A LÍNGUA MIRANDESA
Resposta para algumas perguntas
(Texto distribuído aos
participantes do workshop de Língua
Mirandesa, que teve lugar no Festival Intercéltico de Sendim, no dia 5 de
Agosto de 2006, às 18 horas)
O que é o mirandês?
O mirandês é uma língua falada no Nordeste de Portugal, já desde antes
da fundação da nacionalidade. Apesar de apenas em 1999, com a lei nº 7/99, de
29 de Janeiro, o mirandês ter sido oficialmente reconhecido como língua,
Portugal foi sempre um país bilingue, embora até há bem pouco tempo fosse
apresentado como o único país monolingue da Europa. Afinal, também aqui se
confirmava a ideia de que o bilinguismo ou o multilinguismo dos países é a
regra e não a excepção.
Onde se fala mirandês?
A língua mirandesa é falada em todas as aldeias do concelho de Miranda
do Douro, com excepção de duas (Atenor e Teixeira), e em três aldeias do
concelho de Vimioso (Vilar Seco, Angueira e Caçarelhos), no distrito de
Bragança. A área ocupada pela região onde se fala o mirandês tem à volta de 500
km2 de superfície e situa-se na fronteira com a província espanhola de Zamora. O
mirandês é também falado por muitos mirandeses que imigraram para as principais
cidades do país ou que emigraram para o estrangeiro.
Na cidade de Miranda do Douro não se fala mirandês, segundo alguns
autores desde o início do século XVII, mas a língua tem vindo a regressar à
cidade através de pessoas das aldeias que, nos últimos anos, aí têm vindo a
fixar residência. Também desde há alguns anos as crianças da cidade usufruem do
ensino da língua mirandesa nas escolas públicas.
O espaço onde se falou mirandês ou outras variedades do leonês já foi
bastante mais vasto, incluindo, em traços gerais, toda a zona do distrito de
Bragança que se situa entre a margem esquerda do rio Sabor e a fronteira com
Espanha. Terá sido assim na Alta Idade Média, regredindo progressivamente em
direcção à fronteira. Além do mirandês, outras falas astur-leonesas se
mantiveram até há pouco tempo na zona fronteiriça do concelho de Bragança, em
particular em Rio de Onor, Guadramil, Deilão e Petisqueira.
Apesar de já não se falar mirandês nessa região mais vasta, ainda pode
falar-se de uma cultura comum, em particular na área correspondente à medieval
Terra de Miranda.
Quantas pessoas falam mirandês?
Não existe um cálculo rigoroso do número de falantes de mirandês. No
fim do século XIX, José Leite de Vasconcelos calculou que seriam 15 000 e esse
número tem vindo a ser repetido, sem critério. Se outras razões não existissem,
bastaria ter em conta a diminuição da população nos últimos 30 anos para que tal
número não possa já ser aceite.
Recentemente têm-se apresentado números que variam entre os 6000
falantes, contando apenas os residentes na região de origem, e os 10 000,
contando também os imigrantes e emigrantes. Na fixação desses números tem-se
também em conta o menor ou maior conhecimento da língua e o seu uso menos ou
mais regular.
Independentemente dos números, refira-se que a extinção da língua
mirandesa já foi anunciada por vários autores desde o século XIX, chegou até a
dizer-se que não iria além dos anos 80 do século XX, mas a verdade é que ela
continua viva.
Apesar de viva, a língua mirandesa tem vindo a sofrer alguma erosão, em
particular desde meados do século passado. O facto explica-se, numa primeira
fase com o impacto da vinda de milhares de falantes de português para
construção das barragens do Douro internacional, Picote, Bemposta e Miranda do
Douro, e depois com a generalização do ensino, da rádio e da televisão e, em
geral, com a melhoria das condições de mobilidade das pessoas.
Hoje a língua mirandesa é ameaçada na sua sobrevivência tanto por
factores internos, em particular a desertificação da região onde se fala e o
enfraquecimento do modo de transmissão familiar, como por factores externos, em
particular os resultantes da pressão exercida pelos meios de comunicação
social, pela escola e pelos meios considerados de sucesso económico, em
particular a empregabilidade.
Qual a origem da língua mirandesa?
