OS OLHOS DA LÍNGUA
Pouco
tempo depois de ter chegado a Toronto, fui convidada para fazer parte do júri
do Festival da Canção CIRV-FM. Recordo perfeitamente a encenação da canção
vencedora, posta em palco por Tony Gouveia - Bluff de mim [pág. 35]. Recordo,
acima de tudo, de, antes de Tony Gouveia a interpretar, o poema me ter
despertado a atenção e ter inclusivamente comentado com um dos membros do júri
“Que letra!”. No fim do espectáculo, e depois de atribuídos os prémios, nem
sequer fixei o nome do autor.
No final do ano passado, recebi um
telefonema. Não reconheci a voz. Identificou-se: Rui Balsemão. Após algumas palavras de apresentação, não pude
fugir ao embaraço de confessar a minha imperdoável ignorância. Afinal, Rui
Balsemão continuara a concorrer ao Festival e eu estivera sempre presente como
membro do júri a testemunhar o seu triunfo poético.
Ganhou, então, coragem para me falar do seu livro, melhor, do seu projecto de livro. Disse-me que eram poemas e falou-me deles a medo, num murmúrio, como quem destapa uma intimidade que não quer expor à vista de toda a gente. Perguntou-me se eu tinha tempo para ouvir um. Acedi e do outro lado do fio, senti a voz de alguém que acariciava cada estrofe como quem faz um filho, num arfar de movimentos de métrica sincopada a acompanhar o respirar da alma do poema. Conversámos ainda durante bocado. Finda a conversa, ficou a promessa de lhe ler a versão policopiada. Fi-lo logo que a fui buscar ao local onde nos encontrámos. Por telefone, dei-lhe conhecimento da minha primeira reacção. Adivinhei-lhe no rosto a satisfação de saber que eu tinha gostado. É verdade, gostei, gostei muito. Gostei porque Rui Balsemão conhece a beleza secreta de cada palavra, sabe despi-la de floreados inúteis e colocá-la no lugar certo. Sente-se que nenhuma lá foi parar martelada pela necessidade de uma rima forçada. O poema nasce, solto e livre, da força da toada que está dentro de si e da sensibilidade, que empresta a cada tema a música com que há-de vestir os 35 poemas que compõem o livro.
Se é verdade que predominam os temas de amor, não é menos certo que o autor revela o mesmo domínio da gramática da língua, no tratamento de qualquer um dos outros. Na exaltação do amor, porém, a carga erótica é muito forte, sem que Rui Balsemão descambe nunca numa linguagem que não seja a de celebrar a sede imensa de sensualidade que transpira da vertigem alucinante de dois corpos, que se entregam sofregamente até à exaustão,
“e apenas mal chegados/ beijaram-se perdidos/ e cegos
já tomados/
sem mando e derretidos/ despiram-se a esmo/ e sem
olharem a nada/
fizeram ali mesmo/ ali logo à entrada”.[pág. 71]
para depois se renderem embriagados de prazer
“quando amantes em delírio beijam/ e caem saciados”. [pág. 72]
Este erotismo, contudo, não anula o espaço da crença, da espiritualidade e da pureza original, numa expressão inacabada de um mundo que habita dentro de si e de que o autor nos fala sem pudor. E é quando o ser existencial se mostra, que podemos ver um Rui Balsemão preocupado em exorcizar os fantasmas da morte, quer em forma de testamento
“lego a minha
alma ao vento/ e o meu estro ao infinito”[pág.
37]
ou de inscrição tumular
“Hoje sou um pouco/ um mero excesso/ de tudo que me ficou/ do que fui demais/ e sou um louco/ porque apodreço/ e ainda aposto/ pensando que sou/ o que não sou mais”.
É neste mundo de contradições que
habita o homem projectado num rio tripartido:
a montante, o útero telúrico de África
em que se fez nascente,
a correr para a foz mátria da língua
em que desagua,
num estuário de emigração para onde o
levou o turbilhão das águas da descolonização.
Enquanto o corpo busca ainda a margem
certa onde repousar, a alma de Rui Balsemão vai-se sedimentando em aluviões de
mágoas recolhidas dos vários lugares em que habitou e que deram corpo à jazida
deste livro.
Em Fado de um Batuque [pág.
69], o autor serve-se dos elementos líquidos para sintetizar esta triangulação
de espaços por onde a sua alma se perde:
o cacimbo e o rio Bengo (Angola),
berço do seu corpo físico;
a geada e o Tejo (Portugal), fonte da
língua, matriz da expressão oral e escrita;
a neve (Canadá), leito de frio onde
adormece a saudade dos longes da “terra mártir”.
O mesmo podemos dizer para a metáfora
dos sons, em que o ronco do batuque mais não é do que o grito de quem se
anuncia no negro da noite africana para, mais tarde, pedir emprestadas as
guitarras a Lisboa e chorar o fado pelos kimbos da ausência.
“e
minh’alma só debanda/ co’a saudade que magoa/ vai e voa até Luanda/ volta e voa
até Lisboa” [pág. 69].
Luanda e Lisboa, coração e cabeça de impérios construídos
“no chão batido chão magoado por irmãos do mesmo chão” [pág. 79], seiva
barrenta a que regressa no lamento de um silêncio que não pôde mais calar
sozinho.
“Uma língua é o
lugar donde se vê o mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e
sentir. Da minha língua vê-se o mar”, disse Vergílio Ferreira.
Roubaram-nos o mar, Rui, e em troca
deram-nos um lago onde espelhamos o logro de uma imitação. Mas com os olhos
desta língua vemos tudo o que a nossa imaginação quiser desde que saibamos
ouvir a voz da nossa mais íntima inquietação.
Por isso, Meu Grito Meu Canto é
hoje a expressão em livro daquilo que Rui Balsemão guardou dentro de si e que,
por uma modéstia sem sentido, tardou em revelar a esta Comunidade.
Por o ter feito hoje, parabéns Rui e
muito obrigada.