AIDA BAPTISTA


O novo teorema de Pitágoras


 

 

 

         Meu querido amigo Paiva de Carvalho


         Conheci-te nos sinuosos corredores da emigração, num daqueles momentos em que a leitura enviesada da geografia nos faz semanalmente tropeçar nos eventos com que nos iludimos para, no nosso imaginário reinventado, vivermos espaços e tempos noutras vidas percorridos.

         Soube que eras pintor, que já tinhas feito inúmeras exposições, ganho alguns prémios, mas não tinha tido ainda oportunidade de ver alguma mostra da tua obra, por não me encontrar em Toronto quando realizaste a primeira exposição, na Galeria Almada Negreiros, Consulado Geral de Portugal. Pouco a pouco, e a propósito das mais variadas situações, fomo-nos encontrando outras vezes. Fiquei, então, a saber que também tu, tal como eu, te sentias prisioneiro de um mesmo triângulo que, por força de traçados idênticos, desenhou a geometria das nossas vidas: Portugal, Angola e Canadá. Não precisámos de dizer mais nada. A partir daí, passámos a usar uma linguagem comum, só descodificada por quem já se apeou nas estações da mesma via dolorosa. Sentados na terra e na posição que ainda trouxemos de África, olhamos para cada lado do triângulo sem nunca lhe definirmos o contorno definitivo. Tanto pode ser equilátero, isósceles ou escaleno, segundo a dimensão dos ângulos, que varia de acordo com bissectriz com que traçamos memórias que são avessas a linhas direitas. Aumentamos ou diminuímos a abertura dos ângulos ao sabor da rotação do compasso que recusa movimentar-se a partir dum ponto já definido. Nuns dias, parecem-nos rectos para, noutros, rapidamente,  passarem a agudos ou obtusos, conforme a amplitude de afectividade com que alinhamos a esquadria de cada dia que passa. Nesta geometria, construída toda ela com as linhas da amizade, inventámos um teorema novo: o quadrado da hipotenusa será sempre igual à soma do quadrado dos afectos.

Recordada a geometria - a disciplina com que damos forma ao volume dos anos passados – recorremos, depois, à contabilidade, na ilusão de que pelo menos estamos habilitados a fazer balanços periódicos das colunas do DEVE e HAVER, onde inscrevemos as parcelas dos débitos e créditos, que nos foram fornecendo os recibos dos dias gastos na contemplação do passado. Depressa nos revelamos, também aqui, ignorantes, porque na bolsa de valores em que inscrevemos a vida, não estava incluída a cotação dos afectos.

Analfabetos de emoções, sabemos apenas que as vamos somando, subtraindo, multiplicando ou dividindo, ao ritmo de uma tabuada que aprendemos a manusear na linha do ábaco, à medida que convivemos com a aritmética da saudade. Nesta contabilidade, que não segue uma regra na ordem de entrada, nem na da saída, continuamos a baralhar os resultados dos saldos. Conforta-nos a certeza de o gráfico apresentar uma curva ascendente, ponteada pelas coordenadas do tempo superavitário em experiências vividas.

Criaram-nos, também, alguns problemas ao nível gramatical. Temos dificuldade em lidar com a alternância vocálica do “e” e do “i” da palavra migrante, porque a fonética, propositadamente, lhe dá a mesma pronúncia para nos condenar a sermos o mesmo em todo o lado.

 Mas tu sabes que não, porque a alma andarilha com que aos 18 anos partiste para Angola, fez-te emigrante com “e” . Vestiu-te  das cores do chão de África e tisnou-te a pele com o calor das queimadas, depositando-te na  cabeça o branco da cinza da idade. Não te chamavam emigrante, porque encalhaste num dos cais das rotas do Império que se estendia do Minho a Timor. Ao fim de 37 anos de ausências e de português de segunda, retornaste ao espaço-berço onde nasceste, sem reconheceres os cheiros dos regaços que te tinham criado. Vinham-te à memória outros colos, aqueles que te amamentaram com a negritude que, nas esteiras do viver comum, em ti foste incorporando. Durante nove anos, calaste a saudade que escondia o cheiro da terra molhada e do capim orvalhado pelo cacimbo das lágrimas vertidas naquele adeus a uma terra que trouxeste presa à tua alma. De cada vez que a querias soltar, sentias que não cabia nos limites demasiado provincianos do Portugal que encontraste.  Para um homem que aprendera a sonhar para além da linha do horizonte, sentiste a claustrofobia dos espaços pequenos: em tamanho e mentalidade. Por isso, voltaste a emigrar, em busca de uma terra grande onde pudesses desenrolar o pergaminho de memórias do tamanho do continente, em forma de coração, que guardavas dentro de ti.