A língua mirandesa tem a sua origem num dos romances que se formaram na
Península Ibérica a partir do latim, o romance que deu origem à família de
línguas astur-leonesas – onde a língua mirandesa se integra - , que se formaram
a partir dos séculos VI-VIII. Essa era a língua do reino de Leão, com excepção
da zona galaico-portuguesa. Nessa altura era a língua da corte e dos mosteiros,
escrita em milhares de documentos até aos séculos XIII-XIV. Desde a sua
fundação, a fronteira política de Portugal não coincide com a fronteira
linguística. Sempre se falou outra língua em Portugal, além do português, a
língua mirandesa. Esta é, portanto, a justo título, uma língua de Portugal,
elemento essencial da sua história, da sua cultura e da sua identidade.
Alguns autores procuraram demonstrar que o mirandês não era originário
da terra de Miranda, mas se devia a colonização leonesa nos séculos XIII e XIV,
quer pelos frades do Mosteiro de Moreruela quer por outros colonos leoneses.
Porém, sabemos hoje que: essa colonização foi muito pouco profunda e se limitou
a algumas aldeias da terra de Miranda; em documentos do século XII, relativos à
terra de Miranda, já encontramos topónimos escritos numa língua com as
características da língua mirandesa, como é o caso da doação do reguengo de
Palaçoulo por D. Afonso Henriques, em 1172, a Pedro Mendes, L Tiu; que houve continuidade de
povoamento da terra de Miranda desde antes da fixação dos romanos nesta região,
habitada por uma específica tribo astur, os zoelas ou zelas.
A partir da criação da vila de Miranda, em 1289, mas sobretudo a partir
do século XVI com a elevação de Miranda do Douro a cidade e a criação do
bispado (1545), a língua mirandesa enveredou por caminhos que lhe fizeram
ganhar características próprias no conjunto das línguas astur-leonesas, embora sem
pôr em causa a sua pertença a essa família de línguas. As características
próprias que o mirandês veio a ganhar exigem a sua consideração como língua, e não
como mera expressão dialectal de alguma outra língua astur-leonesa.
Tal como a língua mirandesa, também outras línguas astur-leonesas
ganharam algumas características próprias, de que é exemplo o asturiano, falado
no principado das Astúrias e reconhecido como língua por estatuto do
principado. Apesar das diferenças, essas várias línguas nunca perderam o ar de
família que as continua a unir, quer em termos estruturais quer em termos
históricos. É nessa base de reconhecimento dos laços históricos comuns, mas de
aceitação das diferenças que os ventos da história lhe fizeram ganhar, que é
possível restabelecer e desenvolver laços seguros entre as várias línguas
leonesas, sem menorizar quem quer que seja. Esse é um processo delicado,
necessariamente lento, e que vai exigir ainda muito trabalho.
Como se deu o processo de menorização da língua mirandesa?
O desaparecimento do Reino de Leão privou a língua astur-leonesa de um
centro de poder que permitisse a sua irradiação e, sobretudo, a sua uniformização
e consolidação como língua, levando ao seu acantonamento progressivo nas zonas
rurais.
Nessa situação, as línguas astur-leonesas, e também o mirandês, ficaram
excluídas dos grandes movimentos culturais dos séculos XV-XVI, como o humanismo
e o renascimento, que permitiram o enorme salto dado pelas línguas de poder,
ditas nacionais, como o português e o castelhano. É por essa altura que se
inicia ou acentua o processo de menorização dessas línguas, bem expresso, por
exemplo, em alguns autos de autores teatrais do século XVI como Juan del
Encina, em Espanha, e Gil Vicente, em Portugal, mas presente como tópico obrigatório
em quase todos os autores desse tempo, incluindo Miguel de Cervantes. É por
este período que culminam os processos de implantação das chamadas línguas
nacionais, quer como línguas da administração pública, quer como línguas
institucionais em geral. De grande eficácia institucional foi o chamado
movimento para «rezar em lingoagem» (português), desencadeado e imposto pelas
Constituições Episcopais, sobretudo nos séculos XV e XVI, que impôs o português como a única língua
digna de falar com Deus.
Sobretudo desde essa altura, o mirandês passou a ser considerado como
fala de gente inculta, como «fala charra» ou «fala caçurra», objecto de chacota.
