MAREAR

 

de Isabel Pereira dos Santos

 

PERSONAGENS

LIANA , actriz de origem africana. Sensível, poética.

JOÃO, actor, natural de Portugal. Um dos actores que mais trabalhou para o espectáculo. Impulsivo. 

PROENÇA, actor natural dos Açores. Senhor de si. Um pouco paternalista. O mais velho dos actores.

CATARINA, actriz, jovem, espontânea. Espírito de liderança.

RICARDO, actor, originário de Angola. O mais jovem do grupo.

MARIANA , actriz. Muito bem vestida. A mais velha das actrizes.

MARTA, de origem brasileira. Óptimista. 

ROBERTO, um amigo brasileiro, que gostaria de fazer teatro.

 

A acção passa-se numa pequena sala de uma associação popular, no exterior do espaço geográfico português. Os personagens são membros de um grupo de teatro. Todos se conhecem bastante bem. Ao fundo de cena, numa estrutura que serve de guarda-roupa, estão penduradas algumas peças de vestuário e adereços.  Haverá ainda em cena : dois bancos e uma estrutura com um aparelho de televisão.

(...)

Cena 21        Trouxe um amigo também

O PROENÇA chega com o ROBERTO.

PROENÇA : Pessoal !  Já não havia frangos mas trouxemos pastéis de bacalhau. E trouxe este amigo também !  É o Roberto. Estava lá no restaurante.  Ele disse-me que gosta muito de teatro.

 

ROBERTO : Salut, les amis, oi pessoal !  Je suis Roberto, Bob pour les amis… J’aimerais faire du théâtre avec vous, je sais chanter. Dommage, je ne danse pas… Il y a des brésiliens qui ne dansent pas… Mais moi, je ne sais plus si je suis brésilien ou québécois… Les deux à la fois. Je ne parle plus très bien le portugais, não lembro direito ! C’est ça, língua que você não fala é língua que esquece… Voulez-vous que je chante une chanson ? Só para animar um pouco aqui, esta gente… 

Canta uma canção. Os outros podem acompanhá-lo, ou dançar. Aplausos. Chegam o RICARDO, o JOÃO e o espectador «do carro».

JOÃO/RICARDO :  Chegaram os pastéis de bacalhau !

PROENÇA : Podemos começar a preparar a mesa.

Improvisa uma mesa.

LIA :               Mas agora, que já temos a Clarissa, podemos apresentar alguns extratos do espectáculo…

MARIANA :   Sem o Sebastião não dá. Isto é um espectáculo, não é uma manta de retalhos.

PROENÇA : A mesa já está posta…

RICARDO :  Os pastéis estão a arrefecer !

JOÄO :          É. Estão a arrefecer ! …

PROENÇA : Vamos comer... ( Levanta o copo e propõe um brinde ) À nossa !

                       

Cena 22  Sem o Sebastião

MARIANA :   Afinal o público ficou sem saber o que se passou com a Mulher que tinha um filho nos braços, aquela que esteve dois anos sem notícias…

MULHER COM FILHO :  Depois da carta de chamada eu fui ter com ele. Levava já o nosso filho pela mão. Fomos viver para Montreal, na rua de São Dominique, com a irmã dele.

LIA :               O público também teria gostado de ouvir aquela história do homem que foi trabalhar para as minas… Eu chorava sempre na cena da despedida. ( Pega num lenço branco e acena )

PROENÇA : ( Acena com um lenço) Adeus, adeus…

CATARINA :            E a história do Jovem… Aquela em que o Ricardo fazia de Filho...

RICARDO :  Eu fazia de Filho. ( Aproxima-se do PROENÇA-PAI, sorrindo ).

PROENÇA : Sim ?

RICARDO :  ( Um pouco envergonhado ) Desculpe, confundi-o com outra pessoa…

O RICARDO e o PAI-PROENÇA afastam-se.

CATARINA   Esta cena devia ser diferente… Uma cena muito feliz. O filho e o pai que se encontram, que se abraçam…

O PROENÇA e o RICARDO reencontram-se. Sorriem felizes.

RICARDO :  Era tão bom se a vida, às vezes, se parecesse com uma peça de teatro.

CLARISSE : Depois as luzes baixavam, e ouvia-se uma música muito doce, do Rio… ( A luz baixa. Ouve-se uma balada. )  Aí começava a história daquele brasileiro, o Emigrante de branco. Era assim que lhe chamavam em Portugal, muitos anos depois, quando ele regressou, muito rico e fez construir uma escola para os meninos da sua adeia Natal...

                        Ao som da música o ROBERTO vai até ao guarda-roupa e veste um casaco branco…

CATARINA :            Mas houve também tantos que não voltaram, que sofreram, que ficaram doentes.

MARIANA :  Se o Sebastião chegasse agora…

CLARISSE :           Vamos pensar o que podemos fazer sem o Sebastião…

CATARINA : É. Podemos contar histórias…

PROENÇA :            Mais histórias ?

CATARINA : Histórias de hoje. A história dos filhos do Joaquim. De todos os Joaquims e todas as Manuelas…

RICARDO :   Sim. Histórias de hoje, com sonhos de hoje…

LIO :               Tenho uma ideia para a primeira cena. Montreal. Um quintal de uma casa.

JOÃO :          Flores, uma horta…

PROENÇA : A porta da casa está aberta.

RICARDO :  Do interior da casa, chegam-nos vozes, frases dispersas. Palavras ditas em português.

ROBERTO : No quintal está uma criança. Brincando…

MARIANA :   ( Interrompe ) E em que língua fala a criança ?

Recomeçam a discutir todos ao mesmo tempo. Confusão : – A língua ! / A integração !  / A memória… / O futuro !

No meio da confusão toca um telemóvel.  A Clarisse vai até à sua sacola, que está no guarda-roupa e atende .

 CLARISSE :           Era o Sebastião. Ele não pode vir. Um contratempo profissional. Minhas senhoras e meus senhores, então hoje não há espectáculo. Mas já agora, não vão embora. Podemos pôr uma músiquinha e comer juntos. Eu sei que isto não tem sentido, juntarmo-nos para comer, um colectivo não pode viver de jantares, não pode juntar-se só para jantar… Já imaginaram o que seria uma comunidade que só fosse capaz de se reunir em torno da comida ?  E o alimento do espírito, que é o mais importante ?  Seria terrível uma comunidade assim, não é ?

CATARINA :            Nós vamos continuar a fazer teatro, mesmo sem o Sebastião. É que descobrimos que o importante é Marear. O importante é encontrarmo-nos e dizer o que sabemos e o que não sabemos. O importante é dizer...

PROENÇA : À table !

Escuro.

FIM