AIDA BAPTISTA


Aida Baptista nasceu nos Pinheiros, Tabuaço, em 1948. Com um ano de idade partiu com os pais para Angola de onde regressou a Portugal em 1975. Leitora de Português do Instituto Camões, esteve colocada na Finlândia e na Universidade de Toronto no Canadá. No Canadá colaborou assiduamente no jornal Milénio e na Satúrnia-Letras e Estudos Luso-Canadianos. Em Agosto de 2003 regressou a Portugal. É presentemente directora do Centro de Língua e Cultura Portuguesa de Benguela, cidade aonde regressou após 30 anos de ausência.
É autora do livro de crónicas "Passaporte inconformado"-2004

Outras páginas sobre a autora:

RAIZ DO SONHO
ANGOLA, 30 ANOS DEPOIS
ENTREVISTA


A Raiz do Sonho


            Sigo pela auto-estrada que me leva a Lisboa. Paro numa das áreas de serviço para tomar um café e fumar um cigarro. Aproveito e utilizo os sanitários, prevenindo-me para as horas que ainda tenho pela frente. Enquanto lavo as mãos, olho-me ao espelho. Dou comigo a travar um monólogo silencioso com o meu reflexo que se vai desfocando, desfocando, lentamente, numa viagem pelo tempo em que aquele percurso se fazia por uma qualquer estrada nacional, que nem já o número recordo. Uma viagem à terra era uma aventura – quase um dia inteiro. Já para não falar de toda a excitação antecipadamente vivida, como se em cada viagem houvesse sempre uma véspera. Verificar os travões, as luzes, os pneus, o óleo do carro. Preparar o farnel, como quem ia antigamente para uma romaria. Deixar já o máximo de coisas no porta-bagagens do carro para que no dia não nos esquecêssemos de nada. Arrumar tudo muito bem arrumadinho, porque há sempre coisas de última hora que exigem mais um buraquinho. E, ala, que se faz tarde!

            Saíamos ao romper da alva que, naqueles dias, ninguém tinha sono. A estrada abria-se descarada à nossa frente, num convite libidinoso a que nela penetrássemos num coito de horas, interrompido sempre que o corpo o exigisse para dar satisfação a outras necessidades. Momentos para o ritual do piquenique a lembrar aquelas cenas das séries americanas, muito britânicas, em que o cenário é sempre idílico, as crianças comportam-se muito bem e nunca se sujam. A sombra democraticamente votada pelos meus filhos, mas sempre decidida por mim que, nisto de democracia - que até é muito bonita - acaba por prevalecer o bom senso. O estender da manta que andava sempre na bagageira do carro para o que desse e viesse. As sandes metidas nuns saquinhos de pano, tipo envelope, bordados a ponto de cruz , que ignorava ir aquela cruz ainda a meio do calvário. O bolo que repousava entre as linhas cruzadas do xadrez da manta, a desenhar convites à gula, para que as crianças subvertessem as regras da refeição e começassem por ele. Uma correria solta pelo pinhal como que a ganhar energias para o serpentear da Serra do Buçaco. Procurar uma silva ou uma moita, que discretamente encaixasse no conceito de sanitário público, que o que mais irrita é já estar o carro a andar e ouvir uma vozita implorar «mamã, quero fazer chichi!».

            Uma cassete debitando os êxitos dos anos setenta, enquanto eu inventava jogos para enganar o tempo: nomes de animais começados por A. Abelha- grita um deles.

            -Por a... por a..., não me consigo lembrar. Da próxima vez, sou eu a começar – ripostava, já meio zangado, por esta serôdia falha de memória que eu colmatava com o atum, lembrando que os peixes também são animais. E a fauna ia desfilando pelo alfabeto: boi, cão, doninha, elefante, formiga, gaivota, hipopótamo, javali, lontra, macaco, n, por n, não sei, ó mamã ajuda-me, osga, pato, e agora o q de nove, também não sei, ajuda lá mamã, rato, sapo, touro, o unicórnio, a saltar da ásia das cartas de marear da minha infância. Meto travão ao alfabeto e salto para uma outra série: agora, nomes de cidades, vilas ou aldeias, portuguesas ou estrangeiras, tanto faz. Já não se tratava apenas de matar o tempo. Exercitava-se a memória, alargava-se o léxico toponímico e praticava-se a leitura estando atento às placas que ladeavam a estrada. De cidade em cidade, chegámos ao O. Quedaram-se os dois pensativos, até que um deles solta um grito de descoberta, como marinheiro na gávea: «eu sei, mamã, eu sei. Óshington!» Na geografia dos seis anos, em que não existe correspondência entre fonema e grafema, mas apenas o poema do saber em embrião, Washington começa por O. E eu também não desmanchei aquele embrião de saber- sob pena de ser acusada de ter provocado um aborto pedagógico – feito de certezas redondas, como a letra que acabara de proferir. Redondas eram também as grandes lajes graníticas disseminadas na paisagem , onde espreitavam Aquilino e Torga , a anunciarem que o destino já estava próximo. Mas ainda faltavam uns quilómetros, que a aritmética da falta de estruturas rodoviárias se encarregava de multiplicar. Havia que reinventar outras operações matemáticas, transformando a gramática do somar em sumir, a ver se o tempo aprendia a apagar a frase <ainda falta muito, mamã?> - Estamos quase a chegar, respondia eu, na convicção de que aquele quase era quase uma mentira piedosa, com que se engana a candura de crianças de seis e sete anos. E, como nesta idade qualquer jogo ganha foros de interactividade (como hoje se diz), propus-lhes que estivessem atentos aos carros que passavam. Um contaria os carros com matrícula estrangeira (leia-se dos emigrantes); o outro, os de matrícula portuguesa. «Nós também somos estrangeiros, não é mamã?» Porquê? – indago com um ar de espanto de quem não percebe nada do sistema ordenador e coordenador do pensamento, pensando que as crianças, às vezes, não raciocinam com acerto.

-         Porque também tivemos que mudar a matrícula do nosso carro!

            Mas quem é que dá aulas de lógica às crianças? Desenterram os silogismos não sei donde e não há sofisma que nos valha! A sua dedução estava correctíssima; em Angola (onde nasceram), as matrículas eram diferentes.

            Não filhos, nós não somos estrangeiros! Certificava-me o bilhete de identidade - uma caderneta com várias folhas antes de inventarem o cartão plastificado – sem saber como explicar que ainda éramos estrangeiros nas vivências, nos sentimentos de partilha, nas relações de pertença. Sobretudo nos afectos que tivéramos que subtrair, mas ainda não tínhamos tido tempo de aprender a somar. Estávamos em 1975. Curioso que só agora me lembrei. Hoje, à distância de tantos anos, recordo que a minha primeira aula sobre emigração fora dada nesse mesmo dia, para um auditório muito reduzido- em espaço, em número de participantes, em faixa etária – mas muito atento e participativo. E o tema surgira por via dumas matrículas muito europeias - quando ainda se não falava na Europa - que enxameavam as estradas portuguesas na época do Verão e do Natal. Não sabia, então, que um dia também eu me transformaria numa pedra dessa calçada portuguesa, calcetada com pancadas de sonho por um martelo a desenhar novos destinos no rosto de cada um.

            Hoje faço os mesmos jogos com o meu neto, excepto o das matrículas. Os emigrantes trocaram as incómodas viagens de carro pelo conforto das passarolas voadoras. E, se não repararam, Portugal deixou de ser um país de emigração para ser um país de imigração. Mais uma vez, a geografia humana a baralhar o fonema e o grafema, mas a manter inteira a raiz do sonho, que me devolve ao espelho, por onde viajei.