A regra a seguir, por parte da quase totalidade dos mirandeses letrados, era
abandonar a fala materna em favor da língua «grabe», o português. Havia-se
perdido o elo com a sua origem histórica, e essa perda de memória histórica
levou a que lançasse raízes a ideia de que o mirandês não era uma língua outra,
mas um português mal falado, uma mera variedade do português, própria de gente
atrasada e inculta.
A mesma perda de memória histórica é responsável por tanta gente ter
estranhado o reconhecimento, atravês de lei, do mirandês como língua. Também
por isso, alguns ainda pensam que o mirandês nasceu como língua em 1999, mas a
lei limitou-se a reconhecer o que já era uma língua há centenas de anos.
Porque se manteve o mirandês até aos nossos dias?
A maioria dos autores tem atribuido a manutenção da língua mirandesa a
dois factores fundamentais: o isolamento em relação ao resto do país; a
contínua e profunda relação com os povos do outro lado da fronteira, em
particular das regiões de Aliste e de Sayago.
O argumento do isolamento não tem qualquer fundamento: por um lado a
terra de Miranda não estava mais isolada do que as terras contíguas, onde
deixou de se falar mirandês; por outro lado, a partir da criação do bispado de
Miranda e da elevação de Miranda do Douro a cidade (1545), esta passa a ser um
centro de poder e de cultura, com um número razoável de pessoas letradas e em
estreito contacto com o resto do país; fundamental é dizer-se que os mirandeses
são, pelo menos, bilingues desde há vários séculos, isto é, falam o mirandês e
o português, o que não sucederia se o isolamento fosse o que se diz.
O argumento do estreito contacto com as regiões fronteiriças contíguas,
sobretudo Aliste e Sayago, faz todo o sentido, já que se falava leonês dos dois
lados da fronteira, pelo menos até fins do século XIX ou princípios do século
XX.
A este argumento há a acrescentar o facto de o mirandês ser uma língua,
isto é, dispondo de mecanismos geradores do seu desenvolvimento, geradora de
forte consciência linguística e com capacidade de autosubsistência.
Por fim, há ainda que referir o sistema de uso diferenciado do
português e do mirandês, de modo muito rígido, permitindo a subsistência e
desenvolvimento de ambas as línguas em simultâneo. Este uso diferenciado,
sobretudo a partir do século XVI, pode ser assim resumido: o português é a
língua institucional e de contacto com elementos estranhos à comunidade; o
mirandês é a língua da comunidade, quer nas relações sociais e familiares, quer
nas relações de trabalho.
O mirandês é uma língua ou um dialecto?
As palavras «língua» e «dialecto» nem sempre têm o mesmo significado
para os diversos autores. Porém, é geralmente aceite que uma língua se
distingue de um dialecto pelo seu reconhecimento político, o aconteceu com o
mirandês através da lei 7/99, de 29 de Janeiro, aprovada pela Assembleia da
República. Tal significa que a distinção é colocada em aspectos externos à
própria língua, o que diz bem da manipulação política, e até ideológica, a que
aquelas palavras estão sujeitas.
Uma língua existe sempre que estejamos perante um sistema linguístico
gramaticalmente perfeito e com características distintivas próprias, o que é
reconhecido ao mirandês desde que, nos fins do século XIX, foi estudado por
José Leite de Vasconcellos.
O uso da língua, independentemente do nome e qualquer que ela seja, é
um direito fundamental que radica na dignidade de cada uma das pessoas que a
falam, bem como da comunidade que através dela se expressa e se identifica.
Esta é a questão essencial.
Quais são as principais características da língua mirandesa?
Apresentam-se de seguida apenas as principais características, sem as
esgotar. Faz-se uma comparação com o português e com o castelhano, para melhor
fazer ressaltar essas características, que nuns casos a diferenciam e noutros
casos a aproximam de uma ou outra dessas línguas:
- o mirandês (salvo no dialecto sendinês) palatiza o ‘l’ inicial, o que
não acontece em português nem em castelhano: lhuna – lua (port.), luna (cast.); lhana – lã (port.), lana (cast.);
- há uma série de ditongos crescentes que afastam o mirandês tanto do
português como do castelhano: castielho
– castelo (port.), castillo (cast.); tierra
– terra (port.), tierra (cast.); fuonte
– fonte (port.), fuente (cast.); buono –
bom (port.), bueno (cast.); ferruolho
– ferrolho (port.), cerrojo (cast.);
- o mirandês conseva o ‘l’ e o ‘n’ intervocálicos, que caem no portugês
(mas não em castelhano): arena –
areia; tener – ter; pila – pia; malo – mau;
- o ‘ll’ e o ‘nn’ duplos intervocálicos latinos palatizaram-se em
mirandês, mas não em português: cabalho –
cavalo; canha – cana.
