AIDA BAPTISTA

EM NOME DAS "DIVERCIDADES"


 

 

 

            Tanto a RTP como a SIC Internacional se encontram orientadas para a organização de programas dirigidos aos seus concidadãos residentes na diáspora. Dando cumprimento a esse objectivo, incluem na sua grelha de programação conteúdos mais ou menos intimistas que fazem com que o telespectador, durante algumas horas do dia, se sinta em casa. Escolhe o recanto mais confortável da casa, enterra o corpo num cómodo sofá, prime o botão do comando e, sem visto no passaporte, lá parte de viagem até Portugal. Uma paisagem feita de conversa mole com convidados que mastigam o tempo a fazer apelos a um saudosismo sempre pronto a verter uma lágrima,  a música a percorrer o folclore de norte a sul e ilhas, o fado mais pungente a cantar a dor da ausência, a gastronomia a desfilar iguarias que não o deixam indiferente ao pecado da gula. Enfim, tudo lhe faz recordar a pátria distante. E, nestas coisas, deixemo-nos de pruridos hipócritas porque todos nós, longe do país, já sentimos estes arroubos de um patriotismo deslocado. Quem for capaz de o negar, que atire a primeira pedra!

            Pois bem, é nesta lógica que funcionam programas como “A Praça da Alegria”, “Portugal no Coração” e agora, o mais recente, “Divercidades”. Se atentarmos na grafia deste último, depressa percebemos que a substituição do “s” pelo “c” pretende - por efeito da homofonia - por um lado, evocar a diversidade de povos e de culturas e, por outro, transportar-nos para as diferentes cidades do mundo onde existem portugueses. Claro que a palavra cidade, neste caso, não representa apenas o espaço urbano, mas é uma metáfora para qualquer lugar onde se vivem os valores da portugalidade.

            Vivendo fora do país, eu não fujo ao estereotipo de qualquer outro emigrante. Sintonizada que estou, muitos dias, na RTP Internacional, assisti na passada quinta-feira ao primeiro programa de Paco Bandeira – Divercidades. Foi por acaso, ao fazer o zapping pelos diferentes canais. Era dedicado a Santarém e, sendo a minha cunhada uma escalabitana por nascimento e eu uma ribatejana por adopção, passámos aquele serão a rememorar vivências comuns.

            É também habitual, em programas deste tipo, haver telefonemas provenientes dos mais variados pontos do globo. Compatriotas que gostam de falar com o apresentador ou com os convidados do programa. Quem está por dentro da organização, sabe como estas coisas funcionam. Alguém recebe a chamada, coloca o interlocutor em espera e comunica ao apresentador o nome de quem está ao telefone. O apresentador, quando lhe é feito sinal, saúda quem está do outro lado iniciando, assim, a conversa. Ora isto de conversas ao telefone, também já todos sabemos como é. Umas vezes, percebe-se bem e, outras, nem tanto. Deve ter sido o que aconteceu desta vez ou a grafia imperceptível do nome provocou um equívoco. Paco Bandeira pensa que é uma Manuela Eusébio e enceta a conversa como se falasse com uma senhora. Mal soa a voz do outro lado, reconhece-se o timbre masculino. Paco, colhido de surpresa, sai do engano mais ou menos desta forma (estou a citar de cor).

            - Desculpe, caro amigo. Mas... olhe... não me leve a mal que eu, nestas coisas, defendo a mesma posição do Papa!

            São publicamente conhecidas as últimas declarações do Sumo Pontífice em relação aos homossexuais. É a posição oficial da igreja.  Não nos espanta! Mas o Paco é um cidadão português que, em nome de Portugal, apresenta um programa dirigido a outros portugueses. Chamou-lhe “Divercidades” que evoca diversidades. A diversidade assenta nas diferenças entre todos. Nós, caro Paco, o mínimo que lhe exigimos é que respeite as diferenças e que não tenha uma visão unilateral e fundamentalista das inclinações de cada um. Depois de ter visto a actuação da orquestra típica, ouvido Carlos Mendes e apreciado a sugestiva pintura de Mário Silva, acho que Paco Bandeira não tinha necessidade de, na parte final, ter pegado na paleta do mau gosto para borrar a pintura toda! E eu gostava de si, Paco. Foi precisamente em Benguela que, em meados da década de 60, o vi pela primeira vez. Estava no início da sua carreira e o Cine Monumental abarrotava de gente. Era o período de «Ó Elvas, ó Elvas/ Badajoz à vista/ Sou contrabandista de amor e saudade/ ...» Passaram muitos anos, Paco. Neste percurso feito de tantas diversidades – pensava eu – o contrabando do amor e da saudade foi substituído pelo preconceito, mantendo a actualidade de George Orwel, quando uns são mais diversos que outros, dependendo, em última instância, de quem se arvora em árbitro da moral e dos bons costumes. Só que na hora de enviar remessas, o dinheiro deixa de ter orientação sexual. Lembre-se disso, Paco, porque é com dinheiro que lhe pagam o serviço que deveria prestar aos emigrantes. Lembre-se também, Paco, que há mais gente a gostar de inventar palavras. Por exemplo: boçalidade e “bossalidade”. Ora uma boçalidade é um procedimento ou uma atitude de quem é boçal. E o Paco foi boçal, muito boçal mesmo! Bossalidade, como não existe no dicionário, direi que a formei a partir de bossa. E as bossas não são protuberâncias apenas dos dromedários. Sem ofensa para os últimos, há mais quem as tenha, mas na cabeça.

 Em nome da “Ternura dos Quarenta” já lhe perdoámos “O Livro Chamado Inês”. Percebemos que correspondia à forma de pensar de uma época que colocava a fasquia da honra da mulher sempre abaixo da cintura. Mas tantos anos depois, Paco, poupe-nos a este tipo de comentários e, sobretudo, nunca os acompanhe de um sorriso ordinário. Por respeito a todos nós.  E, já agora, por si também.

Em nome de todas as “divercidades”!