Escolheste o Canadá, onde o silêncio das neves de Inverno do Ontário te forneceram a tela branca onde passaste a desenhar as dores da ausência e a misturar na paleta da raiva as cores com que traçaste o arco-íris da ponte por onde, em segredo, viajavas até ao outro lado do Atlântico.

Agora imigrante, com “i”, no basement da tua casa em Oakville - sentado ao estirador montado sobre as pernas da velha Singer - estendias o olhar pelo jardim, na esperança de que o arco-íris pousasse para te transportar, na curva do tempo, até à tua terra. E tu viajavas, viajavas tanto quanto pode a imaginação libertadora. Só a Ana, tua companheira inseparável das esperas adiadas, compreendia a tua ausência. Sabia sempre quando regressavas. Bastava olhar para o cavalete e ver nele desenhado o bilhete do teu retorno, impregnado da orfandade com que buscavas a “mater dolorosa” perdida no turbilhão de uma guerra.

Ao fim de meses de viagens sofridas, quando deste conta, Ana, tinhas a casa cheia de gente da tua terra:

· gente do musseque, que tu sabias ser bairro de gente pobre “que sofre, sem presente e sem esperança no futuro”

· regressados dos esconderijos das matas, cansados de matar irmãos do mesmo sangue

· meninos que tinham sonhado a liberdade, consumida na chama de uma fogueira alimentada de interesses

· a kinda cheia de nada, porque o nada continua a ser a forma do  futuro vazio de esperança

· as viúvas negras, por dentro e por fora, quando o negro é a cor do luto com que se choram os meninos de todas as mães

· a sociedade nova, onde de cada vez que se grita a palavra irmão, responde a rima da corrupção

· a angústia do menino doente a que mãe nenhuma pode valer

· a prostituta que vendeu a juventude a preço de saldo por entre leilões de juras que ficaram por cumprir

· a geração a quem tudo foi prometido e tudo continua a ser negado

· as migalhas da ajuda internacional que, apesar de pequenas, se perdem pelos gabinetes do poder

· o cabaret da alienação onde, diariamente, se compra a luxúria e o prazer fácil

E quando, finalmente, Ana, te entram pela porta os novos Cavaleiros do Apocalipse, cansada de veres desfilar à tua frente tanta dor e sofrimento de um povo, que é também o teu, olhaste para o Luís e segredaste-lhe:

- Já não posso mais. Não aguento olhar para esta  Mater Dolorosa que espelha o calvário de um país inteiro.

Nessa altura, querido amigo, tiveste consciência de que deras vida a uma Pietá a carregar o peso da dor depositada na capulana cansada de amortalhar irmãos do mesmo sangue. Com o teu pincel, macerado pela tinta do sangue derramado, ordenaste o Exodus:

 “Povo parte com a esperança do esquecimento do nada”.

E o povo, treinado por anos de submissão ao jugo do mando, obedeceu e partiu.

Saído das telas de Paiva de Carvalho está aqui connosco para que todos nós, neste dia, possamos prestar a homenagem que é devida aos heróis anónimos e calados de um país a que continuamos a chamar irmão.

Amigo Paiva, eu não sei pintar. Troquei a suavidade do pincel pelo martelar seco das palavras alinhadas que não sabem fazer crítica de arte. Perdoa-me, por isso, o atrevimento de escrever sobre a tua faceta de pintor. Não o consegui, eu sei, nem era esse o meu intento. A minha intenção foi apenas fazer um percurso pelos teus mundos interiores, aqueles que geraram esta amostra de fruição estética, feita de retratos de alma saídos de ti, e a que podemos chamar paráfrases da poesia do angolano Rui Balsemão, também ele habitante dos mesmos triângulos


                  ...

“Cresce a seara e o capim

Volta a geada e o cacimbo

Cai mais neve e morre em mim

A saudade do meu kimbo

         E a minh’ alma só debanda

Co’a saudade  que resiste

Vai e voa até Luanda

Voa e volta e vem mais triste”

 

 Decorridos tantos anos, a mensagem hoje não é de tristeza, mas de esperança na paz conquistada. Que o país deixe de ser “mater dolorosa” para poder reunir no seu seio todos os filhos desavindos, que descobriram que só empunhando a bandeira da fraternidade se constrói um futuro onde haja lugar para todos.

Se assim for, o teu próximo quadro retratará  um “Exodus” de sentido inverso – o retorno à “mater saudosa” de abraçar todos quantos decidirem regressar.

 

 

* Luís Paiva de Carvalho, pintor luso-canadiano, inaugurou a sua exposição “Mater Dolorosa” na Galeria Municipal do Museu Regional de Sintra, a 24 de Abril do corrente ano. A convite do autor, estive presente na inauguração. Este texto presta homenagem ao belíssimo trabalho exposto e muito apreciado por todos quantos tiveram o privilégio de o visitar.


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