É também de referir:
- o ‘f’ latino conserva-se em mirandês e português, mas não em
castelhano: afogar-se – ahogarse; forno - horno;
- a nasal ‘ão’ portuguesa não existe no mirandês (salvo em um tipo de
casos no dialecto sendinês): son –
são; pan – pão; armano – irmão.
- a inexistência de vogais altas átonas em início de palavra (ex. einemigo, inimigo; oufender, ofender; anganhar,
enganar; anfenito, infinito);
- a inexistência do prefixo des-,
reduzido a z- (ex. zamprego, desemprego; zaparecer, desaparecer) ou ç-
(ex. çcascar, descascar; çclarar, declarar).
A isto há que acrescentar: uma conjugação verbal específica, embora o
sistema verbal do mirandês seja semelhante ao do português; os artigos
definidos l (o) e la (a), os pronomes pessoais (you, eu) e possessivos (miu, meu; mie, minha, etc.); modos de tratamento de respeito, específicos e distintos;
algumas palavras com género diferente (ex. la
calor, o calor); advérbios e locuções inexistentes em português (ex. ende, sourtordie); uma sintaxe com várias
características próprias; e bastante vocabulário distinto do português, apesar
de haver uma grande continuidade lexical como acontece em todas as línguas de
origem latina da Península.
Mas também há semelhanças entre o mirandês e o português, sobretudo o
do norte interior, de que se destaca: um sistema de quatro sibilantes (por ex.
pronunciam-se diferentemente cesta,
sesta; maça, massa; cozer, coser; beiço, beiso; trás, traç); ausência de v, existindo apenas b (ex. baliente, biaige).
Concluindo, pode dizer-se que o mirandês tem características próprias
que o distinguem tanto do português como do castelhano e o filiam nas línguas
asturo-leonesas, mas partilha igualmente semelhanças e infuências daquelas duas
línguas, embora com predomínio da influência do português. Isso em nada afecta
a sua autonomia e a sua estrutura perfeita como língua, não sendo uma mistura
entre aquelas duas línguas.
A língua mirandesa tem as mesmas características em todo o lado ou
apresenta variedades?
Já José leite de Vasconcellos havia distinguido três variedades dentro
do mirandês: o mirandês do norte ou raiano, que é falado em várias aldeias
junto à fronteira (raia seca) com Espanha; o mirandês do sul ou sendinês, que é
falado na vila de Sendim; o mirandês central que é falado nas restantes aldeias
e que foi adoptado como padrão pela Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa.
Assim, como qualquer língua, e apesar do seu reduzido número de falantes e da
pequena área geográfica onde se fala, também o mirandês apresenta importante
variação interna.
Das variedades do mirandês, a que apresenta diferenças mais sensíveis é
o sendinês, que foi objecto da 1ª Adenda à Convenção Ortográfica da Língua
Mirandesa. Em termos de ortografia, a convenção seguida é a mesma, apenas se
permitindo que os sendineses, se o desejarem, possam escrever com l- em início de palavra em vez de lh- (ex. luna / lhuna, para a palavra ‘lua’). Outras distinções a assinalar,
além de aspectos da sintaxe e do léxico: o tratamento de respeito é, no
mirandês central e raiano, na 2ª pessoa do plural (Á tiu Antonho, bós stais an casa manhana a la
purmanhana?), e é, no sendinês, na 3ª pessoa do singular (Á tiu Antonho, el stá an casa manhana a la
purmanhana?); o sistema de ditongos crescentes, que ora desapareceram em
sendinês, ora apresentam outras características; a queda do «g» depois de –i-
tónico [ami(g)o, fi(g)o, tri(g)o],
traço que também se verifica, menos regularmente, em outras aldeias como
Constantim e em Paradela; a palatalização de «c» em –ico (ex. cachico) e de
«g» em –ingo/inga (ex. demingo, spingarda), traço que também se
apresenta em outras localidades, embora de modo menos regular.
