MANUEL CARVALHO

À BEIRA-MAIN



TEXTO INTEGRAL DE "À BEIRA-MAIN"


O livro À BEIRA-MAIN, da autoria de Manuel Carvalho, publicado em Maio de 2003, é uma homenagem aos pioneiros portugueses que, a 13 de Maio de 1953, chegaram a Halifax, a bordo do Satúrnia. Reune as obras "Saga"(1989), "Parc du Portugal"(1997) e "À beira-Main"(inédito).

O Boulevard St-Laurent, também conhecido pela Main, foi, em tempos idos, a fronteira que dividia (unia) as zonas inglesa e francesa de Montreal. À sua beira, por entre saudades e esperanças, as gentes portuguesas recriaram o seu “jardim à beira-mar plantado”.

“SAGA” é um precioso livrito de crónicas-quadros-quase-contos que pincelam com mão experimentada na vida o quotidiano de um português procurando entender-se no chão canadiano, sempre com a mão na testa a querer vislumbrar a terra-mãe.

(Onésimo Teotónio Almeida-Revista Ler)








Não haverá reportagem em qualquer meio de comunicação que dê tão claramente esse lado, que não se revê em imagens, que é do sentir, do sentir de um povo na amálgama do choque de culturas, com a saudade e com um nível de vida nunca antes sonhado. "PARC DU PORTUGAL" é isso e muito mais que só se descobre lendo."

(Jornal de Notícias)





LIVRO PRIMEIRO-SAGA

A FRAUDE

- Pai, tente compreender, por favor!

Estavam a almoçar. O Manuel Transmontano, a mulher, a filha. Num domingo de Maio.

O Manuel Transmontano encarou de raspão os olhos garços e límpidos da filha. Baixou a cabeça para o prato, as batatas entrancadas na garganta. As palavras saíram-lhe enferrujadas.

- Tu é que sabes da tua vida. Mas se saíres daquela porta para fora, para te ires juntar com esse estrangeiro, nunca mais tornas a entrar nesta casa.

- Eu e o Maurice gostamos um do outro. Tente compreender, por favor. Por favor!

Minutos de silêncio O sol a jorrar da janela.

- Vou dar uma volta.

- Onde vais, Manel? - alarmou-se a mulher, chorosa.

- Descansa que não me vou enforcar.

Na rua sentiu-se perdido.

Os quinze anos de Canadá repartira-os entre o trabalho e a casa, para além de uma ou outra saltada à loja do Açoriano para beber um copo e dar dois dedos de conversa. Com duas viagens a Portugal de permeio, para matar saudades, para preparar o amanhã.

Foi dar ao jardim. Um jardim a cobrir-se vertiginosamente de sol e verde. Sentou-se num banco. Um esquilo desceu duma árvore e aproximou-se em avanços e recuos inquietos.

As perguntas, acusações, da aldeia em peso não lhe davam tréguas:

" E a tua filha? O quê?! Deixaste-a naquela terra? Com um estrangeiro? Nem sequer casada? Que raio de homem és tu? Não te sais ao teu pai, não. Com esse ela vinha de rasto, nem que fosse morta. Andaste tantos anos por lá para quê? Todas as terras que compraste vão ser para os lobos. Mais valia teres ficado por lá, desgraçado."

- Hei-de morrer nestas terras, enterrado num buraco de gelo?

O esquilo amaranhou árvore acima, amedrontado com o grito do homem. Lá no alto, ficou imóvel, a espiar.

Como o homem não desse mais sinais de vida, tornou a descer e continuou a cabriolar sobre a relva tenra.

LIVRO SEGUNDO-PARC DU PORTUGAL

REGRESSO

O Manuel Transmontano acordou com o berreiro desenfreado dos galos.

Na cozinha, foi encontrar a irmã a tratar da lavadura dos porcos. Já o lume, num estralejar festivo, devorava um braçado de urzes.

- Está frio.- Sentou-se no escano e avançou as mãos para o lume. - Já parece o Canadá.

- Dizem que este ano vai nevar muito - respondeu a irmã. - Deixa-te ficar aí que eu vou levar a bianda aos cochinos. O café já está quase quente.

O Manuel apoiou as omoplatas na dureza do espaldar do escano. Embrulhado num manto de mil evocações com o freio nos dentes: aquele lume estralejante a saltar-lhe às mãos como um cachorro, o eterno caldeiro cachoante de água fumegante, os potes de ferro resquentando a sopa, aquele fumo acre que se acumulava em nuvens densas e azuladas, matizadas pela luz do dia nascente, lá junto às vigas escurecidas do telhado donde pendia a armação do fumeiro, as varas ansiosas pela próxima matança, aquele mocho de castanho polido onde uma fogaça e uma caneca esmaltada esperavam o café.

-Estavas a dormitar? - Era outra vez a irmã. - Nem quero acreditar que desta vez vens para ficar. - O rosto curtido, enrolado no lenço negro, ensopou-se de lágrimas velhas. - E assim se nos foi a vida, Manuel, estamos acabados.

- Qual acabados, qual quê! Se tu visses aqueles canadianos! Quando se reformam é para viver, não é para se sentarem à espera da morte. Então as mulheres, se as visses, velhotas de setenta anos e mais, parecem umas raparigas novas, bem trajadas, nada destes lutos de cá, cores claras, ricos penteados.

- Isso não é para estas terras. - O café escorria, num murmúrio bom, para a caneca.- Não sei se a tua mulher, a Alzira, se vai dar por cá. Isto é um cemitério de velhos.

