada um de nós perspectiva a sua própria existência, a partir do momento em que decide enveredar
pelos caminhos da emigração e fazer das suas vidas uma estação de partidas e
chegadas. Satúrnia
– Já tem datas previstas para o
lançamento do livro no Canadá? Ainda
não, porque a minha futura situação profissional me obriga a partir, em breve, para Benguela. No
entanto, estão já a ser estudadas pelos patrocinadores algumas hipóteses. Logo
que tenha informações mais precisas, dá-las-ei com o maior prazer, considerando
também a possibilidade de me deslocar a Montreal. Satúrnia
– A Comunidade Portuguesa do Canadá comemorou em
2003 os 50 anos da sua chegada oficial ao Canadá? Gostaria de dizer algum coisa
a propósito deste acontecimento e do
seu reflexo no futuro da Comunidade? As comemorações são sempre importantes enquanto
forma de assinalar efemérides e de nos fazer pensar sobre elas. Neste caso
concreto, foi importante reconhecermos que somos todos agentes vivos de uma
História recente e ainda em construção. No entanto, aquilo que maior reflexo
terá no futuro da Comunidade não serão seguramente as comemorações enquanto eventos
pontuais devidamente programados, em maior ou menor quantidade, conforme os
lugares onde existiam comunidades com forte representatividade. Na minha
modesta opinião, o grande impacto no futuro só poderá advir de uma certa tomada
de consciência da importância que esta comunidade terá a curto prazo, se
aprender a participar e a exercer mais activamente os seus direitos de
cidadania, de forma a ter uma visibilidade proporcional à sua composição
numérica. Para atingirmos este patamar teremos seguramente de apostar na
educação e numa nova geração munida de instrumentos, que lhes permita sair dos
guetos que a primeira, por razões de sobrevivência, se viu compelida a criar. O
futuro, com todos os contornos que a presente globalização lhe conferiu, impõe um outro tipo de exigências a que só a nova
geração poderá responder. Outra página sobre a autora: Aida Baptista
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