O mirandês raiano, além de algum léxico específico, por vezes com
influência castelhana, apresenta lo /la como
artigo definido, em vez de l / la, e
alguns traços similares ao sendinês, como a queda do «g» depois de -i- tónico.
Como se dá a transição do mirandês de língua exclusivamente oral a
língua também escrita?
A língua mirandesa manteve-se como língua exclusivamente oral até 1884,
ano em que José Leite de Vasconcelos publicou o poemário Flores Mirandesas, a primeira obra escrita em mirandês. No último
quartel do século XIX vários autores mirandeses publicaram obras em mirandês,
em particular traduções de autores clássicos e de «Os Quatro Evangelhos», com
destaque para Bernardo Fernandes Monteiro, Manuel Sardinha e Francisco
Meirinhos. A escrita seguida por José Leite de Vasconcelos era muito complexa,
visando expressar toda a riqueza da oralidade, mas um sistema de escrita mais
simples foi apresentado por Gonçalves Viana, depois seguido por vários autores.
Daí em diante a escrita da língua mirandesa oscilou entre aquelas duas
propostas, até que em 1999 é publicada a Convenção Ortográfica da Língua
Mirandesa, cujo projecto esteve em discussão desde 1995.
A Convenção Ortográfica da Língua Mirandesa foi elaborada, com o apoio
de vários falantes, por estudiosos de mirandês e por linguistas dos Centros de
Linguística da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e da Faculdade de
Letras da Universidade de Coimbra. Em 2000 foi aprovada a Primeira Adenda à
Convenção Ortográfica e está em discussão pública a Segunda Adenda.
A Convenção Ortográfica da Língua Miranesa, e as suas Adendas, veio
permitir uma crescente harmonização da escrita da língua, hoje seguida pela esmagadora
maioria dos autores que escrevem em mirandês e adoptada no ensino do mirandês
nas escolas.
A discussão e investigação em torno da escrita da língua mirandesa
ainda não se pode considerar concluída, nomeadamente porque a Convenção
Ortográfica e as suas Adendas não abarcam todos os aspectos relativos à escrita
da língua. A edição de manuais de ensino, de uma moderna gramática do mirandês
(já existe uma gramática publicada em 1900 por José Leite de Vasconcelos) e de
um dicionário de língua mirandesa, são também materiais essenciais nesse
percurso de normatização da língua.
Qual a situação do ensino da língua mirandesa?
O ensino da língua mirandesa iniciou-se em 1985/86, na Escola
Preparatória de Miranda do Douro, com Domingos Raposo, aí se mantendo por
vários anos, reduzido a duas turmas do 5º e do 6º anos.
Entretanto, o ensino foi regulamentado pelo Despacho Normativo, do Ministro da Educação, n.º 35/99, de 5 de Julho, na
sequência da lei nº 7/99, de 29 de Janeiro. O ensino é considerado como opcional.
Esta regulamentação do ensino sofre de graves deficiências, o que tem levado a uma
diminuição do número de horas lectivas (agora reduzidas a uma hora semanal), a
um processo de colocação de professores com graves irregularidades, à ausência
de apoio à formação de professores e à edição de materiais de apoio ao ensino,
entre outros problemas. Aguarda-se um novo estatuto do ensino do mirandês, cuja
necessidade já foi publicamente reconhecida pelos dois principais partidos, e
para que já foram apresentadas propostas ao Ministério da Educação, que
continua sem dar resposta a este problema, tão simples de resolver.
Já em 2000, o ensino estendeu-se às escolas primária e preparatória de
Sendim, com Carlos Ferreira. Hoje a língua mirandesa é ensinada em todas as
escolas do concelho de Miranda do Douro, da pré-primária ao 12º ano, como
disciplina de opção, devendo-se essa expansão aos esforços iniciados por Carlos
Ferreira e continuados e levados a bom termo por Duarte Martins.
A língua mirandesa tem sido também ensinada na UTAD – Universidade de
Trás-os-Montes e Alto Douro (Pólo de Miranda do Douro), em cursos ministrados
por Domingos Raposo.
Fora do ensino oficial têm sido realizados vários cursos, de diferente
natureza, apenas se realizando de modo regular o ensino organizado pela Associaçon de Lhéngua Mirandesa, em Lisboa,
desde 2001, em cursos iniciados por
Existe uma literatura em língua mirandesa?
