FERNANDO CRUZ GOMES


Felizmente há luar



N a aprendizagem de ser o que sou, deambulei muito, a despeito de não me considerar ainda velho. E ao deambular, fui encontrando tipos e figuras que permanecem no baú das coisas que guardo no sótão do meu pensamento.

     Uma delas foi o Luis de Sttau Monteiro. Morreu, não há muito, e a sua morte deixou-me cada vez mais pobre. Para além do mais, ele entendia a minha maneira de ser mau... e doseava-a com esclarecimentos que se iam entremeando de conselhos. Que eu aceitava, imaginem!

     Felizmente há luar, Luís. E mesmo havendo angústia para jantar e sabendo que um homem não chora... dei comigo a interrogar-me sobre o quão prejudicado fiquei com o teu passamento. É que todos os anos pela primavera - ou pelo verão, que para o caso pouco interesse tem... - eu te procurava para alinharmos a guerra santa da minha aprendizagem de ser homem-profissional - ou profissional-homem, se quiseres... - que fica assim incompleta e mais pobre. Sua Excelência, o Homem Grande - que tu também amavas à tua maneira - roubou-te à amizade, à admiração, à ternura que muitos de nós te devotávamos. Não haverá mais cavaqueira nem boémia que cheguei a ensaiar contigo. Tão pouco a angústia será repartida como o era. E mesmo que me digam que o mundo continua... que a vida não pára... que um homem não chora... não posso deixar de te enviar, de longe, um "até breve" que tu entenderás, certo como estou de que o tal Homem Grande há-de permitir que eu continui por lá, na mansão celeste onde os séculos dormem, a aprender mais contigo...

     Li algures, ou alguém me contou, que Luís de Sttau Monteiro morreu. Que a sua prosa em verso - que outra coisa não era senão um Poema autêntico a sua maneira de escrever - se finara para sempre... Alguém me quis calar, entretanto, acentuando que se tratava de um homem de esquerda e que daí nada de bom poderia vir. Peço licença para, desde já, e nesse aspecto, acentuar que me estou marimbando - não vá ao dicionário, porque o significado é outro... - para os que ainda dividem os homens por esquerda e direita, pensando que só há bons num dos lados...

     Dei comigo, entretanto, a dialogar sobre o tema com o Pedro - um esquilo inteligente que mora no meu quintal e o qual, na aridez cultural que por aí se vislumbra, me serve de arrimo e de parceiro das longas cavaqueiras do fala-só, que ainda vou cultivando.

     O Pedro, acenando que não... acentua que o Luís não morreu. Que mora, de momento, na vasta amplidão onde os séculos dormem. E que um homem como ele não morre assim.
 

     Sem atinar muito com o que dizer, fui contrariando, referindo que nunca mais a sua pena vai correr por sobre o papel, nunca mais as suas imagens de prosa poética vão sair em Jornais ou revistas e que nunca mais... a sua imaginação insufla sangue novo em tudo o que toca, dos Jornais à Rádio, passando, também, pela Televisão.

     Que não, foi contrapondo o Pedro. Que pairam nos ares os lampejos da sua criatividade. Que, todos os dias, felizmente há luar e que os meninos dos séculos que hão-de vir lhe continuarão a chamar Luís. Debruçando-se por sobre os seus livros, copiando-lhes os sentimentos, brincando com a Guidinha que ele criou e fazendo avançar, até onde for possível, a sua (dele, Luís, ouviste, incrédula criatura...?!) imaginação e arte, a sua forma de ser e estar no mundo... onde ele continua, afinal, com os livros que soube e quis escrever.

     O Pedro é bem capaz de ter razão. De resto, no seu deambular por um quintal pequeno a que chamo meu, já ouviu o vento a trazer-lhe a mensagem do Luís, deixada, ali, esparramada na árvore onde se encosta e de onde desce para hibernar...

     O Pedro tem razão.

     A ti, Luís amigo, esta carta que nunca escrevi.

     A última vez que te vi foi na Rua Coelho da Rocha, um dos recantos de Lisboa onde ainda quase se ouve o manejar suave dos livros com os quais gostavas de dialogar. Ao teu redor, o filho que estremecias. Embevecido a ouvir-te falar. Juntos 2 ou 3 elementos do partido que estava (e já não está) no Governo e mais outros tantos dos que, no areópago de São Bento, se degladiam, diàriamente... O traço de união eras  ali tu, amigo, que partiste quando tanta falta ainda fazias.

     O filho, que ali se encontrava frente a ti e a todos nós, haveria de te deixar tempos depois. Um estúpido acidente de moto levara-o e tu, bem contra-gosto, deixaste-te mergulhar na mais cruel das tristezas. Vem até nos jornais que nunca mais foste a mesma pessoa... desde que, do Algarve, te disseram que ele tinha morrido.

     A ti, Luís amigo, esta carta que nunca escrevi.

     O Pedro - já te falei nele, não é?! - diz-me que não morreste. Que estás aqui, ali, mais acolá. Que já te sentiu no vento que lhe assobia aos ouvidos e nas árvores que o abrigam das intempéries. E o Pedro nunca me enganou...

     És bem capaz de estar mesmo ao meu lado e de eu não saber, ainda hoje, ouvir a tua voz. De não ser capaz, afinal, de dialogar contigo. De ter, ainda, muito que aprender...

     Talvez por isso... teimo em te chamar de Luís amigo. Olhando-te, olhos nos olhos, a pedir-te que me perdoes não ter feito a grande amizade que tu esperavas fosse a nossa. O mundo, com o qual eu ainda pactuo, foi-nos separando, erigindo moinhos de vento onde haveria de haver cabeças, fazendo calar o que devia ser gritado aos quatro ventos e obrigando-nos a beber a cachaça do trivial e comezinho homem que somos, esquecendo o que poderíamos ser. Hás-de perdoar-me, decerto, personalidade forte e alevantada que sempre foste...

     A ti, Luís amigo, esta carta que nunca escrevi.

     Felizmente há luar. Mesmo cá longe onde os homens se entendem apenas quando o cifrão funciona. Felizmente há luar, Luís, porque nos séculos que se vão seguir, havemos de nos encontrar, uma e muita vez. Nas árias de uma canção. No brúa da cidade que tu entendias e nem sempre te entendia. No livro que tu querias que eu escrevesse e eu não me decidi ainda. No  poema - lembras-te?! - que escrevemos juntos. No  Teatro que te hão-de continuar a realizar os meninos de outros pais. No  vento, afinal, ao qual, às vezes, atiravas - e eu atiro ainda... - pedidos mudos de socorro. E que afaga, ainda hoje, a pelugem lustrosa do meu amigo Pedro.

     Ele, afinal, tinha razão. Tu, Luís amigo, nunca mais morres... E nós, os outros, só morreremos se não conseguimos copiar-te os sentimentos e não deixarmos obra que se veja.

     A ti, Luís amigo, esta carta que nunca escrevi.