A primeira vez que eu vi uma praia de areia gelada
No passado fim-de-semana recebi a visita dos meus netos. Considerando a relativa proximidade a que nos encontramos da Covilhã, decidimos dar um salto à Serra da Estrela. Seria uma forma de proporcionarmos um passeio diferente às crianças e de termos a possibilidade – se bem que remota – de assistirmos à queda de neve, desde que ela não andasse arredia das mais optimistas previsões meteorológicas. À medida que íamos subindo, o mais velho ia tecendo lamúrias de quem se sentia condenado a ter feito uma viagem em vão. O mais novo, além de ter adormecido, não fazia ideia do que o esperava dado que seria o seu primeiro contacto com este novo elemento da natureza. Há sempre uma primeira vez para tudo!
Apesar do nevoeiro que ensombrava a subida, era possível vislumbrar os contornos da paisagem que apontavam o caminho da desilusão. Chegados à Torre, um retalho branco, junto às pistas, era tudo quanto restava do manto que semanas antes cobrira todo o cume da serra. Era para esse reduzido espaço que se dirigiam todos aqueles que tinham prometido a filhos e netos viverem uma tarde dentro de um postal de Natal. Saiu-lhes uma amostra, uma nesga rasgada à paisagem que derretera expectativas solidificadas de véspera. Mas foi o suficiente para consentir escorregadelas por entre risadas de adultos que deixavam vir ao de cima a criança que se esconde em cada um de nós. O Rodrigo, a princípio receoso, deixou-se envolver pela magia daquele branco frio que se esfarelava por entre os dedos das luvas, numa tentativa de imitar o irmão que fazia bolas de neve para nos atirar. A meio da brincadeira, e visivelmente incomodado, disse-me. «Vó, tira a areia fria das minhas botas».
«Areia, ele disse areia» - pensei para comigo ao mesmo tempo que reflecti, mais uma vez, sobre esta enorme capacidade que as crianças têm de pedir emprestadas nomenclaturas já conhecidas para as aplicarem em novas situações. Foi a palavra areia que serviu para definir as intrusas partículas de gelo que se tinham ido aninhar por entre os dedos dos seus pezinhos de criança. E a Serra da Estrela passou a ter, na toponímia do meu neto mais novo, uma praia de areia gelada assinalada na sua geografia em construção.
Por um qualquer acto reflexo de associação de ideias, rompi a copa do chapéu de nuvens poisado sobre as nossas cabeças, voei até Toronto e aterrei na primeira página do livro infantil bilingue de Manuela Marujo “ A primeira vez que eu vi neve/ The first time I saw snow”, lançado na passada semana na Galeria Almada Negreiros. Apresentei-me à Mariana da história e segredei-lhe coisas ao ouvido. Disse-lhe que conhecia a autora daquele livro e que ela tinha inventado aquele nome para se esconder, para falar da sua infância sem que ninguém soubesse que estava a falar de si própria. A Mariana ficou muito admirada e perguntou-me se eu sabia mais coisas sobre a sua criadora. Respondi-lhe que sim, que tínhamos partilhado muitas coisas juntas nos últimos cinco anos.
A partir daquele momento, a Mariana revelou-se cada vez mais curiosa e eu não tive outro remédio senão ficar ali o resto da tarde a falar da sua progenitora.
“A Manuela, a tua mãe, nasceu numa terra pequenina a que deram o nome de Santa Vitória. Fica perto de Beja, no Alentejo. Esta é a zona mais quente e mais seca de Portugal. Num Inverno muito rigoroso de 1953, aconteceu uma coisa muito estranha e muito rara – nevou no Alentejo. Ela tinha quatro anos e gravou para sempre na memória aquele enorme tapete branco que, numa manhã silenciosa, se estendeu mesmo ali à porta da sua casa. Ela ainda hoje não sabe, mas, naquele momento, escreveu-se o primeiro convite para que ela passasse a pisar outros caminhos brancos traçados nos mapas da emigração. E foi assim que, muitos anos mais tarde, ela decidiu ir viver para um país onde há neve em abundância, o Canadá.
O tempo foi passando mas ela nunca esqueceu o seu Alentejo. A forma de lhe pedir desculpas pelo abandono, foi entregar-se de alma e coração à Casa do Alentejo, a organização que na longínqua cidade de Toronto anualmente invocava as tradições da sua região. Fez parte da direcção, planeou actividades, idealizou programas, convidou pessoas, enfim, fez tudo o que todos fazem para se redimirem do pecado da ausência. E assim se iludia - levando o Alentejo para mais perto de si. Mesmo quando nevava ela era a única que, por trás de cada colina branca, continuava a ver assomar lenços de ceifeiras sobre as ondas das searas açoitadas pelo vento. Naquele mar confuso de memórias, intrometia-se sempre a menina que numa fria manhã de inverno pela primeira vez vira neve. E um dia pensou que não podia carregar sozinha, por muito mais tempo, aquela memória tão bonita. Como ela é professora de língua portuguesa no Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Toronto, e sabe da importância que qualquer história tem para o desenvolvimento de uma criança, decidiu escrever a sua história para a poder partilhar com as crianças do mundo inteiro. Foi assim, Mariana, que te inventou e se serviu de ti. Para que tu pudesses dar testemunho do que lhe aconteceu naquele dia.
- E porque é que eu falo duas línguas? – interroga-me a Mariana
- Como tu nasceste num país diferente e onde se fala uma outra língua, a tua mãe achou que seria muito importante que tu soubesses duas línguas: a dela e a do país que te viu crescer. Assim, e por seres bilingue, terás amigos de dois mundos linguísticos e poderás contar a tua história a crianças de todos os países onde se fala português e inglês. Já imaginaste quantas são e como ficarás conhecida? Já pensaste na felicidade de fazeres companhia a tantos meninos...”
- Ó vó! Então... conta lá a história da Mariana! – interrompeu-me o meu neto mais velho, como que a pôr um ponto final neste meu diálogo imaginário.
- “Chamo-me Mariana. Vou contar-vos uma história verdadeira. Esta história aconteceu quando eu tinha quatro anos (...) e aquilo pareceu-me um grande mistério”.
E assim continuámos, embrenhados
neste mistério por resolver: A Primeira Vez que baralhámos três
coordenadas – Alentejo, Toronto, Serra da Estrela – no banco de trás de uma
viagem de regresso a casa, sem saber qual delas teria sido mais importante na
vida da Mariana.