Sempre existiu uma riquíssima literatura mirandesa de tradição oral,
nos mais diversos domínios da expressão popular: poesia, romance, conto,
cantiga, oração, etc. Uma parte importante desse património está ainda por
recolher e, sobretudo, por organizar e estudar. Parte importante dessa
literatura é em português e em castelhano, mas um núcleo significativo é em
mirandês. Só por desconhecimento dos organizadores se pode compreender que
apenas um poema popular mirandês figure na antologia Rosa do Mundo, editada em 2000 e que pretende ser representativa da
poesia mundial dos últimos 2000 anos. Essa literatura, a par de outros aspectos
da cultura mirandesa, faz parte do património cultural da humanidade
A literatura escrita em língua mirandesa inicia-se em 1884, com a
publicação do poemário de José Leite de Vasconcelos, Flores Mirandesas. Ainda no século XIX assistimos à publicação de
poemas originais por Francisco Meirinhos, de traduções de Camões e de Antero de
Quental por Manuel Sardinha, de Camões e dos Quatros Evangelhos por Bernardo
Fernandes Monteiro. Já no século XX, António Maria Mourinho publica vários
poemas em mirandês, depois reunidos no volume Nuossa Alma i Nuossa Tierra, a que se veio juntar mais tarde o
poema Scoba Frolida an Agosto e
outros poemas dispersos.
Este período, sem prejuízo do valor literário das obras produzidas,
teve como principal finalidade o estabelecimento de um corpus que fixasse um património linguístico ameaçado, como é
expressamente referido pelos autores. Porém, a evolução da língua mirandesa
como língua literária, em sentido moderno, não tem parado, apesar de a pouca
difusão das suas obras tornar tal realidade menos evidente. Também do ponto de
vista literário não há línguas menores, porque nenhuma língua é, à partida,
inferior a qualquer outra e a nenhuma está negada a capacidade de expressão
literária elevada e não apenas tradicional ou popular. É neste contexto que
deve ser encarado o surto de literatura mirandesa a partir dos anos 90 do
século XX, e o surgimento de autores como Alcina Pires, Alfredo Cameirão,
A capacidade de gerar literatura em vários níveis e em diversos géneros
tem sido seguramente um dos modos de afirmação da língua mirandesa.
Qual a importância da língua mirandesa para Portugal?
A preservação das chamadas línguas minoritárias tem vindo a tornar-se
uma evidência para cada vez maior número de pessoas. Mas esse é sobretudo um
imperativo orientado a preservar uma parte indispensável do património cultural
da humanidade. Daí que todo o processo de defesa e promoção da língua deva ser
encarado como uma exigência de cidadania da mais alta importância, que não tem
apenas uma dimensão nacional, mas internacional.
A diversidade linguística e cultural é uma riqueza para Portugal,
integrante da nossa identidade. Aceitando a verdade histórica e sociológica,
Portugal deve apresentar-se como país bilingue e integrar essa referência nos
programas das nossas escolas, dando a conhecer a todos os cidadãos a existência
da lingua mirandesa, sua origem e características.
A democracia linguística é um elemento importante da democracia em
geral, assente no respeito pela diferença. Não basta uma lei proclamatória,
exigindo-se que o Estado concretize os compromissos que assumiu em lei, nos
mais diversos domínios.
Além de um problema de dignidade dos seus falantes, as línguas são
também um problema ecológico, entendido em sentido amplo, que a todos deve
preocupar. Pela língua se exprimem culturas, tradições, saberes e modos de
viver que são essenciais ao equilíbrio das sociedades e ao bem estar dos
cidadãos. Também de Portugal. Se o mirandês desaparecer ninguém ganha nada com
isso, mas Portugal, os portugueses e, dentre estes, os mirandeses ficam mais
pobres.
Para os mirandeses e para todos os concelhos da terra de Miranda, em
particular, o mirandês e a cultura mirandesa assumem-se também como um
importante valor económico, que importa ter em conta numa região que está em
profunda depressão económica e em acelerado processo de desertificação.