A mulher atirou um capão ao lume que, quando se viu com forças, atirou os braços rubros ao redor do caldeiro.

- Ela aceita de boa cara o regresso? Nas últimas férias, não me quis parecer.

- Que remédio tem ela.

Regresso! Palavra de mil alquimias. Nos primeiros tempos do Canadá fora abençoado remédio contra os males da saudade e do desenraizamento. Depois, à medida que novas raízes começaram a rasgar húmus imprevistos, transformara-se, sem se darem conta disso, num processo lento, num espinho cravado nas carnes, num agente perturbador da paz de espírito.

Para não lhe perder o sentido, o Manuel, de tempos a tempos, evocava-a: quando me reformar, regressamos a Portugal.

E nesse serão, num assomo de coragem, reunira as forças dispersas que lhe restavam, para falar:

"Dentro de seis meses, atinjo a reforma. Deveríamos ir a Portugal, preparar o regresso."

A lavar a loiça, de costas, o fio de voz da mulher era quase inaudível:

" Vai tu, sòzinho. Agora, não posso deixar o nosso neto. Além disso, não precisas de mim para tratar do que há a tratar."

- A Alzira não se vai dar por cá. Cicouro já não é terra para ela. - tornou a irmã. - Vê lá se ela quis vir contigo!

- Cala-te, dianho de mulher.- exasperou-se. - Não veio porque não tinha com quem deixar o nosso netinho. Mas que raio de conversa esta!

- Mesmo tu estás diferente. Já não és homem para te enfiar neste buraco. - teimou ela.

- Vai lá tratar dos porcos, anda! Estás a ficar velha, é o que é. De muita paciência precisa o teu marido, para te aturar.

Meio apoquentado pelas palavras da irmã, nessa manhã, quando se sentou à mesa da cozinha para escrever à mulher, o Manuel Transmontano falou-lhe da casa que os esperava de braços abertos, da fidelidade do cunhado que tratara das terras com tanto zelo como se fossem dele, dos vivos e dos mortos, e, lá para a segunda página, num arroubo de coragem: "em todo o caso, ainda me sinto novo para trabalhar mais um ou dois anos, não é preciso apressar o regresso, não está nenhuma mulher para parir." Ficava assim aberta a porta para futuras negociações, no regresso a Montreal.

Depois, de coração liberto, saiu de casa e foi, rua abaixo, a falar a este e àquele, tão naturalmente como se nunca tivesse saido da terra.

LIVRO TERCEIRO-À BEIRA-MAIN

NOITES INQUIETAS

"Conho! Dianho de mulher!” Estranho como agora, na recta final da vida, o linguarejar mirandês, durante tantos anos amodorrado, esquecido, lhe salta à boca, nas horas de inquietação.

Tudo por culpa daquela tagarela da Lise que, quando se cruzam nas escadas, com aquela voz açucarada, está sempre a convidá-lo a subir, para tomar um café.

            Mas resiste. Teima em resistir. Por fidelidade à memória da Alzira, o corpo ainda quente na sepultura. Por razões que ele próprio desconhece. Por medos que o deixam de sangue a ferver nas veias.

            Ainda mal se apercebeu de que tudo se está a transformar nos seus hábitos. Já deixou de sair. Já deixou de ir ao Benfica. À  noite, fica ali na sala, de orelhas espevitadas. Atento aos  ruídos que  descem do andar de cima.

            Espia-lhe os passos, interpreta-lhe os movimentos: agora está a lavar a loiça, a água a gorgolejar nos canos; agora está a limpar a casa, o aspirador num ronco surdo; agora sentou-se no sofá, a televisão de goelas abertas.

- Quando sobes para tomar um café?- pergunta ela

na encruzilhada das escadas.

- Qualquer dia será.

- Já sabes, é só subir.

Maldita mulher! E cada vez mais fresca. Até lhe custa a crer que não frequente homem. Desde que ela se mudara para ali, e já iam corridos um bom par de anos, nunca se apercebera da presença de nenhum.

- Quando sobes? Pode ser hoje?

O persistente convite martela-lhe a cabeça. Pregou-se em qualquer resquício do cérebro. Até já sofre de insónias. Logo ele que sempre dormiu como uma pedra, mesmo nas horas de tormento e aflição.

Hoje é sábado. Sobe o som da televisão e percorre os canais à procura dum bom filme que o distraia. Mas nada o contenta.

Vai até à janela. Uma neve esparsa, dilui-se ao calor das vidraças. Pega no telefone para falar à filha, ouvir o palrar do neto. Mas ninguém o atende. O clamor insistente do telefone crava-lhe a solidão na alma.

            Nove horas da noite. Apaga a televisão. Ouve-lhe os passos leves a caminho da casa de banho, o jorrar da água para a banheira. Depois, outra vez os passos dirigem-se para o quarto. Há um silêncio prolongado. Deve estar a vestir o roupão. Talvez a pentear os cabelo curtos e aloirados.

            Levantou-se do sofá. Tornou a sentar-se. Gotículas de suor perlam-lhe a fronte. Deve ter o aquecimento da casa muito alto. Levanta-se para verificar o termóstato.  Tudo está  normal.

Finalmente, os passos encaminham-no para a porta, para as escadas que já sobe furtivamente. Fustiga-se:

“Dianho de homem! Pareces uma criança da escola, com medo da mestra.” E, com mão trémula, foi bater à porta da Lise.

INTEGRATION(Texte en français)


FINALMENTE, A ST-LAURENT É NOSSA


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