Pelo facto de falarem outra língua, os mirandeses não são menos
portugueses que os outros, como o demonstra a sua história, nem nunca quiseram
ser outra coisa senão portugueses. Hoje os mirandeses continuam a ser bilingues
e a sua afirmação do mirandês não implica a negação do português. Defender,
promover e desenvolver a língua mirandesa é um dever de cidadania que se impõe,
nomeadamente a todos os mirandeses.
Sendim, 5 de Agosto de 2006
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ANEXO:
CRÓNICA PUBLICADA NE
L JORNAL PÚBLICO, AN 15 DE JANEIRO DE 2006
Cumo quien bai de camino
BELHETE DE EIDENTIDADE DE L
MIRANDÉS
An sítios adonde bou a falar subre la lhéngua mirandesa ou an
preguntas, beio siempre ua grande curjidade de las pessonas por saber adonde,
cumo i quando naciu essa lhéngua. Bendo bien, ye la mesma curjidade que tenemos
culas pessonas que nun coincemos. Assi i todo, anque seia coincida de todos, ua
pessona ten un belhete de eidentidade que apersenta un retrato i çclara un
manhuço de algues caratelísticas que la puoden çtinguir de las outras, anque
séian caratelísticas de fuora i nada mos dígan quanto al fondo dessa pessona.
Tal i qual cumo pa las pessonas, tamien podemos apersentar l belhete de
eidentidade dua lhéngua, que mos deia las purmeiras anformaçones subre la sue
parte de fuora yá que la sue armaçon nun puode relhumbrar nesse retrato. Para
quien inda se manténgan ancundesadas las percipales caratelísticas, de fuora,
de la lhéngua mirandesa, eiqui deixo l que puode ser l sou belhete de
eidentidade.
Nome – mirandés.
Filiaçon – lhatin. Parentena – lhéngua
stur-lheonesa i lhénguas románicas. Era
de nacimiento – hai alredror de mil anhos. Morada – 30 aldés de l cunceilho de Miranda de l Douro i 3 aldés de
cunceilho de Bumioso, çtrito de Bergança, Pertual; fui-se pul mundo culs
mirandeses que son benediços noutras tierras, falando-se hoije an buonos
juntouros nas percipales cidades de Pertual, subretodo Lisboua i Porto. Nacion – Pertual, çclarada lhéngua
oufecial pula lei nº 7/99, de 29 de Janeiro, de la Assemblé de la República. Modo
de se screbir – cunsante la Cumbençon Outográfica de la Lhéngua Mirandesa
(1999) i sue Purmeira Adenda (2000) que se puode achar an www.mirandes.no.sapo.pt. i an www.sendim.net Ansino –
ansinada oufecialmente, por scuolha, nas scuolas de l cunceilho de Miranda
de l Douro zde 1985/86, na UTAD (Ounibersidade de Trás ls Montes i Alto Douro),
i tamien, zde 2001, an cursos dados pula Associaçon de Lhéngua Mirandesa, na
region de Lisboua. Ferramientas – “Pequeno
Vocabulário de Mirandês-Português”, de Moisés Pires (2004) i dicionairo an
publicaçon an www.bragancanet.pt/dicmirandes
i www.mirandes.net; gramática screbida
por José Leite de Vasconcellos an 1900 (Estudos de Philologia Mirandesa, vol. I); lhiteratura que ampeçou yá ne
l seclo XIX i hoije ye acrecentada to ls anhos cul salimiento de lhibros de
poesie, quelóquios, cuontas, crónicas i traduçones; jornales que sálen a cada
sumana cumo l Jornal Nordeste, zde 2003, jornales de las scuolas i jornales birtuales
cumo www.diariodetrasosmontes.com
i tamien jornales nacionales cumo l Público, que a cada més publica ua crónica
an mirandés. Falantes – nun se sabe
bien al cierto quantos son, mas andaran por 7 000, talbeç algo mais. Percipales porblemas – perda an relaçon
a la fala pertuesa, subretodo an família; abeixamiento de l númaro de moradores
na region de nacimiento, por bias la zerterficaçon que se há dado; falta de
anstituiçones que la repersénten cumo debe de ser; andebles ajudas de l Stado,
central i local; fraco coincimiento ne l paíç i, por esso, andeble cuncéncia de
la sue amportança. Prázio de balidade – sin
prázio, até que ls mirandeses quérgan.
Amadeu Ferreira
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